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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Smell (um mote para desodorizar)

 Há para aí na miùdagem (e na miùdagem já madura que nunca cresceu) uma mania de intercalar macarrònicamente substantivos em amaricano no meio da converseta em português. Um caso: ouço amiúde dizer smell por mau cheiro. Este smell não é coisa que se cheire mas, é como é (outra dessas ingresias, idiomática, no caso).


 


«Mini sanita portátil (i.é, penicos repenicados)», Alfragide — © MMXXV
«Mini sanita portátil» (i.é, penicos repenicados), Alfragide — © MMXXV


 


 Mau cheiro em português que se cheire, é fedor. Parece paradoxal.


 Menos paradoxalmentre, fedor pode parecer formar-se do verbo feder, mesmo quando o uso geral é formarmos um substrantivo do próprio infinitivo do verbo, que seria feder, como disse. Mas no caso dum cheiro que feda dizemos antes um fedor, não um feder. E embora o fedor e o feder sejam ambos possam remeter para o mesmo cheiro, há matizes no fedor e no feder (ou nuances, se quisermos borrifar esta conversa com eau de cologne). Fedor é o mau cheiro só por si, sem atender à fonte, enquanto que feder é deitar ou exalar mau cheiro subentendendo a fonte donde emana. Em todo o caso e etimològicamente, fedor e feder são cognatos (*). O cheiro pode ser o mesmo.


 Não bem assim, ou pelo contrário, andar e andor não são cognatos como também poderia parecer. Nem do infinitivo do verbo andar, por exemplo, formámos alguma vez o andor. Não. Andar no sentido deste ou daquele andar, isto é, maneira, jeito de caminhar, como quando alguém bamboleia, manca ou ginga é uma coisa. Andor é coisa diferente: é padiola de santo nas procissões. Se tanto, interjeição para pôr alguém a andar: — Andor daqui para fora!… — será o caso. De ir o andor nas procissões ou de pôr alguém a andar, só por acaso se liga a andar. A origem de andor parece que é o sânscrito: andor era a retouça da ou do Crisna lá nas procissões hindus, segundo li.


 De outro modo, do infinitivo de comer, fazemos muito regularmente o comer, substantivo respeitante à comida (outro substantivo…) antes de ser comida (… que nesse caso, sendo comida, é já particípio passado, de comer).


 Nada tem aqui o comer que ver com o anterior já que não há par nenhum comer/comor como andar/andor ou feder/fedor. Podemos é juntar o andar com o comer, como quando para jantar alguém avisa: — Anda comer que a comida está na menza! — Mas divago…


 Digerindo a ladaínha, concluo.


  Fedor é uma excrescência directa do latim (*) que não passou e tem até mantido o cheiro em português (salvo seja) por séculos de gerações, mas que nestas últimas (gerações) vem fedendo cada vez mais numa espécie de (bad/foul) smell que em singelo e lá com os bifes e os camones nem seria necessàriamente malcheiroso, porquanto essoutros têm melhor para si o stench e o stink (salvo seja, pois nem todos decerto deitam cheiro…) Mas isto são já ingrazéus a mais para a tal miùdagem que, melhor havia de ser desandá-la só pelo smell:


 — Andor!


 




(*) Cognatos do latim: fœtor, fœtōris, s.m. 1) mau cheiro, fedor. 2) infecção e fœtěo, fœtēs, fœtēre, v. int. 1) ter cheiro fétido (< fœtĭdus), cheirar mal. 2) (Fig.) Repugnar, ser insuportável. Se foi o substantivo que no latim deu o verbo ou o contrário não sei.


 

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