| início |

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Ela disse que sim


 Da badalação geral do calendário lembrou-me de aqui contar das gémeas da Ana das gémeas — e já agora dizer que quando andava na 2.ª classe ainda não tinha nascido o S. Valentim (nem os senhores noticieiros iam ruidosamente para as escolas primárias publicitar datas formidáveis para comprinhas e de caminho imbuir a criançada no espírito mercantil para garantir o futuro desta civilização).


Eileen Soper, 1925


  Quando andava na 2.ª classe dizia havia a Ana das gémeas (que já andavam na 3.ª) que me tinha dito uma vez no salão da sede que se eu quisesse namorar com ela podia pedir-lhe. Eu sabia que era a Ana das gémeas e não a irmã porque nessa vez ela trazia um vestido cor-de-rosa às flores amarelas e a irmã um que era azul. Normalmente andavam as duas de igual. E como elas também eram iguais...
 De todo o modo, talvez por timidez, talvez por falta de jeito (mais esta), não tive arte nem coragem... Resolvi ao depois, passado um tempo, escrever-lhe uma cartinha pedindo-lhe namoro e disse ao Zezinho o meu plano: «Escrevo a carta e falo no que me ela disse na sede. Ao depois vou ao prédio das gémeas e ponho-a no correio delas.»
 O Zezinho resolveu nesse momento que gostava da Isabelinha do prédio do Rui e que lhe ia mandar uma carta também. Era boa ideia. A Isabelinha também era muito gira. Mas eu gostava mais da Ana das gémeas; gostava dela mesmo sem a distinguir da irmã porque ela era a mais bonita das duas.
 Escrevemos as cartas. Ele copiou a minha parece-me que também copiou aquela parte da sede e deu uma ideia: enfeitar a carta com desenhos e flores e escrever «viva o Benfica» no fim. Também era boa ideia, mas eu na minha ia pôr o Sporting. Quando acabámos dobrámos as cartas em quatro e fomos botá-las no correio das pretendidas.
 Uma semana depois, nada; era o desânimo. Pior foi que nesses dias o Rui me gozou na rua: «Querias namorar com a Ana das gémeas. Mandaste-lhe uma carta mas ela não gosta de ti!» Como soube ele da carta?! Só se fora o Zezinho!... Só podia...
 Bom! As gémeas no dia a seguir a isso chamaram-me da janela. A Ana atirou-me um bilhetinho em que dizia para lhe escrever mais cartas mas para as não pôr no correio porque a mãe as podia apanhar. Tinha gostado dos desenhos e também era do Sporting (isso já eu sabia). E lá de cima veio a resposta que faltava pela boca da irmã: «Ela diz que sim!»

 Pois lembrou-me ontem de cá contar esta historieta da Ana das gémeas; pareceu-me que poderia ter graça, não fora o Zezinho ainda estar à espera da resposta da Isabelinha do prédio do Rui.



Gravura de Eileen Soper (1925).

13 comentários:

  1. A história é uma delícia. Mandou uma carta e ela disse que sim.
    Assim como a canção.

    ResponderEliminar
  2. corre por aí um boato que anos depois tiveste de lhe comprar um jackpot 81, porque o mesmo se riscou algures com uma agulha de picâpe ranhosa.

    validas-me esta informação?

    ResponderEliminar
  3. E a propósito do salão, lembrei-me do baile do senhor João, e da outra cancão, que diz, só que a "malta não gritou como ouvi numa cancão"

    ResponderEliminar
  4. Se tem graça! Andava eu a pensar como um gosto tão apurado como o do Amigo Bic O tinha podido levar para o Sporting, quando a explicação era simples! O AMOR É CEGO! Abraço

    ResponderEliminar
  5. Pedro Oliveira15/2/08 13:48

    A Ana era de facto a mais bonita. A mana dela tinha um nariz um bocadinho mais "abatatado". Agora não tou a ver quem era a Isabelinha do zézinho...
    Boa história. Abraço.

    ResponderEliminar
  6. Bic Laranja15/2/08 18:46

    Obrigado, Dona T. Assim é a canção do Namoro, pois. // Errado, Pitxaime. Elas é que me compraram um novo. Percebi-o pela etiqueta da Frineve marcando 425$00. O meu tinha sido 395$00 na Virita. E o que eles me devolveram não vinha riscado como o que lhe eu emprestei. Mas riscou-se logo; aquela agulha era mesmo assassina. // Anónimo: Namoro II, dos Trovante. // Ah! Ah! Frio, Réprobo. O que me levou ao Sportem neste caso foi a estratégia. Eu sabia... // Obrigado Pedro. A Isabelinha era uma menina muito bonita do prédio do Rui, o irmão da Nini. // Cumpts.

    ResponderEliminar
  7. História mais bem contada, verdaeiramente deliciosa.

    PS.Ainda bem que a Ana era do Sporting!!!!

    Um abraço

    ResponderEliminar
  8. Só uma coisa, a canção por acaso não é a do Sérgio Godinho?

    ResponderEliminar
  9. É do meu querido Fausto:)

    ResponderEliminar
  10. Bic Laranja16/2/08 09:23

    Muito obrigado Platero! Os comentários referem duas: "Namoro", do Fausto, com versão mui conhecida do S. Godinho; "Namoro II", dos Trovante, onde um verso diz "a malta não gritou como ouvi numa cancão". Cumpts. // Obrigado Dona T. // Cumpts.

    ResponderEliminar
  11. ´Só lembro da canção do Sérgio Godinho...

    Delicia,essa história!

    :-)

    ResponderEliminar
  12. É muito gira a história, caro Bic. E não menos saboroso esse discreto desforço do malvado do Zezinho. :-)

    ResponderEliminar
  13. Bic Laranja17/2/08 14:21

    A dos trovante é menos afamada. Obrigado Dª Júlia M.L.! // É mais malvada a alfinetada do último parágrafo que o Zezinho. O mais certo é a mãe da Isabelinha ter interceptado a missiva... Obrigado Dª Luísa! // Cumpts.

    ResponderEliminar