| início |

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Crónica da cidade

 Viro da Estefânia, entro a descer a pé a Pascoal de Melo esta manhãzinha e duas, três portas, vejo um maltrapilho estendido num vão de escada. Pés metidos numa caixa de papelão, tapado dos joelhos à cabeça por uma pobre manta. Não sei se dormia, se era vivo ou morto, se homem, se mulher…


 Nada de novo agora, esta miséria. Vê-se por todo lado. Onde haja meio metro de vão de escada que sirva de abrigo… Se novidade havia ali neste caso, só o frio de rachar, hoje pior que ontem, pareceu-me. Coisa das alterações climá®ticas, hão-de afiançar os dos telejornais em suas homilias, no seu sacerdócio de espavorir os crentes com o inferno do novo culto…


 Havia aqui de tirar o retrato a isto — pensei. — Era de mandar ao Moe®das da Câmara que, diz, fez aí um filmezeco agora pelo Natal com belo fogo de artifício à sua arte de reger a cidade. Não vi o filmezinho, mas li e acredito que é prova de certa capacidade em mostrar serviço…


 Melhor ainda, calhando, era mandá-lo à real quinta de Belém, ao cuidado do okupa que se lá acoita; tem constado que é pessoa às vezes de empenhos esmerados a ajudar quem precisa.


 Pensando melhor, não. Sigo meu caminho, pois — que fazer?!… — Para misérias já basta.


 Mais abaixo entro no A.C. Santos (*) da Pascoal de Melo onde é costume parar para tomar café duma maquineta dessas em que se bota moeda; o café não é mau e fica por cem mil réis, um preço muito em conta, mas disperso-me.


 Pois bem, entro ali e está um homem deitado de borco no chão, ao comprido do balcão da montra; pés para a porta, cabeça para a máquina do café. Este, ao contrário do outro, dorme destapado. Se dorme! Pode bem estar morto. Vejo isto e não sei que dizer. Olho para o moço da caixa que é vivaço e recebo dele um gesto de chiu! com o dedo indicador espetado de ante o nariz. Na bicha da caixa, meia dúzia de pessoas, tudo calado, embasbacado, como eu. O moço da caixa repete-me o gesto e murmura chiu! Ninguém diz nada. Eu também não. Nem me nada ocorre neste entremez para dizer. Como não quero acordar o desgraçado que jaz ali no chão nem tirar a bica da máquina com as pernas abertas sobre a cabeça dele faço meia volta, saio. Tomei a bica no Monte Castelo, a par da Portugália, onde encontrei um polícia e duas mulheres-polícia tomando café com o carro da ronda mal parado à porta. Talvez a seguir houvessem de parar no A.C. Santos a ver do morto que talvez só (ou ainda) dormisse. Isto se alguém deu parte da ocorrência às autoridades, o que não acredito.


 À hora do almoço, de volta, antes de chegar à Estefânia o desgraçado ao cimo da Pascoal de Melo ainda lá estava, tal qual, no mesmo vão de escada. Agora com uma manta de veludo preto que lhe alguém pôs por cima por caridade. Calhando, era mortalha…


 No outro lado da rua, ao lado da ourivesaria, vi mais um de igual maneira, noutro vão dum prédio. Do do A.C. Santos não sei mais. Não tornei lá.


 Bem entendo que a miséria não é de agora, mas se puxo da memória não me lembro de a ver tão miserável e aviltante. De mais, com tanta conquista desde…


 Há uma história que ouvi certa vez minha mãe contar a alguém: um fotógrafo ia por um bairro pobre e quis fotografar uma criança descalça, esfarrapada. Pediu autorização à mãe e ela disse sim, senhor! mas que esperasse um instante. Levou a criança, lavou-a, vestiu-a o melhor que pôde e trouxe-a. O fotógrafo diz que gratificou a pobre mulher e agradeceu, mas que ficara com a fotografia estragada.


  Era a miséria de que me lembro dantes. Desgraçada, mas que tentava compor-se numa humilde dignidade. Esta de hoje não, nem lhe isso resta…


 Puxo da memória e lembro-me das barracas e de tantos que salivam antifascismo pavlovianamente quando topam qualquer imagem dessa miséria de antes: putos descalços, mal vestidos, com ranho sêco na beiça, lembro-me; o Mané Mané de fato andrajoso e coçado (pobre fato, mas, fato) e sua barraquinha de lusalite com porta e sem janela; o cego do Metro, de acordeão, caixa de esmolas a tiracolo, guiado por um cahopito ou um cão por uma corda, não me recorda bem; o aleijadinho no chão à entrada da praça com o aleijão à mostra e umas moedas no chapéu ao lado. Era miséria que feria, mas era miséria de infortúnio que admitia dignidade.


 Esta miséria que vejo hoje, não. É sobretudo indigente. Alastra há décadas, vulgar, sem remédio de quem pode nem cura de quem manda. Apresenta-se tão indigna que me parece só admite asco ou indiferença: asco por tanto bem-falante (e Deus me livre de com este desabafo ser aqui eu um deles) defensor dos pobrezinhos nas pantalhas da propaganda, mas ao depois sem consequência, e cujo resultado está à vista em cada rua, cada jardim, cada vão de escada; indiferença porque o transeunte, vendo a tanta miséria assim, mais e mais, e sem remédio, não acha o que fazer senão passar e seguir seu caminho mais ou menos indiferente; se tanto, deita-lhe uma caridosa manta por cima, a mais não fazer em todo o caso que de mortalha.


