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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Casal dos Ladrões

 A quinta do Casal dos Ladrões descia na maior parte pela encosta oriental duma colina em cuja cumeada corria a Azinhaga do Carrascal. Confinava a N com a Calçada da Picheleira, a S com a Quinta dos Embrechados e com a Quinta do Carrascal, a E com Quinta da Conceição de Cima (depois dita Casal do Pinto); a O e SO julgo que o limite era o vale da Quinta Nova. O Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911) não apresenta qualquer construção nesta quinta salvo o casal propriamente dito. Pela sobreposição com o mapa actual ficaria este casal situado sensivelmente pelas traseiras do 64 da R. Capitão Roby.
 O Arquivo do Arco do Cego guarda documentos do Anteprojecto de arruamentos destinados a habitações económicas, com datas entre 1927 e 1937 e cuja concessão de construção foi entregue a um tal Francisco Lopes da Costa. O Casal dos Ladrões foi vendido em conjunto com a Quinta Nova, mais uma certa Quinta do Manteigueiro (que não consegui identificar), por 1.749.842$00. A escritura de quitação existe no mesmo arquivo; foi dada por Francisco Perfeito de Magalhães e Menezes, José de Magalhães e Menezes Vilas-Boas e outros em 1949. Presumo que estes Menezes Vilas-Boas sejam da família dos condes de Alvelos mas só mais aturado estudo o poderá confirmar.
 O nome da calçada (da Picheleira) donde partia a Azinhaga do Carrascal veio naturalmente a dar nome ao bairro que veio a ser construído sobrepondo-se ao pouco fiável topónimo Casal dos Ladrões cuja origem parece facilmente explicável, embora em concreto eu a não saiba determinar.

Antigo Casal dos Ladrões, Lisboa (M. Oliveira, c. 1955-56)
Fotografia aérea do cemitério do Alto de S. João [R. do Sol a Chelas evertente sul da Picheleira], Lisboa, c. 1955/56.
Fotografia de Mário de Oliveira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

 No verbete Questão de Preço em que apresentei primeiramente esta fotografia deixei no ar uma melhor identificação do local (o arquivista equivocou-se dizendo que era a parada do Alto do S.João), bem como a sua datação. Farei esse trabalho agora na legenda:
 1) Quinta dos Embrechados (roxo): pequena quinta onde se construiu a nova escola primária; perdida a noção dos seus limites foi o nome dos Embrechados estendido a toda a área de hortas (depois bairro de lata) entre a escola e as traseiras da Capitão Roby (3).
 2) Escola da Câmara (ou da Cambra, na fala popular): a escola primária masculina nº 28 concluíu-se em 1956 e o primeiro aluno a matricular-se foi um Joaquim Alves Lavado; é com base neste dado que procedo à datação da fotografia, onde se vê a escola primária em construção. Actualmente chama-se Escola do 1º Ciclo Engº Duarte Pacheco.
 3) Rua Capitão Roby (amarelo): visível o troço do 53 ao 77 (ímpares) e do 64 ao 92 (pares); a numeração segue de N para S (da base para o topo da fotografia), ao contrário do habitual em Lisboa, mas que denuncia que a construção dos arruamentos foi feita a partir da Calçada da Picheleira (antes dita azinhaga, cujo nome original sobreviveu até aos anos 60 no troço que vinha do lado do Jardim da Nêspera, ao Alto do Pina). O tipo de habitações económicas originais do bairro eram as moradias térreas que se identificam nos nos 53, 57 e 59.
 4) Rua Frei Fortunato de São Boaventura (verde): a rua de cima da Capitão Roby também numerada a partir da Calçada da Picheleira; o seu troço inicial truncou a primitiva Azinhaga do Carrascal.
 5) Calçada do Carrascal (vermelho): primitivamente chamada Azinhaga do Carrascal, cujo alinhamento e alargamento rebaptizou em calçada. A numeração das casas, ao invés da das ruas de baixo, começa na Rua do Sol a Chelas (10), ou seja, do lado do Tejo como é tradicional.
 6) Praça Sócrates da Costa (castanho): a praceta, no falar do bairro; aparenta ter plano distinto do original do bairro; não parece enquadrar-se no plano original de habitações económicas. Mas posso estar enganado...
 7) Quinta do Grilo (rosa): em cujo planalto se fez o campo do Vitória Clube de Lisboa. Na parte visível na imagem vieram a edificar-se as bancadas e as cabinas (balneários).
 8) Quinta do Carrascal (verde azeitona).
 9) Quinta Nova (grená): segundo me contaram há não muito, nos anos sessenta ainda nesta quinta se cultivavam cereais.
10) Rua do Sol a Chelas (laranja): já aqui falei dela mais do que uma vez. Caminho meio rural (entre muros) que ligava a Estrada de Chelas à R. Morais Soares. Subsistem os troços inicial e final, soterrado que foi o resto com as recentes terraplanagens que produziram largas ruas que vão das Olaias à Paiva Couceiro.
11) Quinta de São João de Baixo (azul): antiga quinta na vertente NE do cemitério, limitada a nascente pela Calçadinha de Santo António, um curioso carreiro que seguia pela meia encosta oposta à da linha de cintura (a do túnel de Xabregas) e que entroncava na Estrada de Chelas depois dumas escadinhas, um pouco mais a sul. Nos terrenos desta quinta que se aí vêem arados julgo que fez a Câmara uma E.T.A.R. ou algo que o valha.
12) Quinta do Pinheiro (amarelo): extensa quinta que ia até à quinta do Manuel dos Passarinhos (Largo Mendonça e Costa), ao fundo da Calçada do Poço dos Mouros. Também conhecida como quinta do Abel, aonde se podia ir ao leite.
13) Cemitério oriental: ou do Alto de S. João.

