É um tanto estranho, mas as memórias são assim, em tom sépia...; e atrás de uns blocos de granito, abrem-se alas para tempos que insistem em permanecer, por mais que (às vezes) os tentemos enxotar. Não são postais envelhecidos. São quadros impressos dentro da alma. Vontades de regresso sufocadas. Amálgamas de passado secreto com crenças no futuro redentor. O agora é apenas o caminho. E este espaço, tão carinhoso com as recordações, um gratificante mapa de tesouros.
Também a minha mãe conheceu a Caçada da Ladeira e a R. do Garrido e suas imediações na era pré-Alameda e dos quais me deu alguns "lamirés" que a minha memória não reteve. Da Calçada da Ladeira só conhecí o troço residual que unia a Barão de Sabrosa ao "abismo" que caía a pique sobre a Alameda, tal como a mostram algumas fotos do Arquivo Fotográfico. Alí fui às compras, num mercado ao ar livre que lá se instalou e alí brinquei entre restos de paredes e pisos cimentados de casas que não conhecí, tal como o portão da foto. A.v.o.
Lembro-me desse troço para o abismo, que não percebia bem. E as casas velhíssimas que davam as traseiras à Alameda e que se viam degradadas lá de baixo também não faziam sentido face à monumentalidade da fonte. Não sonhava eu o que de lá brotaria em indo abaixo. Cumpts.
Nasci na Quinta Do Alperce em 1947. A casa e a quinta foi dos meus avós e pais até que a casa foi vendida 1948. Só restava a casa após duas expropriações. A casa que ainda existe é mesmo a casa da quinta.
Não lhe respondi antes porque não me apercebi do seu comentário, desculpe! Agradeço a nota de vida que trouxe à aridez destas memórias fotográficas que já não lembram a ninguém. Suponho que se refira aqui à casa da Rua do Garrido de que me fala noutro comentário. Cumpts.
Boa noite O meu nome é Maria Emília de Matos e Silva de Almeida mas normalmente uso o nome de Emília Matos e Silva que é o meu nome artístico, uma vez que sou pintora. Na minha certidão de nascimento diz que nasci na Alameda Afonso Henriques na quinta do Alperce. Se tiver interesse poderá ver na minha página do Facebook as fotos que lá coloquei à dias. O meu avô comprou a quinta por volta de 1916 ou 1917. Sei isto porque sei que a minha mãe nascida em 1905 tinha onze anos quando foi para lá viver. A casa ainda existe e pertence desde há bastante anos ao Ministério da Segurança Social. Só tive possibilidade de lá entrar recentemente porque uma antiga funcionária superior desse Ministério teve a amabilidade de lá me levar. Eu sai de lá com 6 meses. Já só existia a casa depois de duas expropriações por parte de Duarte Pacheco. Tivemos de vender a casa porque a minha mãe vivia lá com uma irmã mais tinha mais dois outros irmãos que exigiram partilhas. Vou enviar-lhe um texto escrito pela minha mãe que explica como era a quinta. Eu saí de lá em 1948 e o texto deve ter sido escrito por volta dessa data. .. com fundo desgosto deixei essa casa, essa querida casa que foi o paraíso da minha adolescência, fonte inesgotável de alegrias sãs, boa saúde física e mental que desde o primeiro dia nela desfrutei. Para uma criança criada na cidade, embora saindo todas as férias para o campo ou para a praia, aquela quinta foi a felicidade. Tinha a parte rústica representada pelas hortas vicejantes e sempre fartas, o pomar sendo além disso semeada de árvores de fruto por todos os recantos e de todas as variedades, com campos de semeadura, searas (coisa que até aí nunca vira de perto). Capoeiras bem providas, cortiços com abelhas, um estábulo com 10 vacas, vinha e latadas encimando as ruas e jardins, nem menos de cinco grandes jardins a abarrotar com flores, adornadas com muros de buxo, de tanques a emprestar frescura e graça a todos eles. Qualidades de árvores de sombra raras: um cacto gigante circular, uma árvore-da-borracha, tamareiras com verdadeiras tâmaras, eucaliptos, pinheiros bravos e mansos, acácias de floração branca, roxa e rosa, olaias e tramangueiras empenachadas de lilás e rosa, oliveiras, que sei eu, de tudo bastante