| início |

sábado, 20 de março de 2021

Á laia d' editorial


ORTHOGRAPHIA


« Adoptâmos a orthographia etymologica para os termos de origem erudita e historica, e para as palavras populares a forma popular. Todavia a tendencia moderna é ir substituindo o elemento popular pelo etymologico. Hoje, geralmente, escreve-se egreja em vez de igreja; egual em vez de igual; similhante em vez de semelhante; logar em vez de lugar, não obstante este uso contrariar as leis da nossa morphologia.
 O systema que se funda na imitação do som, denominado orthografia phonetica, não tem outro principio regulador senão o capricho individual, e as suas regras pertencem ao dominio da imaginação. Hoje os grandes philologos não se occupam d'ella. Os phonetistas, em face da actual sciencia linguistica, representam o papel dos alchimistas da edade media em busca da transformação dos metaes.
 O fim secundario da orthographia é pintar os sons, o primario é dar-nos a conhecer a palavra, dizer-nos a sua origem e a sua historia.
 A orthographia phonetica trata de pintar, e mal, os sons que necessariamente se modificam de dia para dia, e concorre para a instabilidade das linguas; a orthographia etymologica tende ao contrario a fixal-as e determinal-as.
 Na littertaura e na sciencia não se póde prescindir do estudo da origem das palavras e da sua historia. Succede com as palavras o mesmo que com os homens.
 Ignorando-se a filiação de uma pessoa e sua vida, ha uma certa hesitação em tratar com ella. N'esta mesma difficuldade ou embaraço se acha muitas vezes o escriptor em relação ao emprego das palavras. Não tendo segurança na sua procedencia e formação, fica perplexo sobre a legitimidade, propriedade ou conveniencia do seu emprego. O elemento etymologico é o certificado que nos justifica a filiação do vocabulo, o que dá grande satisfação e confiança ao escriptor que se preza de correcto.
 O que ignora que a origem commum dos vocabulos aurora e doirado é o termo latino aurum, não hesitará em empregar a phrase vulgar doirada aurora; que equivale etymologicamente á expressão ouro dourado. Os que não conhecem os elementos etymologicos do termo vangloriar-se, empregam como é vulgar este verbo como synonymo de gloriar-se; quando o verbo vangloriar-se só se póde applicar para exprimir uma jactancia ingloria e vã. A palavra manquejar é a fórma frequentativa do verbo mancar, formado do radical mão. Os que ignoram esta procedencia applicam-no aos homens aleijados dos pés, que claudicam, que coxeam. O termo autonomia é de procedencia directa latina e indirecta grega; exprime o direito que os romanos davam a certas cidades do imperio de se governarem pelas suas proprias leis, e elegerem os seus magistrados. Os que não conhecem esta procedencia empregam-no na accepção de independencia.
 O termo candidato, de origem latina, significava entre os romanos o cidadão que aspirava a algum cargo ou dignidade, e como taes se apresentavam vestidos de uma toga branca, candida.
 Por allusão dava-se este nome aos que aspiravam ao suffragio do povo.
 E, todavia, não ha muito, vimos que a imprensa chamava a el-rei D. Fernando candidato ao throno de Hespanha, quando elle não só não se propunha áquella suprema dignidade civil, mas pelo contrario se recusava formalmente a acceital-a.
 Vulgar é encontrar o verbo obcecar escripto com s (obsecar); os que sabem que o radical secare significa cortar, sorriem da troca.
 O elemento etymologico serve ainda em grande numero de vocabulos de distinguir dois termos que na linguagem falada estão envolvidos nas trevas do homonymo; taes como: assento e accento, cella e sella; anhelar e anellar, annular e annullar, valle e vale, buxo e bucho, sega e cega, sem e cem, chama e chamma, gema e gemma, era e hera, laço e lasso, sumo e summo, tensão e tenção, etc.
 Um partidario da orthographia phonetica escrevia ha pouco — El-rei matou dois servos. Elle queria dizer dois cervos (veados).


 Outra ordem de idéas, postoque de menos valia, recommenda a orthographia etymologica.
 A orthographia etymologica é a parte esthetica da palavra.
 Assim as palavras historicas monumentaes, que nos trazem á imaginação a veneração por um heroe ou as recordações gloriosas de um grande povo, melhor falarão ao nosso enthusiasmo, quando a sua fórma concorrer para excitar a nossa sensibilidade.
 A orthographia phonica apresenta o esqueleto da palavra, a orthographia erudita mostra-nos o verbum tal qual elle viveu no vigor e brilho da sua existencia.
 A orthographia sabia fala á intelligencia e ao coração, a phonica apenas se dirige ao sentido de audição.
 Quando lemos a palavra homem, a lettra morta h traz-nos á phantasia a grande civilisação romana filia o homem actual n'essa gloriosa pleiade de heroes latinos, cujas acções maravilhosas ainda hoje assombram o mundo.
 Para bem se apreciar quanta influencia exerce no nosso espirito a apparencia das cousas adduzâmos um exemplo: Dispam-se ao grande apostolo das Indias os seus habitos talares e substituam-se pelos requintes da moda do ultimo figurino parisiense; e a figura evangelica de S. Francisco Xavier deixará de nos enthusiasmar a imaginação, confundindo o heroe da fé christã com os peralvilhos da moderna sociedade.»


J. F. Caldas Aulete, Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza, v. I (A-H), Lisboa, Imprensa Nacional, 1881, pp. XIX-XX. (Transcripção por gentileza do benevolo leitor Henrique.)


Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza [Aulete], Lisboa, Imprensa Nacional, 1881


6 comentários:

  1. Ajeita-se a manejar os pedais. No caso da bicicleta pedalar como deve ser estava resolvido, mas com os pedais dos automóveis não será bem pedalar.

    Cumpts.

    ResponderEliminar
  2. Sendo pedaes, não calha haver manejo. E se no caso não são de pedalar, ficamos só com dar ao pedal.

    ResponderEliminar
  3. Deve lá vir explicado que ontem deriva do laitm - ad noctem, pelo que estava já errado no passado escrever-se hontem.

    ResponderEliminar
  4. À lai de.

    À com acento grave porque é contracção da preposição a com a partícula adjectiva a - a a laia de-> à laia de

    ResponderEliminar