Pagar assinatura da Sport TV — o canal da bola, leia-se — é essencial ou supérfluo?
Para mim, é supérfluo. Cá em casa não pago nada disso. Mas se pagasse seria porque fosse essencial?
Talvez, mas o dinheiro cá em casa não é só meu. É da família. E ver a bola é só do meu gosto particular (quando é).
Assim posto, um canal de televisão só de bola, em casa, numa casa particular, só para ver a bola, não é essencial. É com cada família. Paga quem quere ou pode.
E, na sede do governo nacional?!…
É essencial ao governo da nação ou ao interesse particular do primeiro ministro?
Estou a falar de ver os jogos da bola do Sportem, Benfica ou Porto, não da selecção nacional (ou do Cristiano) que dão sempre em canal aberto na Radiotelevisão ou seu sucedâneo.
É isso essencial ao governo da nação? — Ver os jogos da bola do Sportem, Benfica ou Porto?!…
(As restantes agremiações futeboleiras são tão evidentemente irrelevantes no conceito do que pode ser entendido por nacional que nem nas trago ao caso, isto sem ofensa, mas é a realidade.)
E dentro do conceito de nacional — o superior interesse da nação, como dizem; aquele que é necessário strictu sensu ao governo da nação… — Entrar em despesa para ver os jogos de Sportem, Benfica ou Porto (dos restantes é como já disse), é ele coisa essencial nas televisões do palácio da sede do governo?…
Pois parece que sim. Mas…
Bem, dir-me-ão alguns, um ministro (primeiro ou abaixo) não tem horário; está sempre de serviço; não lhe assiste largar o expediente. Não há naturalmente de ter tempo para si?
Claro! Há naturalmente de ter tempo para si, para a família, para os seus devaneios particulares e até para ir de férias, imagine-se… Ou para ir à bola… Mas quando vai nisso — a título particular, bem entendido — está «fora de serviço» (ponho isto entre aspas porque nunca o está). E se for é lá consigo. Tem o direito como qualquer outro dos comuns. Se quiser ir à bola, pois que vá! Por sua conta. Se quiser ir á bola no estádio, pague seu bilhete e não me peça dinheiro a mim. Ou vá por convite, como do Benfica ontem, ou doutro qualquer amanhã.
Porém…
Porém, então, porque há o seu interesse particular em ver a bola sem convite em canais de assinatura paga no palácio da sede do governo, porque há isso de ser despesa para o erário?
Porquê?!…
Porque o interesse particular do primeiro ministro em ver a bola quando no palácio da sede do governo não se confunde com interesse nacional e não é essencial bom governo da nação.
E não é o que parece! E em assim não sendo, o bom governo não é bem, na prática, já, duma democracia. Mais se assemelha a uma ditadura.
Em qualquer caso — democracia, ditadura ou gosto particular do sr. primeiro ministro — ainda assim a Sport TV (ou a NOS) não se chega à frente e oferece uma assinatura a essa espécie de cavalheiro? Nem ele a obriga por decreto? Pois se o faz a mim e a outros particulares a cada dia!…
Seria até mais de acordo, ou não?!…
Mas não. Porque em democracia não se prestam favores particulares desses a governantes e, fatal como o destino, porque o dinheiro público é sempre, na prática e à mesma, de quem manda. Nem é precisa uma ditadura.
E assim, democarcia, ditadura, são só tretas. A teta é que é.

Rafael Bordalo Pinheiro, «I – A Política: a Grande Porca», in A Paródia, n.º 1, 17/I/1900.
In Hemerotheca digital da C.M.L.
O homem gosta de ver o FC do Porto...
ResponderEliminarÉ natural.
EliminarCumpts.