e bem distribuído de forma a encher de sombra aprazível as ruas e bancos de azulejos antigos, porque bem antiga era essa quinta que no portão principal deitando para um pequeno largo na azinhaga do Areeiro, esquina da Calçada da Ladeira, tinha lindo painel de azulejos figurando dois pavões de caudas em leque abertas e policromas e a data de 1726. Aí vivi e cresci, aí senti pela primeira vez com o contacto diário com a natureza, o encantamento que ela empresta ao campo, no decorrer das estações do ano e as transformações constantes porque assistia deslumbrada, fizeram-me conceber o desejo de descrever o que via, tentando reproduzir em letras e frases o meu sentir. Começaram os primeiros versos (maus versos de péssima poetisa) e os primeiros ensaios literários. Quanto a estudos …. Há 32 anos Lisboa não era como é hoje. No Largo do Chile terminava a Avenida Almirante Reis e depois rumo ao Areeiro e à Quinta do Alperce, que este era o nome pitoresco da Quinta e que, juntamente com os terrenos e outra Quinta dos Alperces que ainda existe ou existiu no Caminho de Baixo da Penha, pertenceram a Pina Manique, só havia azinhagas entre muros e de leito pedregoso ou terra batida e a Rua do Areeiro, pouco mais larga e também toscamente empedrada, por onde passava o elétrico. Daí por diante e à volta da nossa, quintas de semeadura, mais quintas rústicas ( a do Padre – a do Manuel dos Passarinhos, etc.). Como poderia seguir regularmente os estudos, frequentar um liceu (havia tão poucos para meninas e tão longe!) ter uma educação oficial? Os professores iam dar-me lições a peso de ouro indo o carro do meu pai buscá-los e pô-los novamente em casa ou aonde mais lhes convinha. Assim aprendi português com o professor José Portugal, autor do Método Prático de Português e um bom, proficiente e simpático professo
Boa noite O meu nome é Maria Emília de Matos e Silva de Almeida mas normalmente uso o nome de Emília Matos e Silva que é o meu nome artístico, uma vez que sou pintora. Na minha certidão de nascimento diz que nasci na Alameda Afonso Henriques na quinta do Alperce. Se tiver interesse poderá ver na minha página do Facebook as fotos que lá coloquei à dias. O meu avô comprou a quinta por volta de 1916 ou 1917. Sei isto porque sei que a minha mãe nascida em 1905 tinha onze anos quando foi para lá viver. A casa ainda existe e pertence desde há bastante anos ao Ministério da Segurança Social. Só tive possibilidade de lá entrar recentemente porque uma antiga funcionária superior desse Ministério teve a amabilidade de lá me levar. Eu sai de lá com 6 meses. Já só existia a casa depois de duas expropriações por parte de Duarte Pacheco. Tivemos de vender a casa porque a minha mãe vivia lá com uma irmã mais tinha mais dois outros irmãos que exigiram partilhas. Vou enviar-lhe um texto escrito pela minha mãe que explica como era a quinta. Eu saí de lá em 1948 e o texto deve ter sido escrito por volta dessa data. .. com fundo desgosto deixei essa casa, essa querida casa que foi o paraíso da minha adolescência, fonte inesgotável de alegrias sãs, boa saúde física e mental que desde o primeiro dia nela desfrutei. Para uma criança criada na cidade, embora saindo todas as férias para o campo ou para a praia, aquela quinta foi a felicidade. Tinha a parte rústica representada pelas hortas vicejantes e sempre fartas, o pomar sendo além disso semeada de árvores de fruto por todos os recantos e de todas as variedades, com campos de semeadura, searas (coisa que até aí nunca vira de perto). Capoeiras bem providas, cortiços com abelhas, um estábulo com 10 vacas, vinha e latadas encimando as ruas e jardins, nem menos de cinco grandes jardins a abarrotar com flores, adornadas com muros de buxo, de tanques a emprestar frescura e graça a todos eles. Qualidades de árvores de sombra raras: um cacto gigante circular, uma árvore-da-borracha, tamareiras com verdadeiras tâmaras, eucaliptos, pinheiros bravos e mansos, acácias de floração branca, roxa e rosa, olaias e