Prosa deliciosa, cheia de graça e poesia. Muito bem escrevia Alberto Pimentel. O volumesinho percorre habitos e costumes dos portuguezes, tão perdidos hoje como perdidos estão os portuguezes n’ este Portugalinho finado. Sem os costumes que eram seus, e que os faziam ser o que eram, os portuguezes deixaram de ser.
Tudo isto anda já esquecido e quasi ninguem dá por ele. Sobra o livrinho, a bem poucos recordar.
SANTOS E DEFUNTOS
« Referindo-se à festa de Todos os Santos, dizia o correspondente lisbonense do Commercio do Porto:
Em Lisboa a festividade do dia limita-se ás cerimonias religiosas que se praticam nas egrejas, aos passeios, ao jantar um pouco mais lauto do que o costume e em que as familias se reunem em alegre convivio, e, para coroar a festa, aos espectaculos theatraes que n'estes dias téem, em regra, casas cheias, auferindo as respectivas emprezas uma boa receita.
Isto é exacto, e dá a medida da indifferença com que Lisboa e quasi todas as capitaes olham para as festas tradicionaes da provincia, cheias de pittoresco e, porventura, de ingenuidade patriarchal.
Porque, a bem dizer, e segundo a veridica observação do correspondente, Lisboa passa o dia de Todos os Santos como qualquer outro dia santificado, a saber:
Vai á missa;
Dá o seu passeio;
Conversa á mesa com a familia;
Vai, finalmente, ao melhor theatro, se tem dinheiro para isso.
E disse.
Se na mesma semana ou na seguinte houvesse outro dia santificado, Lisboa procederia certamente de identico modo:
Missa;
Passeio;
Jantar;
Theatro.
Assim, póde affirmar-se, como fez o correspondente, que a capital olha para o dia de Todos os Santos com a mesma indifferença que para qualquer outro dia santo de guarda.
Mas aposto que já assim não aconteceria se, no calendario politico, houvesse em cada anno um dia consagrado a Todos os Ministros, os que foram, e podem tornar a ser, e os que são, e estão com a mão no cofre das graças. »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 113-114.

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