Diz que o governo caiu… — O governo?!… A comissão liquidatária. A XXIV.ª desde o grande acidente nacional [fora as seis provisórias que pouca diferença também fazem]. Isto se lhe não devêssemos chamar antes administração de falências em vez de comissão liquidatária. Pouco importa. O caso é que assim como assim, é democrático, embora não tão democrático como a ordem alfabética. Mas é democrático. Logo, é bonito. E bem assim, sagrado, Deus nos valha!….
Pois, diz que caiu. Não sei se com estrondo. Não ouvi nada. Soube pela senhora já ao depois da ceia; a madrinha disse-lho quando falaram ao telefone, ao serão.
Talvez tenha tombado antes, quando me caiu ao chão a ardósia electrónica (em português, ipad; o i lê-se ai, também em português, como em icebergue). Caiu, fez pum no tapete da sala e até a senhora me preguntou da cozinha, que era aquilo. O pum da ardósia electrónica a bater aqui no chão da sala deve ter abafado o peido mestre lá de S. Bento.
Ou então não houve por lá estardalhaço. Como acontece agora quando o Benfica marca um golo, em que já ninguém berra. Ficamos sem dar conta. Deve ser de sobrarem cada vez menos naturais autênticos por aqui: a bola — até o próprio Benfica dos 6 milhões e dos 400 000 sócios — e os trambiqueiros de S. Bento, passe alguma redundância, devieram curiosidade de escasso eco no vulgo que deambula agora na' ruas e até nos cafés de Lisboa. O arruído tornou-se outro. Qualquer dia, nem os sinos de finados… Provàvelmente só almuadens aos megafones das almenaras.
Conclusão?
O Benfica e a democracia são bem já realidadezinha de sofá. Quentinha e confortável, só existe pela televisão. Com a maldita televisão desligada sobra o mundo ali fora, que é coisa diferente.

Ilustr.: Maria Keil, Luís Filipe de Abreu, in Livro de Leitura da Segunda Classe / Judite Vieira et al. — 1.ª ed. — Coimbra, Atlântida, 1968.
Sem comentários:
Enviar um comentário