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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

De berberes, de bárbaros…

A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade da Língua Portuguesa, 1949-1955.,



A PROPÓSITO DE GIBRALTAR


« Bastas vezes temos ouvido pronunciar, em programas noticiosos da Emissora Nacional, o topónimo Gibraltar, com acentuação grave. Ora, segundo informa Vasco Botelho do Amaral, no seu «Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa», a única forma correcta é Gibraltar, tònicamente acentuada na última sílaba.
   Refere o erudito professor o seguinte: «Gibraltar, termo geográfico. A forma primitiva em português foi Gibaltar ou Jubaltar. Gibraltar formou-se de Gebal Tárique, isto é, Monte de Tárique. Gibraltar, com acentuação tónica paroxítona, é pronúncia à feição inglesa. Os ingleses proferem aproximadamente: — djibrólta».
   Efectivamente, admitindo como exdrúxulo o nome do general muçulmano Tárique, outra pronúncia não se poderia atrubuir ao citado topónimo.
   No século I a.C., o geógrafo Estrabão, ao elaborar a sua «Geografia», designou o Penhasco de Gibraltar por Calpe (nome por que já era conhecidodo navegadores gregos dessa época), em oposição ao Abílix (hoje aapelidado Gebal Mussa), situado no Norte de África.
   Também o ibérico Pompónio Mela, que viveu no século I da nossa era, escreveu deste modo na sua «Corografia»: «mais adiante há uma alta montanha, que avança de frente para outra oposta da Espanha; àquela chamam Abila, a esta Calpe, e a uma e outra Columnae Herculis. Com respeito ao seu nome, diz a fábula que este mesmo Hércules foi quem separou ambos os cumes, antes unidos por uma cadeia montanhosa e contínua, e que por isso o Oceano, até então contido por esta mole montanhosa, inundou os espaços que hoje ocupa».
   Num passo da «História Natural, de Plínio, historiador latino, que floresceu o século I da era cristã, topamos igualmente com referências ao Penhasco de Gibraltar: «Os montes que por ambos os lados, se encontram junto destas bocas, fecham o âmbito. Abila pela parte da África, Calpe na parte da Europa, meta dos trabalhos de Hércules; por isso os indígenas lhes chamam as colunas deste deus[»].
  O Estreito de Gibraltar era apelidado pelos gregos Stélai Herákleiai e pelos latinos Columnae Herculis, como quem diz em português: Colunas de Hércules. A denominação Gibraltar só lhe adveio após a travessia do estreito do mesmo nome feita pela [sic] general muçumalno [sic] Tárique, no século VIII da nossa era.
   Como curiosidade linguística, registamos aqui o seguinte: em russo moderno também se profere o aludido topónimo com acentuação aguda: — guibraltar.
   Digamos, portanto, Gibraltar, e não Gibráltar, como pronunciam os mal informados locutores radiofónicos.»


Francisco Alves da Costa, «A propósito de Gibraltar», in A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade da Língua Portuguesa, Ano VI, n.º 4, Abril de 1955, p. 184.


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