Uma dúvida surgida ao prezado Je Mantiendrai n'«O táxi do sr. Casaca...» sobre o palácio do conde de Vimioso e sobre o palacete Beltrão acabou por me remeter para o Retiro do Quebra Bilhas, que é contíguo àquele último.  Retiro do Quebra Bilhas, Campo Grande, 1941.
Pelo Olissipo tive notícia há mais ou menos um mês que o velho retiro lisboeta fechara. Estas cousas dão-me pena; e por não andar em cuidados, fugi na altura de pegar no assunto. Depois mais ajudou que, numa rápida vista de olhos no que tinha mais à mão, não houvesse encontrado menções ao Quebra Bilhas no Guia de Portugal ou nas Peregrinações do Norberto de Araújo. Nem mesmo a Angelina Vidal, ao passar pelo Campo Grande na sua Lisboa Antiga e Lisboa Moderna o refere. A Marina Tavares Dias sim, faz-lhe uma breve referência no capítulo das Hortas, no 1.º vol. da Lisboa Desaparecida, mas é coisa de nada. O rombo na alma lisboeta pelo fecho da última locanda da Lisboa das hortas é enorme. Tinha o estabelecimento seguramente mais de 200 anos. Era de fins do séc. XVIII (1793?) ou do princípio do séc. XIX; socorro-me do Jornal da Praceta que traz algumas notas históricas e publica inclusive fotografias do Arquivo Fotográfico da C.M.L.. Tinop (Pinto de Carvalho) conta na História do Fado que lá se «fadejava nas noitadas de esperas de toiros»; a Severa cantou lá, e claro que não faltava freguesia fidalga (Vimioso, Castelo Melhor, Avilezes, Lumiares, Galveias, Maniques) naquelas noites de estúrdia e divertimento popular em que se dedilhava e cantava o fado. [Nota.]  Panorâmica sobre o Hospital Júlio de Matos, Campo Grande, 1946. O Campo Grande foi lugar de feiras de gado e isso já mostrei cá no blogo quando falei no Antão. Os que lá vedes são os camponeses guardando o gado no canto sul do gradeamento do que hoje é a Universidade Lusófona. Quase aposto que alguns deles jantaram no Retiro do Quebra Bilhas. Evocando as hortas tendes aqui (acima) uma fotografia das traseiras do Antigo Retiro do Quebra Bilhas quando apenas havia por ali as edificações do Hospital de Júlio de Matos. Estes sítios arrabaldinos eram só de quintas. Típico dos retiros lisboetas era o quintalão; claro que não faltava ao Quebra Bilhas, abrigado por generosos toldos de parreiras e árvores frondosas. No fundo podia ser um telheiro, como o do Caliça na Estrada dos Salgados, onde vemos numa conhecida fotografia de Paulo Guedes um grupo durante o repasto. As casas adiante do Quebra Bilhas (em baixo) eram com certeza do início do séc. XIX; foram abaixo por volta de 41. O Quebra Bilhas aguentou-se. Como ainda não ouvi notícia que o fossem deitar abaixo tenho uma réstia de esperança; pode ser que o retiro algum dia reabra rebaptizado como «Antigo Retiro do Quebra Bilhas» conforme vemos nas imagens. Mas quando o futuro são cifrões a História acaba por tornar-se um mamarracho...  Campo Grande, lado oriental, Lisboa, 1941.
Fotografias: Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L. [Corrigido em 21/10 às 10 horas. Remissões repostas em 20/VII/14. Revisto em 5/XI/17.]
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Continuo a admirar estas fotografias.
ResponderEliminarÉ curioso deste tempo, sobretudo em Benfica e Telheiras, ainda vemos perdidas e muito degradadas as respectivas casas de quinta, não raras vezes ladeadas de moinhos também eles muito deteriorados (tanto os tradicionais de vento, como os outros montados em estruturas metálicas). A construção civil dos anos 60 à actualidade quase tudo levou...
