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sexta-feira, 18 de agosto de 2006

A noute e a importância do nome Amélia


 A primeira vez que ouvi pronunciar noute em vez de noite foi à D. Amélia, a mãe do Luís. Achei esquisito e disse à minha mãe que a mãe do Luís dizia boa noute e não boa noite.
 — Pois diz, filho. Talvez seja porque nunca foi à escola.
 Admirei-me de a D. Amélia não saber ler mas fez sentido; julguei então que dizer noute em vez de noite era por isso...
 É curioso que havia mais duas Donas Amélias lá na rua e ambas eram explicadoras. Havia a D. Amélia, a avó do Carlitos e a D. Amélia do 8. E havia ainda a Amélia dos jornais que não era dona, com certeza por ser dos jornais. À D. Amélia do 8 ia o Vijó levar algumas vezes garrafas de vinho branco lá da taberna do pai. Íamos muito os dois; ele deixava-as à porta sem bater e depois íamos brincar. Mas onde o Vijó andou na explicação foi na outra D. Amélia, a avó do Carlitos.
 Não imagino Lisboa na primeira metade do séc. XX, das avenidas novas aos bairros antigos, sem haver imensas (*) Amélias: costureiras, criadas, floristas, vendedeiras, avós, tias, senhoras, algumas quadrilheiras, donas, meninas... O nome Amélia era mais vulgar que hoje, com certeza por a rainha D. Amélia se chamar assim. Os nomes são como as roupas: há-os com naftalina e há-os em plástico. Uns andam comidos pela traça, outros queriam-se no... ecoponto...



Palacete Silva Graça, Lisboa (J.Benoliel, post. 1908)



 Não tenho a certeza mas, depois da D. Amélia, a mãe do Luís, acho que nunca mais ouvi ninguém pronunciar noute por sua fala natural. Talvez nos Açores... Mas a D. Amélia não era de certeza de lá. Tenho ideia que até era lisboeta... Na verdade não sei (**). Sei é que o duplo emprego de ouro/oiro, louça/loiça é comum e acho que cada um opta pelo que calha. A forma noute (e dous também), parece-me eu, apoia-se já só no cajado da naftalina; enquanto a traça das amélias lhe não dá.



Fotografia:
Palacete Silva Graça (depois Hotel Aviz) e senhoras subindo o troço inicial da Av. 5 de Outubro, Lisboa, post. 1908.
Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
[Revisto em 20/8/06. Publicado de novo em 28/6/2016 à meia-noute e quarenta.]


Notas em 28/6/16:
(*) Imenso é o mar; hoje escreveria inúmeras ou numerosas.
(**) A D.ª Amélia, a mãe do Luís, era de Setúbal, disse-me o Carlos cujo pai tinha um táxi e que morou lá no prédio.



 

20 comentários:

  1. Gostei imenso deste maravilhoso texto. Mas queria-te esclarecer que nem mesmo nos açores se diz "noute", sou açoriano e a minha pronuncia não me leva a falar assim , nem tão pouco aos meus conterraneos. Embora muita gente pense que a pronuncia mais conhecida dos Açores, Micaelense, dos naturais de S. Miguel, seja a falada em todas as ilhas , mas não é assim. Cada ilha tem a sua própria pronuncia e mesmo dentro desta de freguesia para freguesia muda... Mas " noute " só se for lá para ´Trás os Montes " ou até quiça do Algarve?!...
    Aqui nos açores D. Amélia também ficou em forma de doce tipico, que foi oferecido à Rainha aquando da sua visita a esta ilha Terceira de Jesus, a terra mais portuguesa de todas pois foi sempre a ultima a render-se aos invasores.
    um abraço
    visita-me se assim o desejares e se quiseres visitar esta ilha não te esqueças de me contactar.

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  2. Pois também eu gostei e gosto sempre que desata os nós da sua memória. Do Túnel da Bruxa às Amélias, pois. Boa noute, Amigo Bic.

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  3. Bic Laranja18/8/06 21:55

    Ilhas. Fico-lhe mui grato pelo pertinente interessante esclarecimento. Muito obrigado pelas boas palavras e pela sua simpática disponibilidade. Tê-la-ei em conta quando visitar a sua ilha Terceira. Cumpts. // Caríssimo Manuel. É sempre amável, o meu bom amigo. Parabéns pela volta de mais um ciclo do Gasolim. Cumpts.

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  4. Meu Caro Bic Laranja:
    Próximo de «noute» poderíamos considerar "cousas", contra "couro" e "touro", relativamente alternados com os seus homólogos portadores de "ii". É curioso, mas sempre pensei a opção do i em vez do u fosse mais frequente no Norte, como a acentuação do primeiro "i" de "ministro", ou a pronúncia como "ê" de certas sílabas que por cá lemos "â": coelho, fedelho, etc.
    Abraço.

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  5. A minha Avó dizia "noute". Era de Lisboa e muito prendada, como se dizia à época: tocava piano e falava francês, além de bordar divinamente.

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  6. Bic Laranja19/8/06 17:50

    Caro Paulo: tem vossemecê razão no que diz. Nos casos de oi/ou li que havia uma assimetria norte/sul. Julgo que a tendência é a generalização duma das formas e o decaimento da outra. Mas o fenómeno parece aleatório... Cumpts.

