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sábado, 1 de junho de 2024

Epifenómenos do calendário vigente

 Em 1 de Junho de 1979 produziu-se uma confluência sideral ímpar. Os da rua de cima é que ma descobriram e de tão extraordinário fenómeno estelar acabei, qual base lunar Alfa do Espaço 1999, lançado fora da minha órbita. Mas o 30 repôs-me ao depois na órbita certa...
 Que sucedeu?
 Deu-se o dia mundial da criança no ano internacional da dita.


Maria Keil, Ano da Criança (1979)



 Desde então não sei eu doutro ano internacional da criança, mas dias da criançada tem-nos havido. Dois por ano como ùltimamente os dias das mães. A saber:



  1. o Natal -- que não é, não deve, e sobretudo não pode ser mundial porque... é cristão; e muito menos convém sê-lo (mundial) por ser... católico, apesar de católico querer justamente dizer universal -- nem Natal convém já muito que se lhe chame; fomente-se sòmente para aí o comércio e a publicidade aos brinquedos; mas já lá vamos...


  2. o dia mundial da criança -- o 1 de Junho -- escolhido pelos pagãos para irem diluindo o espírito (ou apropriarem-se dele) do calendário cristão.


 Se é conhecida a história de sublimação de inúmeras festas pagãs no calendário cristão como forma de transmissão do cristianismo aos povos, tentadora seria a explicação agora por um fenómeno de paganização inverso que se parece notar. Todavia com o apagar do paganismo não se deu a dessacralização que actualmente se observa. Muito menos se deu o caso de duplicação de eventos festivos que se desenrola hoje. Revela-se nisto, pois, a chave do novo fenómeno festivo-profanador: o comércio.
 Quando a religião mercantil descobriu que o lema Natal é quando o homem quiser se reproduzia com maior proveito enquanto modelo de feira, os feirantes logo transvestiram profanamente o dia da Imaculada Conceição em Dia da Mãe, investindo cabedais na sua posterior mudança para data mais propícia ao trato. Do modelo aplicado aí temos a replicação de dias de prendinhas e consumo moralmente compulsório como o S. Valentim dos namorados ou carnavais duas vezes ao ano com haluínicos mortos-vivos pedindo guloseimas, como que alçando a perna na tumba dos Fiéis Defuntos.
 Temos pois que o dia mundial da criança não passa dum redobro profano do Natal pelos sacerdotes de Mamom que impuseram ritos como o dos homens metrossexuais ou de irem as mulheres à bola para atingirem aquela clientela que escapava ao negócio dos cosméticos e do futebol.
 Houvesse porventura mais dias o calendário ...


 


(Ilustração: Maria Keil, 1979 — Ano Internacional da Criança.)

Publicado originalmente em 1 de Junho de 2015 à mesma hora. Revisto às 11h11 da noite.

13 comentários:

  1. Interessante tema este.
    E os ideais do "comércio" já cá andam à muito. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.
    A nossa baixa Lisboeta leva este "ideal" de comércio a um extremo nunca antes feito (à época), quando se organizou, após terramoto, as ruas por temas de comércio. E, cereja no topo do bolo, nomearam o Terreiro do Paço como a Praça do Comércio. Ideias de 1700 que ainda vigoram.
    Entretanto, num exercício de geografia; se fizermos um percurso a começar na Praça do Comércio, subir a baixa, Praça Dom Pedro IV, Av. da Liberdade, Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo, Saldanha e Av. da República até ao Campo Grande; no fundo o percurso principal a atravessar a cidade; não encontramos nenhuma igreja. As que existem estão devidamente camufladas.

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  2. É deveras interessante o que menciona. Não me ocorreu nesta reflexão breve a profundidade temporal ao século das... Luzes, nem a medida geográfica em que o situa para exemplo. Sempre lhe adianto acerca do contexto toponímico e geográfico que refere a Lisboa que a toponímia popular não se deixou enlevar na conversa... progressista, digamos: o D. Pedro IV não colou no Rossio (salva a estátua que ninguém vê, tão alto lhe quiseram o pedestal), muito menos o Terreiro deixou de ser do Paço (mesmo sem paço) para ser do comércio. Vejo por lá andarem agora a mudar-lhe a simbologia do Poder com pinderiquices comerciais em lugar dos ministérios e o novo Poder, mercantil, a querer impor-se, finalmente!...

    Mais notável é o caso das igrejas, de que me nunca dei conta até agora me falar dele: na Baixa acham-se de facto diluídas nos quarteirões do plano uniforme de Eugénio dos Santos; algumas foram entretanto profanadas e retiradas ao culto, como a de S. Julião à Pr. do Município e o convento de Copus Christi na Rua dos Fanqueiros. Todavia a que espanta mais é não haver nenhuma igreja na malha das avenidas de Rosa Araújo e Ressano Garcia, que é toda a cidade nova do fim do séc. XIX e alvores do séc. XX. É realmente espantoso que as igrejas no perímetro das avenidas sejam ùnicamente as que já havia (e permanecem) nas vias ancestrais que emanavam da cidade Baixa: o Salitre, as ruas de S. José, Santa Marta e S. Sebastião, carreira dos cavalos (Gomes Freire) e estrada (Rua) das Picoas. Bem parece que o urbanismo do fim da monarquia e da 1.ª República, o mais sagrado que fez -- aparte a esnoga do Rato e algum templo maçonico secreto -- foi perpetuar uma lista enorme de nomes de irmãos nos novos arruamentos que veio a construir. Quanto à edificação nessa época de templos cristãos nas avenidas lembra-me um único caso antes do Estado Novo levantar a igreja de N.ª Senhora de Fátima, que foi o da igreja dos Anjos, reconstruída por 1911 lá onde está porque fora demolida a velha que estava no eixo da futura Av. Almirante Reis.
    Dá que pensar.

