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domingo, 22 de janeiro de 2023

Dum tempo castiço

 O filho do gê-nê-i-erre aposentado que era o guarda da escola tinha a alcunha do Tomate. Era um moço de faces sempre afogueadas, sardento, cabelo encaracolado e, pencudo. Tem graça, porque as alcunhas frisam sempre a característica mais saliente da gente e a penca do Tomate era literalmente o caso. Bem assim como o Fernando orelhas ou o Tòqui cabeçudo. De maneira que me parecia meio extravagante a alcunha do Tomate lhe não vir da penca descomunal, mas sim da côr de tomate que lhe ruborescia as faces. Porém, realmente, dava-se êle bem o caso de têr o Tomate as faces sempre, sempre daquêle rubor formidável. Quando via lá vir o Tomate, punha-se o Ruizinho da Júlia a cantarolar entre dentes — «Tu-tomate! Tu-tomate!» Nada muito ostensivo porque o Tomate afinava com a alcunha e era mais crescido do que o Ruizinho.


 É verdade, pois, que vẽem as alcunhas de características salientes da gente. Verdade também é que há, de sua natureza, gente muitíssimo despachada em descobrir, ou arranjar alcunhas aos outros. Era o caso da Armanda sapateira, que sem pejo nem cerimónia rebuscou ao sobrinho mai' nôvo a alcunha de nabo só porque era êle gordo como — decidiu ela metafòricamente — um nabo. Nem de sêr o sobrinhito de sua graça Armando, como a sua, dela, Armanda, lhe valeu ao mocito deixar lá de sêr nabo. Só gordo haveria de parecer à Armanda sapateira pouco rebuscado, por tanto, deu em Nabo. Já cá falei dêle a propósito do homem das pastilhas… Curioso é que a Armanda, que era uma regateira de primeira apanha, nem o marido, o simpático bexigoso Semestre, ninguém lhe pôs alcunhas mesquinhas: eram sòmente a Armanda sapateira e o Sr. Fernando, o Semestre (*), nada mais.
 O sobrinho mai' velho dêles, o Rui (o Rui da Esperança, não o Ruizinho da Júlia de que falei acima) êsse herdou-lhe, à Armanda sapateira, a faceta de pregar alcunhas a tôrto e a direito aos outros. Certa vez, implicou com o Paulo Melo e chamou-lhe cabeça de bigorna. O Paulo Melo não gostou e respondeu-lhe — «E tu, ó caganeira verde?!» — Ficaram os dois logo ali crismados no meio da galhofa geral da malta, mas nenhuma das duas alcunhas pegou muito como vocativo daí além. Ficou só a história de como se passou, cujas alcunhas vinham à baila de vez em quando em momentos mais acesos. Da mesma maneira, uma vez entre o Beto e o Jorge lá do fundo da rua, que tinha uma trotineta; não me recorda já como se passou, ficou-me só o remate da avó do Jorge que chamou olhos de vaca ao Beto, alcunha que lhe às vezes também tornava naquêles momentos de pirraça.


 Com mais graça, sem menos prezar, se referia a D.ª Joana, alentejana de cêpa, aos filhos do Saraiva da taberna como os cabacinhos. Sempre achei esta alcunha inspirada e de boa alma popular, mas não deduzi senão ao depois que não haveriam os pais dos cabacinhos de, pela lógica destas coisas,  deixar de sêr, pois, cabaços, coisa que lhe nunca ouvi à D.ª Joana nem a mais ninguém dizer porque assim não seria, de feito… Os cabacinhos dizia-o ela e o Zèzinho, o filho, só familiarmente, sem alarde pela vizinhança como a Armanda sapateira com as alcunhas que arranjava aos outros.
 Numa discussão de vizinhas rua fora por causa dos filhos, certa vez, porém, a D.ª Cândida chamou «sua taberneira!» com tôdas as letras à Hortense que lhe devolveu ràpidamente um — «E você, sua coruja?!» — A Coruja bem que pegou à D.ª Cândida de modo que até o filho, o até ali Paulo da D.ª Cândida passou a ser o Paulo Coruja, em quanto que «taberneira» nada acrescentou à Hortense nem aos cabacinhos porque, na verdade, era simples adjectivo, elementar e de pouco caso para os vizinhos.


 Isto das alcunhas é como era dantes. Se fôr falar do bairro tôdo o rol nunca mais acaba. De modo que, era um bairro castiço… Mas não era êste.


«B.º  Municipal Presidente Carmona», Alto do Pina, 1935.  Eduardo Portugal, in «Anuário da Câmara Municipal de Lisboa, Ano I, 1935», vol. I, Lisboa, S. Industriais da C.M.L., 1936.
B.º Municipal Presidente Carmona, Alto do Pina, 1935.
Eduardo Portugal, in Anuário da Câmara Municipal de Lisboa, I, 1935, vol. I, Lisboa, S. Industriais da C.M.L., 1936.




(*) De se[nhor] mestre; tal como setor <= se[nhor dou]tor.

2 comentários:

  1. Julgo ter sido construído no final dos anos 20, para os funcionários da C.M.Lisboa.
    Há tempos passei por lá e estava muito bem conservado, e havia uma Caixa Multibanco (?) no muro à entrada que se vê no lado direito da fotografia, mas todo tapado agora.

    Cumpts.

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  2. Foi sim. Na antiga quinta dos Pacatos, segundo se acha na rede. Não sei se não seria antes a do Bacalhau…
    A toponímia lá teve de ser ajeitada no Verão quente com o nome dum pirata. Está muito bem assim e não podia ser doutra maneira.
    Cumpts.

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