18 comentários:

  1. Tenho pena mas a minha máquina não distingue as cores da foto. De qualquer das maneiras já conhecemos a zona de gingeira, não é?

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  2. No meu caso, só consigo ver a foto.
    Abraço

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  3. Bic Laranja19/2/08 11:55

    Julgo que já se vê, mas quem não veja experimente: http://fotos.sapo.pt/4g4dTY2cay3e1z7TJiZ4/ .
    Outra ideia é pousar/retirar o cursor por cima da imagem.
    Cumpts.

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  4. Sim. Agora já funciona. Antes a acção do cursor apenas fazia aparecer/desaparecer a foto. Só a foto.
    Abraço

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  5. A razão porque eu gosto deste blog nem sequer é aqui publicável (pelo menos no seu todo). Para já porque gosto de lisboa, depois porque gosto de coisas antigas, depois ainda, porque gosto de coisas antigas da cidade de lisboa, explicadas por este senhor bic laranja.

    feitas as explicações deixa-me falar um bocado sobre esta foto:

    gramo-a, confesso. mostra a minha terra mas neste caso particular porque mostra o "prédio do cunha".

    o prédio do cunha é algo "mítico" na minha família e nas história que lá seu seio são relatadas. nesse prédio teve estabelecimento comercial um primo (proprietário do edifício onde cresci) e onde trabalhou o seu filho, juntamente com dois dos meus tios. muitas histórias são por eles contadas, passadas nesse tal prédio do cunha.

    ao que parece, chamava-se assim, pois era o nome do seu proprietário, o sr. cunha, que residia um metros abaixo, na calçada do carrascal.

    além disso, vê-se também o pátio onde morava o meu tio alfredo, local onde havia uma mítica (este comment está pejado de misticismos) figueira onde passei manhãs a encher o bandulho enquanto ouvia as palavras ditas pelo papagaio jacob (só podia ser este nome, não é?)

    já tinha dito noutro post, repito neste: grande foto, caneco!

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  6. Que trabalheira teve Senhor Bic. Mas que bem que está!
    Obrigada:)

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  7. Carlota joaquina19/2/08 20:29

    Bic ,sou alfacinha de gema nascida em Campolide sinto muitas saudades de Lisboa antiga o seu blog é uma lufada de ar fresco no fim de um dia de trabalho intenso .

    Obrigadinha


    Carlota Joaquina

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  8. Bic Laranja19/2/08 21:07

    Pitx: Prédio do Cunha? Figueira? Onde era isso? Há histórias dessas no Pipàterra? // Fui fazendo, Dona T. Obrigado eu! // Sou eu que agradeço as boas palavras, Dª Carlota Joaquina. // Cumpts.

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  9. Como as coisas são, Amigo Bic! Com Campolide aconteceu encolha de vulto, toda a parte Sul que vinha à Ribeira comida no direito ao nome! Com os Ladrões, ao invés, dos limites traçados pelo Seu teclado magistral estendeu-se a legitimidade do apodo à Cidade e ao País! Obrigado por nos relembrar tempos em que não eram tantos. Abraço

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  10. Dum casal a um país deles? Talvez não; talvez o fenómeno seja localizado. Sem 'deslocalização' (que vocábulo horrível) à vista, infelizmente.
    Cumpts.

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  11. Viva
    Como não tenho o seu mail venho convidá-lo para participar em http://osabordolhar.blogspot.com/2008/02/convvio-do-movimento-e-do-contraste_21.html (http://osabordolhar.blogspot.com/2008/02/convvio-do-movimento-e-do-contraste_21.html)
    Se quiser ver as «minhas» deambulações por Lisboa encontram-se em
    http://kantoscriptoriumindex.blogspot.com/2008/02/srie-deambulando-por-lisboa.html (http://kantoscriptoriumindex.blogspot.com/2008/02/srie-deambulando-por-lisboa.html)
    Um abraço
    Victor Nogueira

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  12. Sr Bic, quando tiver um bocadinho de tempo pode ir ao Dias ajudar a identificar um quarteirão da Avenida da República?
    Obrigada:)

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  13. Bic Laranja21/2/08 22:26

    Obrigado pelo amável convite, caro Victor Nogueira. Infelizmente tem-me faltado o tempo. Depois dá-se o caso de não haver participações anónimas... // Julgo que se resolveu, Dona T. // Cumpts.

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  14. Muito obrigada:) Já averbei ao post:) Assim fica muito mais completo.

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  15. Bic Laranja22/2/08 21:34

    :) Cumpts.

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  16. Miguel Fabre8/1/12 00:06

    Conseguirá precisar a década em foi construído o edifício do n.º 24 da Rua Frei Fortunato de São Boaventura? Disseram-me ter sido por volta de 1936, estará correcto? Agradeço antecipadamente!

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  17. Segundo os índices do arquivo municipal a atribuição de número de policia e a certidão de inicio e conclusão da obra são desse ano. Todavia há documentos de 1935 que referem obras de reparação nesse lote. Admitamos que o prédio possa ter sido edificado antes já que o loteamento e venda de lotes foi levado a cabo à revelia do projecto da C.M.L. para o bairro pelo dono do Casal dos Ladrões, aproveitando-se duma autorização para abrir alguns arruamentos.
    Cumpts.

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  18. O 24 dessa rua tem o n.º de obra 48.258.
    Cumpts.

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