tramangueiras empenachadas de lilás e rosa, oliveiras, que sei eu, de tudo bastante e bem distribuído de forma a encher de sombra aprazível as ruas e bancos de azulejos antigos, porque bem antiga era essa quinta que no portão principal deitando para um pequeno largo na azinhaga do Areeiro, esquina da Calçada da Ladeira, tinha lindo painel de azulejos figurando dois pavões de caudas em leque abertas e policromas e a data de 1726. Aí vivi e cresci, aí senti pela primeira vez com o contacto diário com a natureza, o encantamento que ela empresta ao campo, no decorrer das estações do ano e as transformações constantes porque assistia deslumbrada, fizeram-me conceber o desejo de descrever o que via, tentando reproduzir em letras e frases o meu sentir. Começaram os primeiros versos (maus versos de péssima poetisa) e os primeiros ensaios literários. Quanto a estudos …. Há 32 anos Lisboa não era como é hoje. No Largo do Chile terminava a Avenida Almirante Reis e depois rumo ao Areeiro e à Quinta do Alperce, que este era o nome pitoresco da Quinta e que, juntamente com os terrenos e outra Quinta dos Alperces que ainda existe ou existiu no Caminho de Baixo da Penha, pertenceram a Pina Manique, só havia azinhagas entre muros e de leito pedregoso ou terra batida e a Rua do Areeiro, pouco mais larga e também toscamente empedrada, por onde passava o elétrico. Daí por diante e à volta da nossa, quintas de semeadura, mais quintas rústicas ( a do Padre – a do Manuel dos Passarinhos, etc.). Como poderia seguir regularmente os estudos, frequentar um liceu (havia tão poucos para meninas e tão longe!) ter uma educação oficial? Os professores iam dar-me lições a peso de ouro indo o carro do meu pai buscá-los e pô-los novamente em casa ou aonde mais lhes convinha. Memórias de Fernanda Matos e Silva
para melhor esclarecer a casa fica do lado esquerdo de quem sobe a Alameda em direcção à Fonte Luminosa. Fica mesmo ao lado da parte superior da fonte. é uma casa recuada estilo neoclássico, e o acesso é através de um portão e de uma escadaria.
Bom dia! Obrigado do trecho que teve a amabilidade de transcrever. Estas memórias de sua mãe estão publicadas? A descrição é preciosa, especialmente pelo que faz reviver estas quintas e lugares bucólicos do termo de Lisboa, completamente esquecidos. Raramente acho uma composição original relatada na primeira pessoa, como esta, referente à vida realmente vidida nestas quintas. Ninguém hoje faz ideia.
Não sei se viu a planta do projecto inicial da Alameda. Nela vêm descritos os prédios e os proprietários; vem o nome João da Cruz David e Silva apontado à Quinta do Alperce; e percebe-se bem a situação da casa de que falamos, que muito estranhava eu quando descia a Alameda e a via sobranceira, recuada, com aquele acesso por uma escada, como se fizesse parte doutro cenário que não o da Fonte Luminosa e das ruas adjacentes. E realmente era doutro cenário. Cumpt.
Boa noite O meu avô materno era João da Cruz David e Silva. A minha mãe era escritora e publicou para alem de alguns livros vários textos em suplementos do jornal o Século. No entanto acho que este texto nunca foi publicado. Infelizmente só resto eu dessas pessoas ligadas à quinta do Alperce. A minha mãe era a filha mais nova e depois da morte da mãe e com a doença do pai só casou um pouco tarde para a época. Eu também sou a filha mais nova e infelizmente o meu irmão morreu há dois anos. Talvez o meu irmão soubesse. Vou dar uma volta nos vários dossiers com escritos da minha mãe para ver se encontro mais alguma coisa referente à quinta. Cumprimentos
Boa noute! Não tenho «facebook», por isso não posso ver o que lá publicou. Mas vi o seu blogo e gostei. Não sei se chegou a um verbete da Calçada da Ladeira e arredores onde se mostram mais duas de 1938 e 1939 que dão o panorama dos terrenos da futura Alameda de Dom Afonso Henriques?
E há uma vista aérea sobre o Técnico que abarca até ao Alto do Pina, onde se vê a Quinta do Alperce por inteiro, embora com pouco pormenor.