ResponderEliminarAs do E. Portugal são todas admiráveis, Dª Brites. Cumpts. // No fim, Caro Zé, hão-de ficar algumas poucas, sufocadas pelo volume das novas construções. Cumpts.
ResponderEliminarMais uma facada na alma. Resta-me a consolação de lá ter desfrutado de belos repastos e de boa companhia.
ResponderEliminarAbraço
Enquanto durarmos há essa consolação. Depois será o vazio. Cumpts.
ResponderEliminarFacada na alma, diz bem. Mas que agradáveis são estes passeios de erudição olissiponense. A pensar nestes seus passeios e charlas e a propósito, já reparou como a prosa de Júlio de Castilho na "Lisboa Antiga" se prestaria a estilo do "post"? Mais um obra belíssima e generosa que passou às trevas do esquecimento...
ResponderEliminarÉ um grande elogio que me faz, não sei se o mereço inteiramente. Mas obrigado! E tem razão no que diz do Júlio de Castilho. Obrigado por lembrá-lo aqui. Não o referi lá em cima por não possuir a obra. Cumpts.
ResponderEliminarMeu Caro Bic Laranja:
ResponderEliminarGrandes patuscadas fiz eu no ...Quebra-Bilhas, até ao dia em que um inofensivo roedor resolveu atravessar a sala bem junto à nossa mesa. Conseguiu-se evitar o salto para cima da dita da parte feminina do grupo, porém já não houve maneira de obstar à interdição de lá continuar. Mas dá uma dor na alma saber que se finou.
Abraço.
Pois agora nem para os ratos... Cumpts.
ResponderEliminarP.S.: Ou só para eles. Cumpts.
ResponderEliminarA prosa do Bic é muito na linha do Pinto de Carvalho(Tinop) ou do Norberto Araújo.
ResponderEliminarGosto muitissimo de o ler (texto e imagem). É um blog que a CML deveria editar.
[Pss! Não diga isso que eu tenho-lhes surripiado estas fotografias todas.] Muito obrigado mais uma vez!
ResponderEliminarA todos os interessados se comunica que há semanas, na boa livraria da CML (junto à casa Xangai e da Versalhes, essas duas instituições), ainda havia umas edições ou restos de edições com interesse. Lá resgatei uns volumes da "Ribeira de Lisboa" de Mestre Castilho e um "Chiado Pitoresco e Elegante" do Mário Costa.
ResponderEliminarGrato por mais uma boa sugestão. Cumpts.
ResponderEliminarNão é roubo porque são património colectivo:! ;)
ResponderEliminarA Livraria Municipal conheço e também lá comprei umas coisinhas. Foi uma das excelentes ideias do mandato do Soares (não que eu aprecie o senhor, mas o seu a seu dono). Mas deviam lançar novas edições, até porque a CML tem tipografia própria, bons designers gráficos e obrigações com a história da cidade...
Quando mais não fosse, reimprimir algumas antigas. Cumpts
ResponderEliminarCada vez da mais gozo visitar o teu blog que mostra a cidade que nunca deveria de ter sofrido os ataques imobiliários que tem levado
ResponderEliminarera tão agradável jantar cá fora debaixo das "latadas"... Mais uma memória para fechar na caixa e dentro de uns tempos vamos ter em seu lugar um enorme e feio prédio cheio de escritórios ou então de pessoas que nunca se conhecerão e serão apenas mais um "molho" de gente numa caixa.
ResponderEliminarObrigado Tron! // É provável, Luar. // Cumpts.
ResponderEliminarOla, cai aqui de paraquedas :-)
ResponderEliminarleio com tristeza noticia do fecho do antigo retiro... passei la uma grandes noitadas.
Dei umas voltas pelo blogue, parabéns é muito fixe. Vou voltar para curiosar mais, agora fiquei um pouco nostalgica.
Ciao
Ciao!
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