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sábado, 13 de setembro de 2025

Estói ou Estoi? Ou Estoy?…

 Instou-me muito cordialmente o benévolo leitor J.H.S., cujas iniciais de assinatura coincidem com as de José Hermano Saraiva, a emendar Estói por Estoi na minha publicação de terça-feira.


 Dei-lhe ontem uma resposta empenhada e longa, bem que apressada e pouco estudada, que treslado  agora para aqui, revendo-a e augmentando-a, enquanto não emendo a que lhe dei lá. Reli-a lá há pedaço e achei-a talvez meia impertinente. Não quis ser descortês, e por isso empreendo de novo na questão, à laia de desculpa. Não sei se mereço.


 Preguntava ao sr. J.H.S. desde logo se me poderia esclarecer se a pronúncia da gente da terra era Estôi, porque me dizia — para que se pronuncie o -o- fechado (como está correcto) e não aberto.


 Vim a descobrir por isto que houve questão há anos com a grafia Estói, cujo acento agudo no ditongo ditava que se marcasse timbre aberto na vogal -o- (ói). Como nunca li nem ouvi Estôi nem conheci gente da terra que mo ensinasse, aprendi Estói com -o- aberto somente de ler o topónimo. Ou seja aprendi a entoar o topónimo a rimar com herói e não com boi, isto sem sem ofensa. E dei em resposta exemplos dalguns autores consagrados:



Raul Proença, Guia de Portugal, II Estremadura, Alentejo, Algarve, [repr. da 1.ª ed.], Biblioteca Nacional, Lisboa, 1927, p. 241 (Estói).

Magnus Bergstrom, Neves Reis, Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, Empresa Nacional de Publicidade, [s.l.], [1955], p. 175 (Estói).

A. Almeida Fernandes, Toponímia Portuguesa (Exame a um Dicionário), Associaçao para a Defesa da Cultura Arouquense, Arouca, 1999, p. 280 (Estói).



 O útimo A., o Dr. Armando de Almeida Fernandes, até dá origem germânica do topónimo (asts, ramo, com sufixo oi) e considera que foi levado de Norte para o Sul, do concelho medieval Vila Estói, hoje mero lugar na freguesia de Valpedre, concelho de Penafiel. Tem graça esta origem e deslocação do topónimo de Vila Estói para o Algarve porquanto a Assembleia não decretou mudança de denominação para ela na origem, a Vila Estói; só para o povoado algarvio que dela tomou o nome, segundo o Dr. Almeida Fernandes, a quem dou crédito porque foi um grande estudioso da toponímia e não só.


 Temos assim Estoi de lei (como o ouro), e Vila Estói, por inércia da mesmíssima lei, porque a Assembleia não leu este autor, decerto. Ou porque para os lados de Penafiel se não procurou ou nem houve questão alguma com a entoação do ditongo final ói/ôi…


 Empreendendo, pois, agora mais na questão, tiro das Dúvidas Linguísticas do Flip:



 A Lei n.º 32/2005, de 28 de Janeiro, alterou a denominação oficial da povoação e a freguesia de Estói, que passou a denominar-se Estoi. Esta era uma pretensão de alguns dos seus naturais e habitantes.
Helena Figueira, «Estoi ou Estói?», in Flip — Dúvidas Linguísticas, 2/VII/2009 (sublinhado meu).



 Já ontem lera nas Ciberdúvidas desta Lei 32/2005 que, sem preâmbulo, sem aduzir razão de alguns nem de nenhuns dos seus naturais e habitantes ou qualquer outra explicação, antes ordenando seca e imperialmente sem ai nem ui a mudança do nome da terra — a povoação e a freguesia de Estói, no município de Faro, passam a denominar-se Estoi. — Li esta lei seca e pareceu-me bem a Assembleia com ela, no mando e no tom imperativo, pois não há nada como sem dúvida, e vai daí determine-se e mande-se publicar.