Boa noite Já tinha visto essas fotos há já alguns anos. O seu blog é muito interessante. Não fui eu que o descobri mas sim uma grande amiga minha que me enviou o endereço. Penso que fala do meu blog Três Gerações. Eu tenho muito orgulho da família em que tive a felicidade de nascer. Resolvi fazer o blog e convenci o meu irmão a colaborar comigo. Desde há já algum tempo que é a minha filha que o tem continuado. O meu irmão faleceu mas também já tinha parado de escrever lá bastante antes disso. Tenho orgulho da família porque eram pessoas de grande cultura e valor, na arte, na escrita e na música. A minha filha é doutorada em história de arte. Para mim a cultura tem muito valor. O facto de falar do facebook é só porque pus lá fotos que lhe podiam interessar. De resto não tem nada de especial. Gosto muito da cidade de Lisboa e da sua história. O meu pai que era editor e proprietário das Edições Excelsior, publicou um livro sobre Lisboa chamado Lisboa no passado e no presente, escrito pelo arquitecto Jorge Segurado. Gostava de conhecer a tal planta que fala da quinta do Alperce.
Tenho a «Lisboa no Passado e no Presente» Fascinante! Guardo-o com desvelo. Refiro-me a ele e ao modo como o descobri aqui.
A planta, aqui. É uma página dos planos para a construção da Alameda «online» pelo arquivo municipal. Diferentes do que veio a ser o jardim e a fonte luminosa, mas interessantes. Se usar os botõezinhos na barrinha acima da planta pode avançar nas páginas. se clicar em «índice» verá os fólios do projecto. Cumpts.
O blog que pensei que tivesse visto é o https://tresgeracoes.blogspot.com. Esse fala da família começada com o meu avô João da Cruz David e Silva e Emília Matos e Silva.
Imponente pórtico. Felizmente nas zonas rurais ainda se vêem vários exemplares, nomeadamente na minha região.
ResponderEliminarBom trabalho!
E ainda há por lá alperces?
ResponderEliminarVão resistindo alguns. Até ao progresso final.
ResponderEliminarCumpts.
Não. Só uma fonte...
ResponderEliminarCumpts.
É um tanto estranho, mas as memórias são assim, em tom sépia...; e atrás de uns blocos de granito, abrem-se alas para tempos que insistem em permanecer, por mais que (às vezes) os tentemos enxotar.
ResponderEliminarNão são postais envelhecidos. São quadros impressos dentro da alma.
Vontades de regresso sufocadas.
Amálgamas de passado secreto com crenças no futuro redentor.
O agora é apenas o caminho.
E este espaço, tão carinhoso com as recordações, um gratificante mapa de tesouros.
Vontades de regresso mal sufocadas. E tesouros de requinte e gentileza no mapa dos comentários.
ResponderEliminarMuito obrigado pela visita Dª Margarida Pereira.
Também a minha mãe conheceu a Caçada da Ladeira e a R. do Garrido e suas imediações na era pré-Alameda e dos quais me deu alguns "lamirés" que a minha memória não reteve. Da Calçada da Ladeira só conhecí o troço residual que unia a Barão de Sabrosa ao "abismo" que caía a pique sobre a Alameda, tal como a mostram algumas fotos do Arquivo Fotográfico. Alí fui às compras, num mercado ao ar livre que lá se instalou e alí brinquei entre restos de paredes e pisos cimentados de casas que não conhecí, tal como o portão da foto.
ResponderEliminarA.v.o.
Lembro-me desse troço para o abismo, que não percebia bem. E as casas velhíssimas que davam as traseiras à Alameda e que se viam degradadas lá de baixo também não faziam sentido face à monumentalidade da fonte. Não sonhava eu o que de lá brotaria em indo abaixo.
ResponderEliminarCumpts.
Nasci na Quinta Do Alperce em 1947. A casa e a quinta foi dos meus avós e pais até que a casa foi vendida 1948. Só restava a casa após duas expropriações. A casa que ainda existe é mesmo a casa da quinta.
ResponderEliminarNão lhe respondi antes porque não me apercebi do seu comentário, desculpe!
ResponderEliminarAgradeço a nota de vida que trouxe à aridez destas memórias fotográficas que já não lembram a ninguém.
Suponho que se refira aqui à casa da Rua do Garrido de que me fala noutro comentário.
Cumpts.
