Fotografia aérea da Alameda e do Areeiro, Lisboa. c. 1950.
Abreu Nunes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Há tempos o leitor Attenti comentava comigo na praça do Chile um detalhe duma fotografia aérea da Alameda e do Areeiro que afixei há mais tempo aqui no blogo. Dizia-me ele o seguinte: — «Reparei que, nessa foto, o edifício dos correios tinha sido ocultado. Porque terá sido? Poderá elucidar-me sobre isso, p.f.?» E ciente pela observação da fotografia no Arquivo Fotográfico da C.M.L. aventava, à falta doutra mais capaz, a hipótese dalguma possível lei vigente no Estado Novo que ditasse a ocultação dalguns edifícios públicos por razões de segurança. Ficou na altura o assunto assim, embora o bom amigo Atentti acabasse admitindo que haveria por certo explicação mais prosaica.
O Estado Novo tem as costas sempre largas quanto à censura de provas, pese embora outros regimes lhe levem a palma no condicionamento das mentes e dos juízos de valor que, voluntária ou involuntariamente, fazemos a partir daí. — Não me leve o meu estimado leitor a mal este à parte, mas a propaganda não deixa ninguém - por mais avesso que seja — imune ao reflexo condicionado. A explicação porém é muito mais simples. Os prédios em questão não estavam construídos à data da fotografia. Admito ter sido construído o prédio dos correios da Alameda e o outro a seguir, que faz esquina com a Rosa Damasceno Actor Isidoro, cerca do meado ou do terceiro quartel dos anos 50.
Panorâmica da Alameda tirada da fonte monumental, Lisboa. c. 1951.
Horácio Novaes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Têm-me inúmeros amigos mandado por correio electrónico (obrigado!) algumas memórias de Lisboa, cuja compilação me parece decorrer dum foro do Skyscraper City. Ora nelas figura uma Panorâmica da Alameda tirada da fonte monumental, de Horácio de Novaes (original no Arquivo Fotográfico da C.M.L. também). Está datada de cerca de 1951. A datação provável deve estar certa; ela é de certeza anterior a 1952, ano em que foi edificado o cinema Império que, como podeis observar nela, acima, ainda não existia. Também do idêntico tamanho das árvores do jardim da Alameda se deduz que a data de ambas as fotografias de cima é aproximada.
Já esta a seguir mostra o arvoredo mais crescido e os dois prédios que faltavam antes (três, com o Império) aparecem completamente edificados. É de Setembro de 1958, de há meio século, precisamente. Desde então a Alameda mudou pouco. Interessante era ver o que lá havia antes da edificação da fonte monumental. A minha mãe dizia que eram campos...

Alameda de Dom Afonso Henriques, Lisboa, Set. 1958.
Salvador de Almeida Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Gosto particularmente da parte em que se vê a barão de sabrosa - ainda sem o prédio da bomba de gasolina e tal... - e finalmente compreendo - desculpa não ter a tua cultura olissipógrafa - a orientação daquelas casas que ficam(avam?) antes das bombas da mobil (ainda não consigo dizer bp).
ResponderEliminarAquele abraço, sempre!
(e inté se vê a rua garrido, vites?)
(ai se a rua garrido falasse...)
Pois já vês: é o caminho antigo que vinha do Largo de Arroios. As casinhas da banda poente ainda se aguentam?
ResponderEliminarA Rua Garrido tem muita história; é dos anos 10, 20... E dos anos 80, claro.
Um grande abraço.
Tem razão a Senhora sua mãe. Existem fotografias no Arquivo que documentam a zona da Alameda antes e durante a construção da Fonte Luminosa, e até anteriores à construção da maioria dos edíficios.
ResponderEliminarHá tambem, pelo menos uma, da parte da Rua do Garrido que foi amputada para dar lugar á Fonte Monumental, criando aquele curioso espaço nas traseiras do edíficio do infantário.
As casas eram todas de piso térreo, assemelhando-se às ainda existentes mais abaixo na Rua Capitão Henrique Galvão.
Bem haja!
... penso que o caminho a que se refere, vindo do Largo de Arroios, era a antiga Estrada de Sacavem que ali tinha inicio. Atravessava o actual Bairro dos Actores, restando ainda aquele pequeno troço que liga a Avª Afonso Costa à Gago Coutinho, junto à bomba de gasolina. Ainda não percebi, no Bairro dos Actores, com que ruas coincidiria na actual malha esta estrada... Capitão Henrique Galvão? do Garrido? Poderá esclarecer-me?
ResponderEliminarObrigado
Conheço essa fotografia. Uma fiada de casas como havia na quinta da Feiteira em Benfica ou na das Fontainhas à Venda Nova.
ResponderEliminarGrato pela lembrança.
Era sim senhor.
ResponderEliminarAcima da Augusto Machado seguia sensivelmente a Carlos Mardel e entroncava com a Azinhaga do Areeiro (Abade Faria) onde hoje a Afonso Costa cruza o enfiamento do velho troço que ainda existe.
Cumpts.
Grato por reter na memória a minha estranheza sobre a mancha que, na foto, ocupa o lugar do edifício dos Correios, na Alameda. Afinal a explicação era mesmo mais prosaica: o edifício não estava lá. Contudo há-de reparar que a tal mancha é demasiadamente regular, tanto nos contornos como no motivo. É estranho não se vislumbrarem quintais ou as traseiras dos outros prédios, p.ex. Também é curioso o prédio ter sido construído tão tardiamente, em relação a todos os outros. Enfim, se calhar é uma ilusão de óptica, semelhante aquela que pôs uma mulher desnuda em pleno Bairro da Guarda.
ResponderEliminarSem levar de modo nenhum a mal a sua observação, esclareço que, quando eventei a hipótese de o edifício ter sido obliterado por imposição legal referi-me, expressamente, a imposições decorrentes da possibilidade do país se ver envolvido na II Guerra e não decorrentes, meramente, do regime político de então. Daí o exemplo dos pesados de mercadorias. Mas também não seria de admirar que quem não autorizava as matrículas com FD ou CU ou obrigou o Rexona a travestir-se de Rexina, se imiscuisse nas cores de certos veículos. O que já me admira, é que o governo actual, democrático, se interesse, a alto nível, por 30 mm a mais ou a menos em determinado tipo de parafusos corriqueiros (vd. crónica de José Júdice, in Metro desta 4ªFeira).
A.v.o
Sim senhor. Relacionou com a II Grande Guerra e eu não o referi. Embora a remissão para a praça do Chile atenue, era pertinente eu tê-lo referido. Peço-lhe desculpa.
ResponderEliminarNão é de admirar o reflexo condicionado dos governos por regular absurdas trivialidades como parafusos ou galheteiros. É da natureza do Poder. Mas para factos históricos é preciso contextualizar: proibir matrículas (cacofónicas ou não) é uma prerrogativa do Poder administrativo. Tal como mudar E.C.U. para Euro e parece que neste último a ninguém pareceu ridículo. Não estariam também os nossos pais em sintonia com o legislador no caso das matrículas?. Já Rexina foi auto-censura da marca por razões próprias, comerciais, sem intromissões do Poder.
Descontando a relativização histórica no entanto, o paradoxo das normas absurdas sobre o trivial é que o ridículo da norma reflecte-se no legislador. E isso é sempre muito mau sinal.
Cumpts.