Quem tenha visto «Uma história de Natal» do prof. Hermano Saraiva há-se de lembrar que ele começa contando que as histórias de Natal são sempre iguais: muita neve, muita neve; ventos a uivarem pelas quebradas das das montanhas; lobos ao longe; meninos com muito frio e fome, coitadinhos, sem um brinquedo sem um chocolate; o pai e a mãe muito tristes… Ao depois vem o Menino Jesus e dá-se o milagre: presentes e felicidade para todos.
É bonito, mas, também conta o prof. Saraiva no episódio que às vezes não há milagres.
Nesta história d' «Uma Consoada no Sahara» não há neve; frio, talvez; milagres, não sei; mas vejamos e no fim, ajuíze o benévolo leitor.
Villa Cisneros, 1947
Cte. Silva Soares, in Histórias com Asas, A.P.P.L.A., Lisboa, 1992.
UMA CONSOADA NO SAHARA
Durante a minha carreira de piloto de transportes públicos, muitas foram as Consoadas que passei longe da família. Paris, Madrid, Elisabethville (capital do efémero Estado do Katanga), Cairo, Accra, e Villa Cisneros (a actual Dakhla, tão desejada para capital pela Polisario), foram alguns dos locais em que fui apanhado pelo Natal ou Ano Novo.
O Rio de Janeiro, S. Paulo, Luanda, Beira, e Lourenço Marques, também me serviram de palco a Consoadas. O Fim do Ano de 1966 foi passado em agitado voo entre Cabinda e Luanda, durante a evacuação de um operário da Cabinda Gulf Oil, vítima de grave acidente duma sonda de prospecção de petróleo.
Não esqueço uma noite de Natal, em 1948, em Elisabethville. Um dos passageiros brindou a tripulação do avião com um maravilhoso concerto de piano em que as polacas de Chopin [**] foram o prato forte. Num piano, diga-se, de onde à mistura com as cristalinas notas, saltavam gigantescas baratas! Chamava- se o passageiro… Sequeira Costa.
Porém, uma Consoada houve que ainda hoje recordo, se não com saudade, pelo menos pela série incrível de azares que me levou a passar a noite de Natal no deserto do Sahara! Foi o Natal de 1952 em Villa Cisneros.
No dia 22 de Dezembro, chegado a Lisboa vindo de Londres, fui avisado de que estava escalado para seguir de imediato para Villa Cisneros, pilotando um DC-3 para substituir o avião da linha d' África, que na descolagem para Dakar sofrera uma grave avaria num dos motores e abortara a descolagem. Lavaríamos material e pessoal para a reparação desse avião. Terminada a reparação, regressaríamos a Lisboa. Esperava-se que estivéssemos de regresso, o mais tardar, na manhã do dia 24.
Se tudo correr bem, pensei.
Depois de um voo directo de Lisboa a Villa Cisneros, quase oito horas de monótono voo, aterrámos às duas da manhã no meio de uma nordestada agreste e fria que, levantando a areia, tornava a visibilidade muito reduzida. Rapidamente se procedeu ao transbordo do correio, carga e bagagem. Uma vez reabastecido, e embarcados os passageiros, a carreira d' África descolou para Dakar.
Mas, aproveitando a azáfama e confusão do transbordo, roubámos à tripulação, que iria, na melhor das hipóteses, fazer a Consoada em Accra, um bolo-rei de tamanho descomunal. Ainda não tinham atingido a altitude de cruzeiro quando deram por falta do bolo-rei, enviando para Villa Cisneros um telegrama em que nos desejavam uma difícil, dolorosa e doentia digestão do bolo-rei!
No meio da risota que tal telegrama causou aos ladrões, esquecemo-nos de que o «crime não compensa», e de que «Deus escreve direito por linhas tortas».
Villa Cisneros tinha, na altura, meia dúzia de casas em volta de um forte militar (cópia fiel do forte do filme «Beau Geste»), e umas dezenas de tendas. Era a capital do Sahara Espanhol, e a magnífica baía, virada a Sul, um dos abrigos utilizados pela numerosa frota de pesca que actuava na área do Cabo Branco.