Boa noite
ResponderEliminarO meu nome é Maria Emília de Matos e Silva de Almeida mas normalmente uso o nome de Emília Matos e Silva que é o meu nome artístico, uma vez que sou pintora. Na minha certidão de nascimento diz que nasci na Alameda Afonso Henriques na quinta do Alperce. Se tiver interesse poderá ver na minha página do Facebook as fotos que lá coloquei à dias. O meu avô comprou a quinta por volta de 1916 ou 1917. Sei isto porque sei que a minha mãe nascida em 1905 tinha onze anos quando foi para lá viver. A casa ainda existe e pertence desde há bastante anos ao Ministério da Segurança Social. Só tive possibilidade de lá entrar recentemente porque uma antiga funcionária superior desse Ministério teve a amabilidade de lá me levar. Eu sai de lá com 6 meses. Já só existia a casa depois de duas expropriações por parte de Duarte Pacheco. Tivemos de vender a casa porque a minha mãe vivia lá com uma irmã mais tinha mais dois outros irmãos que exigiram partilhas.
Vou enviar-lhe um texto escrito pela minha mãe que explica como era a quinta. Eu saí de lá em 1948 e o texto deve ter sido escrito por volta dessa data.
.. com fundo desgosto deixei essa casa, essa querida casa que foi o paraíso da minha adolescência, fonte inesgotável de alegrias sãs, boa saúde física e mental que desde o primeiro dia nela desfrutei. Para uma criança criada na cidade, embora saindo todas as férias para o campo ou para a praia, aquela quinta foi a felicidade. Tinha a parte rústica representada pelas hortas vicejantes e sempre fartas, o pomar sendo além disso semeada de árvores de fruto por todos os recantos e de todas as variedades, com campos de semeadura, searas (coisa que até aí nunca vira de perto). Capoeiras bem providas, cortiços com abelhas, um estábulo com 10 vacas, vinha e latadas encimando as ruas e jardins, nem menos de cinco grandes jardins a abarrotar com flores, adornadas com muros de buxo, de tanques a emprestar frescura e graça a todos eles. Qualidades de árvores de sombra raras: um cacto gigante circular, uma árvore-da-borracha, tamareiras com verdadeiras tâmaras, eucaliptos, pinheiros bravos e mansos, acácias de floração branca, roxa e rosa, olaias e tramangueiras empenachadas de lilás e rosa, oliveiras, que sei eu, de tudo bastante e bem distribuído de forma a encher de sombra aprazível as ruas e bancos de azulejos antigos, porque bem antiga era essa quinta que no portão principal deitando para um pequeno largo na azinhaga do Areeiro, esquina da Calçada da Ladeira, tinha lindo painel de azulejos figurando dois pavões de caudas em leque abertas e policromas e a data de 1726.
Aí vivi e cresci, aí senti pela primeira vez com o contacto diário com a natureza, o encantamento que ela empresta ao campo, no decorrer das estações do ano e as transformações constantes porque assistia deslumbrada, fizeram-me conceber o desejo de descrever o que via, tentando reproduzir em letras e frases o meu sentir. Começaram os primeiros versos (maus versos de péssima poetisa) e os primeiros ensaios literários. Quanto a estudos ….
Há 32 anos Lisboa não era como é hoje. No Largo do Chile terminava a Avenida Almirante Reis e depois rumo ao Areeiro e à Quinta do Alperce, que este era o nome pitoresco da Quinta e que, juntamente com os terrenos e outra Quinta dos Alperces que ainda existe ou existiu no Caminho de Baixo da Penha, pertenceram a Pina Manique, só havia azinhagas entre muros e de leito pedregoso ou terra batida e a Rua do Areeiro, pouco mais larga e também toscamente empedrada, por onde passava o elétrico. Daí por diante e à volta da nossa, quintas de semeadura, mais quintas rústicas ( a do Padre – a do Manuel dos Passarinhos, etc.). Como poderia seguir regularmente os estudos, frequentar um liceu (havia tão poucos para meninas e tão longe!) ter uma educação oficial? Os professores iam dar-me lições a peso de ouro indo o carro do meu pai buscá-los e pô-los novamente em casa ou aonde mais lhes convinha. Assim aprendi português com o professor José Portugal, autor do Método Prático de Português e um bom, proficiente e simpático professo
Boa noite
ResponderEliminarO meu nome é Maria Emília de Matos e Silva de Almeida mas normalmente uso o nome de Emília Matos e Silva que é o meu nome artístico, uma vez que sou pintora. Na minha certidão de nascimento diz que nasci na Alameda Afonso Henriques na quinta do Alperce. Se tiver interesse poderá ver na minha página do Facebook as fotos que lá coloquei à dias. O meu avô comprou a quinta por volta de 1916 ou 1917. Sei isto porque sei que a minha mãe nascida em 1905 tinha onze anos quando foi para lá viver. A casa ainda existe e pertence desde há bastante anos ao Ministério da Segurança Social. Só tive possibilidade de lá entrar recentemente porque uma antiga funcionária superior desse Ministério teve a amabilidade de lá me levar. Eu sai de lá com 6 meses. Já só existia a casa depois de duas expropriações por parte de Duarte Pacheco. Tivemos de vender a casa porque a minha mãe vivia lá com uma irmã mais tinha mais dois outros irmãos que exigiram partilhas.
