Os limites são inadequados e os radares são um atraso de vida, dizem alguns (muitos, quase todos).
Passo e observo o jardim. Hoje vinha um senhor de fato claro com uma pasta na mão. Não se alongou no caminho até à passagem subterrânea. A velocidade modera-se logo à saída do túnel de Entrecampos. Aposto que há-de atravessar ali sem correr sequer.
Num banco um maltrapilho imóvel - vejo-o de costas - parece dormir sentado. Ontem um homem lia o jornal no banco a seguir; um casal passeava o cão. Do outro lado uns operários entaipavam o velho prédio do nº 180; - que mamarracho brotará dali? - penso. Passo o Quebra-Bilhas e ocorre-me sempre o nome do casarão aonde se encosta: o palacete Beltrão que foi de Fausto de Figueiredo. Hoje diz que pertence à Opus Dei.
Subo o Campo Grande sem semáforo que me detenha. A menos de 50. E dou comigo a pensar calmamente nisto tudo e no rápido ritmo da mudança que me é induzido por consultores e outros arautos da competitividade [mais um desses palavrões da moda].
Competitivo para quê? Para gerar mais e mais riqueza, sempre mais e mais depressa? Para poder pagar carradas de qualidade ISO 9000 plastificada? Para comprar segurança...?
Os radares põem-nos paradoxalmente no ritmo certo. A vida é que anda com excesso de velocidade.
Soubéssemos nós perceber isso.
Jardim do Campo Grande, Lisboa, 1966.
Fotografia de Jorge Guerra in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Paradoxo do ritmo
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Exactamente! Se todo o mundo andasse um bocadinho mais devagar, a competitividade relativa (cá está a palavra chic) mantinha-se e eram todos mais felizes, penso eu.
ResponderEliminarMeu Caro Bic, estamos de tal forma submersos no triste mundo concorrencial que denuncia, que radares não nos servem: precisamos é de sonares para detectar os obstáculos à nossa felicidade, já que os olhinhos estão para nada. Abraço
ResponderEliminarCaro Bic, não é, frequentemente, por se andar mais depressa que se chega mais cedo. Costumo apanhar nos sinais os que me ultrapassam. Mas, no que respeita ao trabalho, ainda há uma perspectiva diferente: ainda se valoriza demasiado a atitude, em detrimento dos resultados; um ar muito afogueado, muito acelerado e muito ansioso ainda cai bem.
ResponderEliminarA Luar dois acertou na mouche quanto à atitude de aceleração profissional ideal. O low profile é insuficientemente gabado. Belo post senhor Bic.
ResponderEliminarCumpts.
O nome «Quebra-Bilhas» tem qualquer coisa de patusco. Deve ter uma estória que o alumia ...
ResponderEliminarE depois o frenesí do progresso de que trata «Bic Laranja» no "post". Na minha cidade, gaba-se um edil, assim :
Temos mais sessenta ruas, sessenta !
Mas para que é que queremos mais sessenta ruas ?
E mais saudáveis, Pedro. // Andamos cegos, é verdade, caro Réprobo. // Creio que os afogueados são os mais atrapalhados, Dª Luar II. // Obrigado! generosa como sempre Srª Dª T.! // Ena! 60 ruas? E quantas rotundas?!... // Cumpts. a todos.
ResponderEliminarBelo texto, Bic. Belo texto. Abração.
ResponderEliminarMeu caro,"Hoje diz que pertence à Opus Dei".
ResponderEliminarSe é o nº300, não diz, pertence mesmo.
Um abraço
Belo texto!
ResponderEliminarTalvez saibamos...mas somos poucos, infelizmente.
Generosidade sua, amigo Santos Passos. // É no 300, Gonçalves. Mas como aquilo é meio secreto... // Devemos ser poucos, sim, Sr. Quintela Soares. E por outro lado há outros tantos publicitando afincadamente o contrário. Para convencer a todos... // Cumpts.
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