    Cumpts.

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  3. Anónimo3/6/15 16:48

    Olhe, a propósito de tudo isto que conta e é lindo de se ler e de aprender, deixo-lhe uma pergunta cuja resposta ando há anos para deslindar e que tenho a certeza de ser aqui que a irei obter.

    A que família pertencia o palácio do Rato até nele se amesendar o partido socialista (minúsculas propositadas) algures depois de Abril de 74, para nunca mais o largar? A algum maçon pela certa.
    Sim, porque esta gente importante, muito democrática e muito moderna e muito progressista, só lhes interessa vida epalácios e palacetes é que

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  4. Anónimo3/6/15 17:57

    ... continuando... (saltou semm eu dar por isso).

    ... só lhes interessa fazer vida partidária em palácios e palacetes, nada abaixo disso lhes interessa porque presumem-se (o Soares o referiu) reis sem corôa. Aliás eles, os chefões, o que têm é uma inveja indisfarçável dos pergaminhos, do savoir être e das tradições monárquicas, caso contrário não tinham - no nosso País e noutros europeus - expulsado muitas fa´mílias nobres para ocupar os seus

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  5. Anónimo3/6/15 18:12

    Há qualquer coisa de estranho com este seu novo sistema que não deixa acabar os comentários:)

    (continuando)... para ir ocupar d'armas e bagagens, literalmente, os seus palácios e palacetes. É disto que eles, os democratas da mais pura água, vivem verdadeiramente à grande e à francesa desde a respectiva e mais sanguinária revolução de todos os tempos até ao dia em que nos encontramos.
    Maria

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  6. calhou responder-lhe eu aqui.
    Cumpts.

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  7. Anónimo2/6/24 12:55

    Não fora a venda ao PS, calhando, agora, seria um belo Hotel.
    Quantos serão os palácios de Lisboa que nunca foram ocupados e ainda são residência dos donos ou herdeiros, excluindo o do Marquês de Fronteira?

    Cumpts.

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  8. Figueiredo2/6/24 15:45

    Aproveitando o dia/data no calendário a que faz referência, relembro que celebra-se os 50 anos do 1º Congresso dos Combatentes do Ultramar realizado entre os dias 1 a 3 de Junho de 1973.

    Sobre este Congresso realizado com o mote «Nós não seremos a geração da traição» podemos ler no canal União Nacional no «Telegram», o seguinte:

    «...Há 50 anos, a 1 Junho de 1973 os antigos combatentes das Forças Armadas portuguesas reúnem-se no 1º Congresso dos Combatentes do Ultramar em defesa do território ultramarino.

    O encontro foi feito no Porto, e na época Vasco Lourenço e Ramalho Eanes foram alguns dos nomes que participaram num abaixo assinado de protesto contra este encontro.

    Este encontro confirma que os antigos combatentes eram a favor da manutenção dos territórios ultramarinos pelo qual lutaram desde 1961 e foi feito sobre o mote "não seremos a geração da traição".

    Seguiu-se uma missa com centenas de pessoas nos jardins do Palácio de Cristal no Porto, com a presença dos congressistas e dos combatentes.

    O congresso está descrito no livro: NÓS NUNCA SEREMOS A GERAÇÃO DA TRAIÇÃO

    Coordenação e produção do P.P.I. Editora: Gratelo, Sociedade Gráfica do Restelo, Lisboa, 1974...»

    Fonte: https://t.me/UniaoNacionalPortugal/1537

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  9. Anónimo2/6/24 18:25

    Figueiredo, em 3 de Junho de 2023 fazia 50 anos e não se lembrou do assinalar esse aniversário aqui nos comentários.
    Nos dias de hoje, até parece que está mais à la mode a ideia.

    Cumpts.

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  10. Percival2/6/24 21:36

    E o que dizer sobre o arraial arco-íris guei da seita do alfabeto a competir com os Santos Populares?
    Valha-me São Eucarário...

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  11. É só um «travesti» do fenómeno festivo-profanador de que falei. No caso, chique a valer, porque gay é paneleiragem de alta roda.
    Cumpts.

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  12. Ganhou o levantamento de rancho. Uma guerra, mesmo se em lume brando são maiores trabalhos.
    Segui a remissão.
    Cumpts.

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  13. Não sei se há outro. Desse ponto de vista Lisboa não tem nobreza nenhuma. Bate certo…
    Cumpts.

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