Vou enviar-lhe um texto escrito pela minha mãe que explica como era a quinta. Eu saí de lá em 1948 e o texto deve ter sido escrito por volta dessa data.
.. com fundo desgosto deixei essa casa, essa querida casa que foi o paraíso da minha adolescência, fonte inesgotável de alegrias sãs, boa saúde física e mental que desde o primeiro dia nela desfrutei. Para uma criança criada na cidade, embora saindo todas as férias para o campo ou para a praia, aquela quinta foi a felicidade. Tinha a parte rústica representada pelas hortas vicejantes e sempre fartas, o pomar sendo além disso semeada de árvores de fruto por todos os recantos e de todas as variedades, com campos de semeadura, searas (coisa que até aí nunca vira de perto). Capoeiras bem providas, cortiços com abelhas, um estábulo com 10 vacas, vinha e latadas encimando as ruas e jardins, nem menos de cinco grandes jardins a abarrotar com flores, adornadas com muros de buxo, de tanques a emprestar frescura e graça a todos eles. Qualidades de árvores de sombra raras: um cacto gigante circular, uma árvore-da-borracha, tamareiras com verdadeiras tâmaras, eucaliptos, pinheiros bravos e mansos, acácias de floração branca, roxa e rosa, olaias e tramangueiras empenachadas de lilás e rosa, oliveiras, que sei eu, de tudo bastante e bem distribuído de forma a encher de sombra aprazível as ruas e bancos de azulejos antigos, porque bem antiga era essa quinta que no portão principal deitando para um pequeno largo na azinhaga do Areeiro, esquina da Calçada da Ladeira, tinha lindo painel de azulejos figurando dois pavões de caudas em leque abertas e policromas e a data de 1726.
Aí vivi e cresci, aí senti pela primeira vez com o contacto diário com a natureza, o encantamento que ela empresta ao campo, no decorrer das estações do ano e as transformações constantes porque assistia deslumbrada, fizeram-me conceber o desejo de descrever o que via, tentando reproduzir em letras e frases o meu sentir. Começaram os primeiros versos (maus versos de péssima poetisa) e os primeiros ensaios literários. Quanto a estudos ….
Há 32 anos Lisboa não era como é hoje. No Largo do Chile terminava a Avenida Almirante Reis e depois rumo ao Areeiro e à Quinta do Alperce, que este era o nome pitoresco da Quinta e que, juntamente com os terrenos e outra Quinta dos Alperces que ainda existe ou existiu no Caminho de Baixo da Penha, pertenceram a Pina Manique, só havia azinhagas entre muros e de leito pedregoso ou terra batida e a Rua do Areeiro, pouco mais larga e também toscamente empedrada, por onde passava o elétrico. Daí por diante e à volta da nossa, quintas de semeadura, mais quintas rústicas ( a do Padre – a do Manuel dos Passarinhos, etc.). Como poderia seguir regularmente os estudos, frequentar um liceu (havia tão poucos para meninas e tão longe!) ter uma educação oficial? Os professores iam dar-me lições a peso de ouro indo o carro do meu pai buscá-los e pô-los novamente em casa ou aonde mais lhes convinha.
Memórias de Fernanda Matos e Silva
para melhor esclarecer a casa fica do lado esquerdo de quem sobe a Alameda em direcção à Fonte Luminosa. Fica mesmo ao lado da parte superior da fonte. é uma casa recuada estilo neoclássico, e o acesso é através de um portão e de uma escadaria.
ResponderEliminarBom dia!