Uma das casas era o «parador», a pousada, maravilhosamente decorada no estilo andaluz, com simplicidade e requintado bom gosto. O «parador» normalmente estava ocupado pelas famílias dos oficais do exército que, ali estacionados, não dispunham de residência. Mal se soube que «los portuguesitos» iam ficar uns dias em Villa Cisneros, foi um alvoroço na terrinha. Dadas as boas amizades que ao longo de anos tínhamos feito com aquela gente, não houve dificuldades no «acomodar» dos inesperados visitantes no superlotado «parador», nem faltaram programas para festas em nossa honra. Para nós, a não ser um sempre presente receio de que as coisas «dessem» para o torto e acabássemos por passar o Natal longe da nossa família, esta passagem por Villa Cisneros prometia um agradável passatempo turístico saharitano, um aperitivo para os festejos de Natal e Ano Novo.
Às tantas da noite, depois de uma ceia de «gambas a la plancha» regadas com um magnífico tintol, resolvemos ir até ao «aeroporto» (um quadrado talhado no deserto com quase dois quilómetros de lado!), para ver como estava correndo a reparação do motor avariado.
Fazia um frio horrível, e soprava um Nordeste seco e carregado de areia que cortava a pele, já gretada pela secura do ar.
O trabalho dos mecânicos, na falta de um hangar, decorria ao ar livre. Para impedir a entrada de areias para o interior do motor, trabalhavam cobertos por oleados e lonas, que dificultavam os seus movimentos e a iluminação da área de trabalho.
Mas, mesmo em condições tão adversas, a reparação estava decorrendo com rapidez e perfeição, e a substituição de um dos cilindros estava quase terminada. Dispúnhamos de todo o dia seguinte para terminar o trabalho, e fazer acamar os segmentos por rodagem do motor. Pareceu-me desnecessário submeter o pessoal a tão duras condições de trabalho, uma vez que bastaria parte da manhã seguinte para preparar o motor para a rodagem. Resolvi que se suspendesse o trabalho, e aproveitassem a noite para o merecido repouso.
Todos ajudámos a calafetar e a cobrir o motor. E, como alguns dos segmentos já estavam apontados, para além de recomendar às sentinelas que não rodassem o hélice [***], pendurámos no cubo do hélice um enorme cartaz pedindo, em espanhol, que não mexessem no motor nem na hélice. Junto do avião ficaria uma sentinela, pelo que não corríamos o risco de que um tuareg mais bisbilhoteiro se metesse a mecânico amador.
Na manhã seguinte, seriam umas oito horas, sou acordado pelo chefe de mecânicos, apoplético e berrando-me que «uma besta qualquer rodou o hélice e lixou-nos o motor!»
Fiquei para morrer…
Um DC-3 Dakota dos T.A.P., Villa Cisneros, 1947
A. n/id., in Histórias com Asas, A.P.P.L.A., Lisboa, 1992.Durante a noite, uma das sentinelas achou que ficava muito feio não estarem as hélices de ambos os motores em posição simétrica. E para nosso azar, logo resolveu «acertar» o hélice do motor em reparação. É evidente que mal rodou o hélice, dois segmentos partiram-se e pelo menos um dos seus fragmentos caiu para o interior do cárter.
Tínhamos segmentos sobressalentes, mas o motor não podia ser dado como operacional sem que estivéssemos certos de que não ficaram quaisquer fragmentos dos segmentos partidos no interior do motor.
Acompanhei o mecânico até ao nosso querido avião, o único meio de que dispúnhamos para sair daquele «buraco» e passarmos o Natal com a família. Toda a manhã, à medida que eram pescados os pedaços de segmento, estivemos absorvidos na desesperante tentativa de reconstituir, completa e minuciosamente, os dois segmentos partidos.
Ao meio-dia, já um dos segmentos estava completamente reconstituído. Faltava, porém, um bom pedaço do outro segmento.
E a «pesca» não estava dando mais nada!
Sob um Sol escaldante, e a irritante areia que o vento seco levantava, já os nervos estavam «em franja», e até entre os mecânicos se instalava o desânimo e se verificavam os primeiros atritos.
