Da badalação geral do calendário lembrou-me de aqui contar das gémeas — da Ana das gémeas — e já agora dizer que quando andava na 2.ª classe ainda não tinha nascido o S. Valentim (nem os senhores noticieiros iam ruidosamente para as escolas primárias publicitar datas formidáveis para comprinhas e de caminho imbuir a criançada no espírito mercantil para garantir o futuro desta civilização).

Quando andava na 2.ª classe — dizia — havia a Ana das gémeas (que já andavam na 3.ª) que me tinha dito uma vez no salão da sede que se eu quisesse namorar com ela podia pedir-lhe. Eu sabia que era a Ana das gémeas e não a irmã porque nessa vez ela trazia um vestido cor-de-rosa às flores amarelas e a irmã um que era azul. Normalmente andavam as duas de igual. E como elas também eram iguais... De todo o modo, talvez por timidez, talvez por falta de jeito (mais esta), não tive arte nem coragem... Resolvi ao depois, passado um tempo, escrever-lhe uma cartinha pedindo-lhe namoro e disse ao Zezinho o meu plano: — «Escrevo a carta e falo no que me ela disse na sede. Ao depois vou ao prédio das gémeas e ponho-a no correio delas.» O Zezinho resolveu nesse momento que gostava da Isabelinha do prédio do Rui e que lhe ia mandar uma carta também. Era boa ideia. A Isabelinha também era muito gira. Mas eu gostava mais da Ana das gémeas; gostava dela mesmo sem a distinguir da irmã porque ela era a mais bonita das duas. Escrevemos as cartas. Ele copiou a minha — parece-me que também copiou aquela parte da sede — e deu uma ideia: enfeitar a carta com desenhos e flores e escrever «viva o Benfica» no fim. Também era boa ideia, mas eu na minha ia pôr o Sporting. Quando acabámos dobrámos as cartas em quatro e fomos botá-las no correio das pretendidas. Uma semana depois, nada; era o desânimo. Pior foi que nesses dias o Rui me gozou na rua: — «Querias namorar com a Ana das gémeas. Mandaste-lhe uma carta mas ela não gosta de ti!» — Como soube ele da carta?! Só se fora o Zezinho!... Só podia... Bom! As gémeas no dia a seguir a isso chamaram-me da janela. A Ana atirou-me um bilhetinho em que dizia para lhe escrever mais cartas mas para as não pôr no correio porque a mãe as podia apanhar. Tinha gostado dos desenhos e também era do Sporting (isso já eu sabia). E lá de cima veio a resposta que faltava pela boca da irmã: — «Ela diz que sim!»
Pois lembrou-me ontem de cá contar esta historieta da Ana das gémeas; pareceu-me que poderia ter graça, não fora o Zezinho ainda estar à espera da resposta da Isabelinha do prédio do Rui.
Gravura de Eileen Soper (1925). |
A história é uma delícia. Mandou uma carta e ela disse que sim.
ResponderEliminarAssim como a canção.
corre por aí um boato que anos depois tiveste de lhe comprar um jackpot 81, porque o mesmo se riscou algures com uma agulha de picâpe ranhosa.
ResponderEliminarvalidas-me esta informação?
E a propósito do salão, lembrei-me do baile do senhor João, e da outra cancão, que diz, só que a "malta não gritou como ouvi numa cancão"
ResponderEliminarSe tem graça! Andava eu a pensar como um gosto tão apurado como o do Amigo Bic O tinha podido levar para o Sporting, quando a explicação era simples! O AMOR É CEGO! Abraço
ResponderEliminarA Ana era de facto a mais bonita. A mana dela tinha um nariz um bocadinho mais "abatatado". Agora não tou a ver quem era a Isabelinha do zézinho...
ResponderEliminarBoa história. Abraço.
Obrigado, Dona T. Assim é a canção do Namoro, pois. // Errado, Pitxaime. Elas é que me compraram um novo. Percebi-o pela etiqueta da Frineve marcando 425$00. O meu tinha sido 395$00 na Virita. E o que eles me devolveram não vinha riscado como o que lhe eu emprestei. Mas riscou-se logo; aquela agulha era mesmo assassina. // Anónimo: Namoro II, dos Trovante. // Ah! Ah! Frio, Réprobo. O que me levou ao Sportem neste caso foi a estratégia. Eu sabia... // Obrigado Pedro. A Isabelinha era uma menina muito bonita do prédio do Rui, o irmão da Nini. // Cumpts.
ResponderEliminarHistória mais bem contada, verdaeiramente deliciosa.
ResponderEliminarPS.Ainda bem que a Ana era do Sporting!!!!
Um abraço
Só uma coisa, a canção por acaso não é a do Sérgio Godinho?
ResponderEliminarÉ do meu querido Fausto:)
ResponderEliminarMuito obrigado Platero! Os comentários referem duas: "Namoro", do Fausto, com versão mui conhecida do S. Godinho; "Namoro II", dos Trovante, onde um verso diz "a malta não gritou como ouvi numa cancão". Cumpts. // Obrigado Dona T. // Cumpts.
ResponderEliminar´Só lembro da canção do Sérgio Godinho...
ResponderEliminarDelicia,essa história!
:-)
É muito gira a história, caro Bic. E não menos saboroso esse discreto desforço do malvado do Zezinho. :-)
ResponderEliminarA dos trovante é menos afamada. Obrigado Dª Júlia M.L.! // É mais malvada a alfinetada do último parágrafo que o Zezinho. O mais certo é a mãe da Isabelinha ter interceptado a missiva... Obrigado Dª Luísa! // Cumpts.
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