ResponderEliminarObrigado do trecho que teve a amabilidade de transcrever.
Estas memórias de sua mãe estão publicadas?
A descrição é preciosa, especialmente pelo que faz reviver estas quintas e lugares bucólicos do termo de Lisboa, completamente esquecidos. Raramente acho uma composição original relatada na primeira pessoa, como esta, referente à vida realmente vidida nestas quintas. Ninguém hoje faz ideia.
Não sei se viu a planta do projecto inicial da Alameda. Nela vêm descritos os prédios e os proprietários; vem o nome João da Cruz David e Silva apontado à Quinta do Alperce; e percebe-se bem a situação da casa de que falamos, que muito estranhava eu quando descia a Alameda e a via sobranceira, recuada, com aquele acesso por uma escada, como se fizesse parte doutro cenário que não o da Fonte Luminosa e das ruas adjacentes. E realmente era doutro cenário.
Cumpt.
Boa noite
ResponderEliminarO meu avô materno era João da Cruz David e Silva. A minha mãe era escritora e publicou para alem de alguns livros vários textos em suplementos do jornal o Século. No entanto acho que este texto nunca foi publicado. Infelizmente só resto eu dessas pessoas ligadas à quinta do Alperce. A minha mãe era a filha mais nova e depois da morte da mãe e com a doença do pai só casou um pouco tarde para a época. Eu também sou a filha mais nova e infelizmente o meu irmão morreu há dois anos. Talvez o meu irmão soubesse.
Vou dar uma volta nos vários dossiers com escritos da minha mãe para ver se encontro mais alguma coisa referente à quinta. Cumprimentos
Boa noute!
ResponderEliminarNão tenho «facebook», por isso não posso ver o que lá publicou. Mas vi o seu blogo e gostei.
Não sei se chegou a um verbete da Calçada da Ladeira e arredores onde se mostram mais duas de 1938 e 1939 que dão o panorama dos terrenos da futura Alameda de Dom Afonso Henriques?
E há uma vista aérea sobre o Técnico que abarca até ao Alto do Pina, onde se vê a Quinta do Alperce por inteiro, embora com pouco pormenor.
Obrigado!
Boa noite
ResponderEliminarJá tinha visto essas fotos há já alguns anos. O seu blog é muito interessante. Não fui eu que o descobri mas sim uma grande amiga minha que me enviou o endereço.
Penso que fala do meu blog Três Gerações. Eu tenho muito orgulho da família em que tive a felicidade de nascer. Resolvi fazer o blog e convenci o meu irmão a colaborar comigo. Desde há já algum tempo que é a minha filha que o tem continuado. O meu irmão faleceu mas também já tinha parado de escrever lá bastante antes disso. Tenho orgulho da família porque eram pessoas de grande cultura e valor, na arte, na escrita e na música. A minha filha é doutorada em história de arte. Para mim a cultura tem muito valor. O facto de falar do facebook é só porque pus lá fotos que lhe podiam interessar.
De resto não tem nada de especial.
Gosto muito da cidade de Lisboa e da sua história.
O meu pai que era editor e proprietário das Edições Excelsior, publicou um livro sobre Lisboa chamado Lisboa no passado e no presente, escrito pelo arquitecto Jorge Segurado.
Gostava de conhecer a tal planta que fala da quinta do Alperce.
Cumprimentos
Tenho a «Lisboa no Passado e no Presente» Fascinante! Guardo-o com desvelo.
ResponderEliminarRefiro-me a ele e ao modo como o descobri aqui.
A planta, aqui. É uma página dos planos para a construção da Alameda «online» pelo arquivo municipal. Diferentes do que veio a ser o jardim e a fonte luminosa, mas interessantes. Se usar os botõezinhos na barrinha acima da planta pode avançar nas páginas. se clicar em «índice» verá os fólios do projecto.
Cumpts.
O blogo que vi é o https://emiliamatosesilva.blogspot.com/
ResponderEliminarCumpts.
O blog que pensei que tivesse visto é o https://tresgeracoes.blogspot.com. Esse fala da família começada com o meu avô João da Cruz David e Silva e Emília Matos e Silva.
ResponderEliminarHei-de ver com atenção.
ResponderEliminarMuito obrigado!
A Quinta do Alperce!
ResponderEliminar:)
Cumpts.