Bairro de lata, Lisboa, [s.d.]. In «Programa Especial de Realojamento - 30 anos» (propaganda política), C.M.L., Maio de 2023
Bairro de lata, Lisboa, [s.d.].
A. n/ id., in «Programa Especial de Realojamento — 30 anos» [propaganda política], C.M.L., 2023.


 


 




(*) O A.C. Santos da Pascoal de Melo era dantes, no n.º 81; o super que há agora é duma marca moderna e fica noutro número. Evito, pois, publicidade gratuita e recordo uma coisa de que já se ninguém lembra.

9 comentários:

  1. E ainda enchem a boca de glórias e hossanas por escancararem as fronteiras e deixarem entrar mais pobres indigentes para encherem as ruas, passeios, vãos de prédios e escadas!

    ResponderEliminar
  2. Sim. Nisso são capazes.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  3. Figueiredo13/1/24 12:43

    Os liberais/maçonaria (PS, CDS, PCP, BE, CH, L, IL, PAN, ADN, e a facção liberal/maçónica do PSD representada pelo dr. Pedro Coelho e o seu bando) estão desde 2012 a deslocar grandes quantidades de Estrangeiros para Portugal com o objectivo de substituírem os Votos em falta da Abstenção que representa a Maioria Silenciosa dos Portugueses.

    Em troca da nacionalidade Portuguesa os Estrangeiros terão de votar, para assim manter a fraude eleitoral e o ilegítimo, criminoso, corrupto, e anti-democrático regime liberal/maçónico imposto pelo golpe de estado da OTAN em 25 de Abril de 1974.

    Na República Federal da Alemanha (RFA) já nem escondem os seus propósitos:

    «Abra as fronteiras!» – Para derrotar o partido AfD, a Alemanha deve trazer mais emigrantes e dar-lhes direitos de voto imediatos, afirma fundador de ONG e de barco de resgate de emigrantes

    https://rmx.news/article/open-the-borders-to-defeat-the-afd-party-germany-must-bring-in-more-migrants-and-give-them-immediate-voting-rights-claims-founder-of-migrant-rescue-boat-ngo/

    ResponderEliminar
  4. Figueiredo13/1/24 12:56

    O cenário que aqui descreve sobre o Estrangeiro é idêntico ao da Cidade do Porto que desde 2014 até à presente data viu aumentar o desemprego, pobreza, miséria, gente a viver nas ruas, tráfico/consumo de droga, criminalidade, e insegurança, fruto das más políticas intencionais praticadas pelo Executivo liberal/maçónico do «Porto, o Nosso Partido/Porto, o Nosso Movimento/Aqui Há Porto».

    E não fica por aqui, não sei se no Estrangeiro é igual - você saberá melhor do que eu - mas na Cidade do Porto nestes últimos 11 anos a economia, o comércio, serviços, e restauração, foram completamente destruídos, não há nada, o Porto está estagnado, abandonado, desertificado, uma cidade inteira e os seus naturais - os Portuenses - sequestrados pelo o tráfico/consumo de droga e outras organizações criminosas, que são representados politicamente pelo Executivo liberal/maçónico do «Porto, o Nosso Partido/Porto, o Nosso Movimento/Aqui Há Porto», que nunca é demais referir, perdeu todas as Eleições Autárquicas às quais se candidatou para Abstenção que representa a Maioria dos Portuenses.

    ResponderEliminar
  5. Excelente crónica.
    De facto, é só miséria por tudo o que é esquina. Soluções, nem vê-las, já ninguém disfarça e, pior ainda, já ninguém quer saber.
    Outrora reino de Portugal, hoje principado da chamuça. Portugal não tem remédio.
    Eu ainda me lembro do A.C.Santos :)
    Cumprimentos e bom fim-de-semana.

    ResponderEliminar
  6. É sina geral pois, quanto cuido saber, no estrangeiro lá de fora é ainda pior.
    Não vejo que se resolva.
    A cristandade por inteiro é para acabar e está a dar as últimas.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  7. Resume bem e lembra V. muito a propósito da moirama, porquanto desses, não nos vejo dormir na rua. Entre si sempre se concertam e arranjam. No que aos nossos diga respeito é que não há conserto. Mais parece suicídio.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  8. Estou em mudanças para uma casa da CML relativamente próxima da Gare do Oriente e com a agitação da mudança e contratos e nem sei que mais tenho passado mais na Gare do Oriente em uma semana do que passeio no ano 2023 e choca-me ver tanto desgraçado sem ter onde ficar, e na Baixa tanto hotel onde antes moravam pessoas.
    Outra causa para esta miséria, são os desgraçados que moram na Índia e para fugir a miséria do seu país e vão trabalhar como estafetas de tudo e mais alguma coisa (já se perdeu o hábito da deslocação a loja ou ao restaurante com pede-se quase tudo com o telemóvel) e estes mesmos estafetas acabam por dormir nas ruas ou em camaratas que lembram os campos de concentração da II Guerra Mundial

    ResponderEliminar
  9. Há uns dez anos vi essa desgraceira na gare do Oriente. Admirou-me. Não tornei por lá a passar. Imagino esteja dez vezes pior.
    Essoutros da Índia e arredores é um grande esquema que há para aí.

    Boa sorte na nova morada!
    Cumpts.

    ResponderEliminar