Tornei aos livros. Tornei a comprar livros, digo. Livros velhos, isto é, que novos me não despertam. Nem ando a par, mas, bem certo estou de que não ha nada ahi a publicar-se agora que me remotamente possa interessar. Ao depois ha aquella, hum, cousa, do brazileiro official que me só traria trabalhinho extra, e desprezivel, de haver de sondar qualquer edição primeiro a vêr se a orthographia não seria essa idiotice de atrasados mentaes que pulou do Brazil ha annos para o diario da republica. É como hoje este paiz vae…
Livros velhos, portanto. Do tempo da monarchia e daorthographia portugueza segundo os melhores auctores.
Comprei, por comseguinte, hontem, tres livrinhos de Alberto Pimentel, polygrapho d' esses outros tempos. Passei na feira de alfarrabios que montam ás quartas no jardim Constantino e interessaram-me a Vida de Lisboa e o Espelho de Portuguezes (2 vols.) da Collecção Antonio Maria Pereira, de 1900 e 1901, respectivamente ou vice versa, baralha-me agora. (Exactamente: 1900 e 1901.) Trez volumesinhos com encadernação do editor em percaline, bem gravada e muito ao gôsto da epocha da Belle Epoque. Vendiam-se a 300 rs. o volume n' aquelle tempo; comprei-os hontem a um conto de réis cada. Curiosa relação de valor, de 300 para 1 milhão; 3 333 vezes mais, de novo a velho de cento e vinte e tal annos! Que diria d' elle o auctor? Ou que direi eu? Nem bem sei se paguei caro, se não. Eram edições baratas em 1900, mas ainda assim esmeradas. E os livrinhos estão limpos e em bom estado, nem rebentados, nem com signaes de traça. Sómente uma folha ou outra mais cansada na costura e a patine do tempo, que a bem dizer não é mal.
Pois, teem estes tres volumesinhos, como tantos outros livros usados, assignatura de posse: Alberto Coriolano Ferreira da Costa. Ao que sei, Capitão de Mar e Guerra, Governador de Mossamedes (1908-10), Comandante do Batalhão de Marinha Expedicionario a Angola (1914) e domno outr' hora d' alguma bibliotheca que o tempo — bem, que haveria de elle fazer? — desfez.
Fabuloso, boas leituras.
ResponderEliminarEu também tenho sofrimento parecido.
ResponderEliminarNa posse de uns 7.000 livros, uns 40% são de cultura — Arte, Filosofia, Política, Contos, Romances e Ensaios (estes até já não se usam).
Aprecio a sua esperança, a sua força.
Abraço
Muito boas leituras, pode crêr.
ResponderEliminarObrigado!
Tenho 1/7 disso e há annos resolvi conter-me… Com as voltas que a vida leva pode tornar-se um lastro, inglório, dei em scismar. Transigi agora e podia tê-lo evitado, mas bem…
ResponderEliminarhttps://archive.org/details/vidadelisboa00pime/page/n7/mode/2up
https://archive.org/details/espelhodeportugu01pimeuoft/page/n193/mode/2up
Ficaria sem o II vol. do «Espelho de Portuguezes» e seria como assistir à eucaristia dominical na televisão em vez de ir à egreja…
Cumpts.