| A Rua de S. Sebastião, percebe-se pela irregularidade — quem se deite a pensar nestas coisas, bem entendido —, é caminho muito antigo que sobrevive apesar da Av. António Augusto de Aguiar. O mesmo com a Rua de São José e a de Santa Marta, que entroncam nela, em relação à Avenida. Os planos de Ressano Garcia que estão na origem da expansão de Lisboa nos finais de Oitocentos e início de Novecentos tiveram, além de tudo o mais, o mérito de respeitar estradas antigas e caminhos rurais que se desprendiam de Lisboa campos afora. Nem o Estado Novo nem os que se lhe seguiram tiveram esse condão. São esses velhos caminhos sobreviventes, apanhados hoje na malha urbana, mais ou menos perceptíveis pela sua extravagância no plano ortogonal das avenidas novas projectadas, mesmo apesar de regularizados. Um de que há pouca ou nenhuma memória é o que prolongava a Rua das Picoas até ao Rego. Chamava-se Rua das Cangalhas, que foi entretanto regularizada e promovida. Chamam-lhe avenida, do Conde de Valbom, mas num bom pedaço confunde-se com um jardim diluido na Marquês de Tomar, e no troço final não passa actualmente dum beco. | ![]() Av. Conde de Valbom, 90-94, Lisboa, 1965. Aug.º de Jesus Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L. |
| A fotografia acima à direita, não o posso garantir, mas tem todo o ar de ser um prédio sobrevivente da velha Rua das Cangalhas na Av. Conde de Valbom. Não vos admireis: veio a ser demolido. A imagem abaixo, a alguns benévolos leitores que gentilmente visitam este blogo pode à primeira vista parecer que a já publiquei quando cá escrevi sobre a Av. António Maria de Avelar. Retrata o mesmo lugar que a que lá pus e foi tirada do mesmo sítio, mas não se trata da mesma fotografia. Dá-me impressão que o fotógrafo repetiu a chapa por ter surgido entretanto um motivo novo diante da lente... Menos verosimilhança que esta insinuação teve então a minha conjectura do local da chapa, em que a propus batida do antigo jardim do palacete da Av. Cinco de Outubro, 38. É mais provável que tenha sido do jardim doutro palacete sito na esquina a seguir, no nº 52 (ou dum casarão na João Crisóstomo 34), apontando a ocidente, dando a ver o Monsanto ao fundo, mostrando à esquerda a feitura da dita João Crisóstomo e, atrás dos palacetes em primeiro plano, uma velha casa rústica meia de esguelha; perecebe-se atrás dela o eixo da Conde Valbom oblíquo em relação ao plano ortogonal das avenidas. Presumo ver ali a velha Rua das Cangalhas, prolongando naturalmente o que sobeja ainda hoje da Rua das Picoas. |
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![]() Av. António Maria de Avelar (hoje dita de Cinco de Outubro, nº 67-73), Lisboa, 1896-1908. Machado & Souza, in Arquivo Fotográfico da C.M.L. |
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Eu adoro estes seus posts Mestre Bic!
ResponderEliminarA Rua das Cangalhas é genial. Agora, andamos nós todos de cangalhas, para que é precisa rua?
Cumpts:)
Sempre generosa e bem disposta. Obrigado!
ResponderEliminarDaqui a dez minutos pode ir ao Dias, que terei lá uma surpresa para si:) Eu mandava por e-mail mas sei que desgosta de o consultar:)
ResponderEliminarCumpts!
"o fotógrafo repetiu a chapa por ter surgido entretanto um motivo novo diante da lente..."
ResponderEliminarNesta fotografia está alguém a passar na rua, o que não acontece na anterior
:)
Excelente! Adoro estes seus posts sobre Lisboa.
ResponderEliminarAinda há uns tempos uma amiga, em conversas sobre a cidade, chamou-me a atenção para o plano obliquo em que se encontra a Av. Conde Valbom face às restantes avenidas. Desconheciamos o nome primitivo até à uns minutos atrás, "Rua das Cangalhas".
A fotografia com a casa atrás dos palacetes foi um toque de mestre!
Cumprimentos :)
Olho vivo! Cumpts.
ResponderEliminarA memória destas coisas perde-se com muita facilidade. Cumpts.
ResponderEliminarMeu Caro Bic,
ResponderEliminarexcelente postal! E permito-me, pensando no que lá existe hoje, pensar se não teria sido muito mais económico e avisado mudar o nome para "Rua dos Escangalhas".
Abraço
Na zona da Rua das Cangalhas, terá sido construída a estação principal do curioso comboio Larmanjat, cuja companhia tinha escritórios no nº 28 do Lgº de S. Sebastião da Pedreira. A sua antecessora, esteve instalada no palácio dos Condes de S. Miguel, na Rua de Arroios, também já aqui falada neste blogue (cfr. Jaime Fragoso Almeida, O Incrível Comboio Larmanjat, ed. Mediatexto, págs.55).
ResponderEliminarA.v.o.
Grato pela interessante indicação e pela referência. Não teve grande êxito o Larmanjat, ao que sei.
ResponderEliminarCumpts.
Para rua ou avenida está muito escangalhada, sim. Mas será que os que escangalharam merecem nomoe numa rua?
ResponderEliminarCumpts.
É verdade. A concepção técnica, em relação ao comboio clássico, de que é contemporâneo, já evidenciava fraquezas que se encarregariam, a seu tempo, de lhe encurtar a existência. Mas o que o matou, em primeira mão, foram as deficiências da administração. Há males que já vêm de longe.
ResponderEliminarA.v.o.
Pois!... Cumpts.
ResponderEliminarPois é
ResponderEliminarSR. Bic Laranja.
quem diria uma rua com o meu nome ,pois é; e agora tão com o problema de ter de andar com as cangalhas em cima ... , não se massem que os animalzinhos também bem já usaram, como a tempos a trás as bestinhas precisavam para andar na linha .
O mais curioso é que eu pensava que só havia cangalhas nos Alentejos , mas por visto alentejo tambem tá em Lisboa.
:) Cumpts.
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