Leitura
À sombra. Na calmaria da hora da sesta o tempo dilui-se, sem conversa, sem ruídos humanos ao redor, sem televisão ou rádio marcando ritmos diários ou de qualquer espécie. Uma rola arrulha insistente, namoradeira talvez; atravessa o chilreio constante da passarada mais miúda. Aqui ou acolá soa um gaio. É o que se ouve, mais do que se vê.
Após longos minutos de inacção pego num livro. A senhora pergunta-me o que leio...
Ao Algarve por via marítima
- Vários vapores fazem a viagem dos portos do Algarve, depois de terem tocado em Sines e Vila Nova de Milfontes. Realiza-se pelo menos uma carreira mensal (informar-se na Empresa Nacional de Navegação). Fazendo escala por Lagos, Portimão e Faro, chegam até Vila Real de Santo António, de onde seguem Guadiana acima, uns até Pomarão, outros até Mértola.
- Nunca mais cá chegávamos.
- O Guia é 27; quando a vida talvez tivesse o ritmo certo. Hoje há o sobressalto da produtividade que supera tudo.
- Daí a excelência...
E em complemento da resposta ajeita-se na cadeira dando moleza às pálpebras.
Eu por mim absorvo-me mais no tempo...
Ao Algarve por via fluvial
« De Lisboa a Beja pelo caminho de ferro de Sul e Sueste; de Beja a Mértola e Mina de S. Domingos por estrada; da Mina a Pomarão pelo caminho de ferro privativo da companhia. Também se pode fazer a excursão fluvial a partir de Mértola. - São frequentes os vapores que descem o Guadiana e raros os dias em que se não efectua alguma carreira.
De Pomarão para baixo (1) o Guadiana [...] corre esverdeado entre montes abruptos e severos, que à medida que o barco navega vão surgindo sempre uns atrás dos outros - à esquerda a Espanha, à direita Portugal -, os nossos mais pacíficos e às vezes cultivados até ao rio, os dos vizinhos austeros, pedregosos e bravios - grande uniformidade deserta onde aparece, isolada e perdida no cenário, uma ou outra casinha colmada. Diante de nós, a água que anima tudo isto, lisa e unida à proa do vapor, com veios longínquos mais quietos e riscos que estremecem à superfície; e naquela braveza de fragas e vegetação quase negra das encostas, irrompe de quando em quando uma amendoeira, que se entreabre no Inverno em milhares de pequeninas flores, como se toda ela criasse asas. Para longe avistam-se mais serras, serras desta Espanha que daqui se nos afigura esfarrapada e concentrada. E o barco segue, e os montes seguem-nos, encerrando o rio numa série de lagos dormentes, cheios dum encanto melancólico e selvático. Às vezes afigura-se-nos que vamos tocar naquela tremenda barreira lá no fundo, mas o vapor dá uma volta à procura do canal, e entramos noutro lago de encostas cortadas quase a pique sobre as águas. Outra volta, outro lago, este mais amplo, luminoso e azul, cujas margens se entreabrem para nos desvendar um cantinho cultivado e rústico - uma casa, algumas árvores e três palmos de erva muito verde. Desce-se, e o desfile, um pouco severo mas amplo, variado e cheio de luz, vai-se renovando sempre diante dos nossos olhos. É um cone formidável que se destaca dos outros montes; é Alcoutim num fundo risonho de Amendoeiras, com S. Lucar do Guadiana na margem oposta; é sobretudo a vida maravilhosa das águas, que se embebe de todos os tons do azul e dos montes, e que estremece, reluz e modifica a todos os momentos, com uma sensibilidade extraordinária. Os montes agora transformam-se em colinas verdes. Repetem-se com mais frequência as terras cultivadas na nossa margem e às vezes na da Espanha. Quando o monte não acaba a pique, vêem-se sempre na faixa à beira da água alguns pés de oliveira, a negra alfarrobeira e a vinha baixa que se estende até à água. Estamos no Torno da Pinta, que é um dos mais lindos cotovelos do Guadiana. De aqui em diante as curvas do rio são menos acentuadas e começam a distinguir-se os bronzes imóveis da serra de Alcoutim. As povoações surgem muito próximas, Álamos, Laranjeiras, Guerreiros, sempre na nossa margem - e o rio ganha uma amplidão luminosa. O céu esbranquiçou, perdendo e esmalte do Alentejo. O calor aperta mais. Outra povoação, a Foz, na confluência da ribeira de Odeleite, e quase logo na nossa frente uma grande superfície líquida entre terras que foram sucessivamente baixando, dum lado solitárias e envoltas em farrapos, do outro mais humanas e mais ternas. Sente-se já no rosto a viração do mar. Todo o rio estremece em escamas de luz até os grandes plainos verdes e indecisos. À esq. começa a ofuscar-nos a brancura voluptuosa de Ayamonte, tendo à mão direita a interessante vila de Castro Marim, apertada entre dois morros e com o seu castelo enegrecido. Mas já Vila Real tremeluz e aparece na linha baixa e confusa, mergulhada na água, perdida e afogada em sol.»
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(1) Por Raul Brandão.
[A margem espanhola era mais erma que a portuguesa. Pequenos nadas em que raramente pensam os que sabem que a independência de Portugal só pode ser trabalho do acaso. Por isso é vê-los esvaziar a raia.]
Notas:
Excertos de itinerários para o Algarve em Raul Proença, Guia de Portugal, vol. II, Estremadura, Alentejo, Algarve, texto integral que reproduz a 1ª ed. publicada pela B.N.L. em 1927, F.C.G., Lisboa, imp. 1991, pp. 212-214.
Óleo Na Sombra (1900-1910), de Aurelia de Souza, Bragança, Museu do Abade de Baçal.
O bilhete postal de Mértola - vista geral e castello foi circulado de Lisboa, Portugal, para Fontenay, França, em Agosto de 1905. Ed. de F. A. Martins, Camões, 35 – Lisboa. © Blog da Rua Nove.
Tenho fotografias de um barco da carreira do Guadiana, ainda nos anos 50.
ResponderEliminarUm destes dias ponho-as lá na montra.
Abraço
Belíssimo verbete como sempre. Veio inspirado das férias:)
ResponderEliminarE repito a pergunta da senhora: Que livro andava a ler?
Cumprimentos:)
Raul Proença, Raúl Brandão e o Blog da Rua Nove.A fina flor da excelência.
ResponderEliminarPor acaso ainda estou de férias.
ResponderEliminarNo caso peguei no Guia de Portugal e li o trecho «Ao Algarve por via marítima» em voz alta à senhora. Mas por lá andei com Srª Rattazzi, Portugal de Relance.
Obrigado!
Fico atento. Olhe que na Rede não apanhei nada...
ResponderEliminarCumpts.
Bondade sua sr. Freitas. Obrigado!
ResponderEliminarE vale a pena ler? Até o Ramalho se abespinhou não foi?
ResponderEliminarBoas férias então:)
O Camilo foi quem teve grande contenda com Mme. Rattazzi. O livro tem o seu interesse. Muita da maldicência com que nos alvejamos a nós mesmos, hoje, não é original, já ela o notara. Só que, sendo de fora, lhe fica pior a ela dizê-lo.
ResponderEliminarCumpts.
Acho que li algures uma certa irritação do Ramalho com ela. Mas agora deu-me vontade de ler. E Vou pesquisar ali da estante.
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