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sábado, 2 de agosto de 2025

Primeiro de Agôsto

 Galveias, dez e meia da manhã. Passo o pátio, abro a porta, seguro-a, cêdo passagem a uma senhora que vem três passos atrás.
 Entro, vou à sala do canto, que deram ao Herberto, a sacar da estante o do Quilino que me tem interessado, ainda antes de subir ao andar nobre pelo que reservei; levou meses a emprestarem-mo — sempre emprestado neste tempo. A senhora a quem abrira a porta acha-se aqui ante a bibliotecária. Rara leitora. Raros leitores, hoje, um ou dois por sala. Agrada-me assim.
 Com os dois livros, o que leio na biblioteca (êste não emprestam, é legado do Herberto…) e o que levo emprestado, ponho-me na varanda, no canto, à sombra, só eu…
 Primeiro de Agôsto: calor! Deixo-me ficar até ao almôço; até ao fim da interessante parte que trata de Camillo e Eça — Camillo vs. Eça — em que paro. Ao depois, quando tornar, sigo o resto dêste Quilino, com Raul Brandão.
 Deixo as Galveias, passo o jardim, onde podia almoçar, mas não. Cruzo uma esplanada, duas. Sento-me nesta, menos cheia, a ver se como mais sossegado.
 — Ontem o treinador de Mirandela perdeu… Peço alheira…? — cogito.
 Ainda pego no livro que trago, mas entretanto servem-me.
 Depois do arrôto e do café, meto-me pelo bairro do Arco do Cego. Aqui o sossêgo é maior. Quási ninguém. Férias: da escola, de todos. Entre o liceu Felipa e a escola primária, a rua deserta de primeiro de Agôsto é aprazível: bancos de jardim à sombra dumas árvores frondosas, uma brisa tépida que corre e que corta o calor.
 — Onde ia eu?… 10.º capítulo, pág 145 — O áspero degredo.

Não pode tanto bem chegar tão cedo,
porque primeiro a vida acabará
que se acabe tão áspero degredo.

 Versos da elegia O sulmonense Ovídio, desterrado (elegia do desterro) introduzem-no; o capítulo e o degredo do poeta; e o degredo do poeta, comparando-se ao de Ovídio, introduz uns amores de Camões com certa dama do paço, causa do dito degredo. — Quem foi ela? Que se passou?
 Novela de amores proibidos, censurados, esquecidos. Dou agora em apreciar novelas. Quedo-me ali a tentar saber…

*   *   *

 Duas e meia. Passo o bairro do Arco do Cego; Praça de Londres; Manuel da Maia, o mesmo sossêgo. Pouco trânsito, pouca gente; dois, três automóveis; uma ou outra pessoa — primeiro de Agôsto, a gôsto…
 Com a soalheira, atalho pelas escadinhas que ligam a Manuel da Maia à Guerra Junqueiro, caminho fresco, de sombra…
 De sombra…

Escadinhas da Manuel da Maia para a Guerra Junqueiro, Lisboa — © MMXXV
Escadinhas particulares da Manuel da Maia para a Guerra Junqueiro, Lisboa — © MMXX

 

  Versos doutra elegia… 

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