 O caso seria, ao que cuido, de nenhuma justificação e de igual importância, também me pareceu. Coisa com que se ninguém aborreceria, nem o Povo de Estoi nem o Visconde de Estói (cf. Nobreza de Portugal e Brasil, vol. II, Editorial Enciclopédia/Zairol, Lisboa, 1960-1989, p. 568). Antes pelo contrário. O Visconde porque já morreu. — Mesmo que vivesse seria, a bem dizer, Visconde de Estoy, estou em crer, tendo sido o título dado por el-rei D. Carlos em 1906. — A Estoy do Visconde não é, por tanto nem por nada tida nem contemplada na lei da Assembleia, até por não ter ela competência nos títulos da Nobreza senão para os querer dar todos por nulos. Só Estói, portanto, é contemplado por ela, com o que passou a Estoi, sem acento, e que Povo da terra talvez prefira. Ou pelo menos alguns dos seus naturais e habitantes, como dizem as Dúvidas Linguísticas do Flip que já referi.


 Da literatura ao meu dispor, que vem de trás, do passado, concluo que amanhã já não canta nem hoje conta. Estão todos aqueles autores errados a grafar Estói. Faça-se por conseguinte tábua rasa. O passado, nestes tempos actuais, tem-se visto e percebemo-lo ainda mais a cada dia, foi um erro colossal e a necessitar de penitência, quando não mortificação. Mas não morramos já disso. Aguardemos talvez que o Congresso Nacional do Brasil ou Academia Brasileira das Letras emitam soberana lei, despacho ou decreto de confirmação final sobre o caso — Estoi ou Estói? — pois, como sabemos desde a sua Resolução n.º 35/2008, a Assembleia desta República Portuguesa trespassou servilmente o domínio e senhorio absoluto do idioma pátrio aos Brasileiros.


 Até lá «a linda aldeia edificada sobre um cômoro que domina a vasta planície banhada pela ribeira do Alcaide», como diz o Guia de Portugal de Raúl (ou Raul?) Proença, que se vá chamando como alguns dos seus naturais e habitantes dizem e a Assembleia nacional dispôs: Estoi (ôi). No fundo é como já dizia o Pinho Leal…



«Estoi ou Estoy», Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno; diccionario ... de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias», vol. III, Mattos Moreira, Lisboa, 1874, p. 71


«Estoi ou Estoy», Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno; diccionario ... de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias», vol. III, Mattos Moreira, Lisboa, 1874, p. 72.
«Estoi ou Estoy», in Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno; diccionario Geographico, Estatistico, Chorographico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias, vol. III, Mattos Moreira, Lisboa, 1874, pp. 71-72.


 

2 comentários:

  1. Orlando Braga14/9/25 10:55



    Com todo o respeito: é “Estói” — a não ser que herói passe a ser “heroi”.

    Estamos entregues à bicharada (com todo o respeito).

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  2. Que havemos de fazer? A pronúncia parece que oscila. Uns dizem Estói, como herói; outros Estôi, como boi.
    Tal qual comboio: uns dizem combóio, outros consta que dizem combôio (coisa que nunca ouvi a ninguém, mas assim consta).
    Vai daqui tiraram-lhe o acento e apanhamos todos o mesmo comboio.
    O mesmo que com óito e dezôito para o Porto, e ôito e dezóito para Lisboa.
    Sem acento acaba por servir a todos.
    Posto isto, confesso que por hábito me sai sempre Estói, por retorno da palavtra escrita na oralidade. Nunca tendo ouvido Estôi, convenço-me, sobretudo porque até no Pinho Leal, que é de 1874, achamos Estôi marcado com circunflexo (v. p. 72 acima) a par de Estoi e Estoy, e nenhuma destas sem acento invalida a marca de oralidade transmitida por este Autor, com ditongo ôi fechado.
    Por fim, o herói da analogia, não sofre sevícia porque lhe não deu (por enquanto) o bicho da oscilação na oralidade. Onde deu a bicheza para já foi no adj. heróico, cujo acento a marcar o timbre aberto do ditongo querem varrido por essa coisa do aborto gráfico.

    Cumpts.

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