| início |

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Meti-me a encadernador

«Metido a encadernador», Lisboa — ©️2024


 


 Meti-me a encadernador.


 Do Adriano Moreira tinha aqui dois iguais da 4.ª ed. do Novíssimo Príncipe. São ambos da senhora. Um, comprou-o ela, estudou-o, sublinhou-o e, diz-me por graça, não sabe se percebeu alguma coisa. Eu ando a lê-lo (leio e arrumo) e digo mais: não há nada para entender além da vagueza e meias tintas do A. Um certo encher nos capítulos finais, à margem do vago vaguear no tema, que mai-lo mostra; quando não, ficava um opúsculo. A pp. 70-80, tenho ideia, saíram-lhe umas afirmações mais peremptórias a destoar. Curiosas páginas …


 Deste, pois, do Adriano Moreira, são dois exemplares iguais (mais ou menos): um como digo, comprou-o a senhora; o outro, dum lote de sobras do editor que o catedrático Moreira autografou e generosamente ofereceu aos alunos, entre eles a senhora.


 O caso tem graça. A senhora guardou-o como objecto de culto, por autografado, sem muito o abrir, até porque o já lera, bem entendido. Sucedeu que ao arejá-lo — eu, ao exemplar autografado — vi que a páginas tantas o impressor falhou: havia páginas em branco ou meias impressas. Exactamente as páginas que referi atrás. O autógrafo, portanto, encarecia um livro com defeitos grosseiros de impressão. Falha do impressor ao dá-los ao A.? Descaso do A. ao oferecê-los, se acaso sabia?…


 Foi por isto que me meti a encadernador; como havíamos dois livros, desmanchei-os, troquei os cadernos mal impressos no volume autografado e cosi-os de novo. Correu bem. Ficou-nos assim um exemplar autografado e sem falhas tipográficas, e outro com umas folhas extra impressas com o texto que faltava. Ambos catitas, encadernadinhos com as respectivas de capas brochura.


 


IMG_1114.jpeg


 


 Com o feito ganhei entusiasmo; pus-me a ver dalgum outro livro que tivesse cá e estivesse a precisar de arranjo. Deparei-me com o catálogo da exposição colonial do Porto de 1934, muito desconjuntado.


 Foi-me oferecido. Quem mo ofereceu obteve-o com certo espólio menosprezado pelos os herdeiros do dono, que o não quiseram; o primeiro dono prezou-o; não se desfez dele em vida.


 A Hemeroteca diz que é raridade bibliográfica. Possui um exemplar digitalizado, disponível em linha.


 Pelo registo bibliográfico (cota DR5012203, consultado em, 28/III/24 às 18h30), tem-no emprestado pelo prazo de 30 dias, com data de devolução de… 20/VI/2024? — Estranho! — São mais de 80 dias até lá (contados à data da consulta). Chego a pensar se é mau trabalho atávico, incúria mais ou menos dolosa ou alguma conspiração segundo as teorias antifascistas em voga. (*)


 Acha-se o dito catálogo em alfarrabistas. Entre eles e leiloeiras aparece ao preço de 9 a 60 contos de réis. Sessenta contos parece-me exagero, mas no caso é exemplar encadernado. Uma meia inglesa com a pele todavia a descascar-se…


 Do meu catálogo, envelhecido, a desconjuntar-se, com o papel muito ressequido, ao desmanchá-lo as dobras dos cadernos esfarelavam-se. Para o salvar tive de reforçar muitas das folhas, especialmente as exteriores dos cadernos. Cosido, reforçadas as dobras dos cadernos, encadernado de novo, talvez se conserve ainda uns aninhos.


 


IMG_1115.jpeg


 


 Entreguei-os agora à douradora para gravação da lombada.


 




(*) À data da publicação deste texto já o catálogo se acha devolvido à hemeroteca. 

Sem comentários:

Enviar um comentário