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  7. Bic Laranja19/8/06 19:32

    Cara MFBA, pelo que diz dizer 'noute' era comum em Lisboa mas, do que vemos hoje, deixou pura e simplemente de o ser. Obrigado pela visita. Cumpts.

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  8. Grande texto como sempre, mil vezes melhor do que ir ao burger king

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  9. Bic Laranja20/8/06 15:03

    Obrigado Tron! Cumpts.

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  10. Pode realmente a palavra "noute" estar no cajado da naftalina, como todas as outras palavras antigas que pouco a pouco vão sendo substituídas por fato em vez de facto e cagado em vez de cágado. Sabemos que, quando queremos referir a histórias do passado, utilizámos a palavra "estória", só que há uma diferença, é que enquanto "estória" não faz parte do dicionário actual, "noute" ainda lá permanece "hirta e firme", deixando aos vindouros a possibilidade da sua utilização e não necessitam para isso de se chamarem Amélias. Tudo de bom

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  11. Bic Laranja22/8/06 18:06

    Fernão Lopes usou 'estoria', que correspondia provavelmente à sua pronúncia. Modernamente a única grafia dicionarizada é 'história' (ainda que pronunciemos quase sempre como o Fernão Lopes), sem embrago de muitos usarem a grafia 'estória'. Noute está dicionarizada mas nem as amélias já a usam. Obrigado pela visita, Cumpts. :)

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  12. Helena Aguas14/6/13 16:28

    a minha avó Sara (que não sabia ler nem escrever, apenas rabiscar uns números e o próprio nome), dizia sempre «Boa noite nos "dei" Deus» quando chegava a hora de acender a luz da cozinha, que costumava ser a primeira a ser acesa lá em casa, ao fim do dia..
    sabia deste uso? :)

    (o google nunca de tal ouviu falar ;D

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  13. Parece-me um inflexão da pronúncia de «nos dai Deus», por assimilação do a de «dai» a ao e de «Deus».
    Não sabia deste uso. Todavia já topei com uma ostrução e com um mal de reins em Camillo, não me admirava de virmos ainda a achar esta fórmula de sua avó na camiliana.
    Cumpts.

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  14. Óh Melo, diz lá boa-noite aos senhores

    Melo: "Boa- noute"

    Museu do Cinema, com o saudoso António Lopes Ribeiro.

    (o meu avô dizia assim)

    (beijocas ao Paulo Cunha Porto)

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  15. Certa vez, rapazote e patego, vi-me encaminhado para a biblioteca da Gulbenkian para fazer um trabalhinho de grupo — Olhe, foi no tempo do Fumaça; o trabalhinho era sobre os Egípcios. — Pois estando por lá, na Gulbenkian, dei em cirandar e num auditório vi que estava um orador magro de olhar vivo, calvo, já velho, mas cuja voz me soava familiar e cuja palestra era sobre cinema; por ela prendia uma plateia atenta e em venerável silêncio. Cheguei-me à porta com pés de veludo e calado, com medo de perturbar ou ser notado, mas apanhado por aquela voz. E quando cheguei a casa tentei explicar à minha mãe quem fora que vira, decerto famoso, talvez da televisão, que me prendera a ouvi-lo, nem sei bem... — Ah! Se falava de cinema há-de ter sido o António Lopes Ribeiro — foi a minha resposta. Pois era. Foi a única vez que o vi ante mim. Olhe que era admirável a atenção daquela plateia e como o seu discurso a cativava.
    Não me recordo do Museu do Cinema, porém.
    Recordar-me daquelas D.ªs Amélias já não é mau.
    Cumpts.

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  16. Mandarinia30/6/16 17:58

    Caro Bic,

    Gosto muito do nome Amélia e tal como diz tem um pouco o aroma da naftalina ou das arcas de cânfora, mas é melhor do que as Jessicas, as Petras Vanessas e as Chaquiras (juro que é verdade). A propósito da época de futebol lembro que uma das filhas de Ricardo Quaresma se chama Kauana (durante uma entrevista no programa "Alta Definição" o nome surgiu em rodapé como Kuana, mas custa-me a acreditar que seja essa a grafia). Enfim, modas... É como as calças à boca de sino (que agora se diz "flare"). Quando vejo fotografias do anos 70 só me dá vontade de rir.

    Sou de Lisboa e sempre ouvi dizer "noite" também sempre ouvi as vogais desaparecerem no fim das palavras. Nunca pensei que as consoantes mudas fossem comidas. Mais uma moda...

    Bem haja por escrever tão bem

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  17. Mais que moda. É toda uma civilização em alta definição... definindo-se.
    Cumpts.

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  18. Não escrevo assim tão bem.
    Obrigado!

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  19. A minha Mãe dizia Boa Noute e as minhas filhas (netas) achavam piada .

    Nasceu numa Vila da Beira mas veio para Lisboa com 15 anos .Há muitos anos atrás .

    Abraço

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  20. E não são as noutes tão mais amoráveis que as noites?
    Cumpts.

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