Decidi que fosse suspenso o trabalho. Mesmo perante a discordância de todos mantive a decisão. Não valia a pena remar contra a maré…
Iríamos almoçar e dar tempo a que esfriassem os nervos. Depois do almoço retomar-se-ia o trabalho até às nove da noite. Depois da Consoada, se necessário, continuar-se-ia o trabalho, na tentativa de terminar a reparação de modo a possibilitar a nossa chegada a Lisboa a tempo de jantar.
Quando os amigos de Villa Cisneros souberam das nossas dificuldades, embora tomassem ares de circunstância, embandeiraram em arco. É que, para eles, ia ser um Natal… com convidados!
Foram de uma amabilidade extrema. O jantar-ceia foi coisa… fina. Além de pantagruélicos bifes de camelo, uma «paella», lagosta suada, e toda a espécie de mariscos. Até um «helado con melocotón» foi servido! Feito com leite de camela, que o açucar e essência, em quantidades industriais, não conseguiam disfarçar os sabor característico e desagradável.
Mais não era possível para nos apaparicarem.
E não faltaram os presentes! Umas babuchas a um, um pingalim a outro, um punhal árabe ainda a outro, todos tivemos um presente.
Mas nada nos podia levantar o moral, pois o trabalho até à hora de jantar não resolvera coisíssima nenhuma. O maldito pedaço de segmento teimava em não aparecer.
Pouco depois da Consoada, depois de muitas desculpas e agradecimentos, os mecânicos dirigiram-se novamente para o avião. Iam fazer a última tentativa de «pesca». Se não resultasse, desmontariam um outro cilindro que melhor acesso lhes proporcionasse ao cárter.
Num gesto de solidariedade, todos os que tomaram parte na Consoada resolveram acompanhar os mecânicos.
Tanta simpatia e amizade acabaram por comover o Criador…
Mal começaram a descapotar o motor, caiu no tabuleiro colocado por baixo da zona de trabalho o pedaço de segmento que faltava!
Desde o início da «tragédia» que caíra, não para o cárter, mas para uma dobra do oleado. Por artes do demónio, aí se manteve, apesar de várias vezes se ter removido e sacudido.
Foi o fim do mundo! Espanhóis, portugueses e árabes, riam e pulavam de alegria. Trocávamos abraços repenicados.
Ninguém pregou olho, nessa noite, em Villa Cisneros. Num improvisado «reveillon», centrado numa esganiçada grafonola, que descascou passo-dobles e marchinhas até às quinhentas da matina, demos largas à nossa alegria. Nem fogo de artifício faltou no improvisado arraial, com uns quantos tiros de very-light e de pistola. Até a Amina, que vivia numa tenda próximo do forte, esbugalhou os doces olhos de gazela (ou olhos de gazela doce?) perante aquela maluquice dos infiéis.
Quando raiou o dia 25, ao ser hasteada a bandeira espanhola, no meio de grande cerimonial e aparato militar, frente a uma impecável e folclórica companhia de meharís montada em feiosos camelos, como pano de fundo, ouvia-se o roncar alegre do nosso motor, já a fazer a necessária rodagem.
É que, surdos à farra, os mecânicos trabalharam desalmadamente todo o resto da noite.
Ás oito e meia da noite desse mesmo dia 25, aterrávamos em Lisboa. E jantámos com a família…
O castigo pelo roubo do bolo-rei ia ficando pesadíssimo. O crime, ficou mais uma vez provado, não compensa. Nem sequer provámos o maldito corpo de delito, pois constituiu presente da tripulação aos nossos anfitriões. E nem a prenda era coisa que se visse. A fava, essa, era enorme! Chegou para toda a tripulação «criminosa».Eduardo Alexandre Viegas Ferreira de Almeida, «Uma Consoada no Sahara», in Quarenta Anos de Aviação, Martins & Irmão (impressor), 1995, pp.115 e ss.
[*] O prof. Rebelo Gonçalves ensina Sara no seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (Atlântida, Coimbra, 1947, p. 365), explicando que é a forma que mais convém dar ao nome do grande deserto africano, como já fez o Vocabulário da A.C.L., e em que, não obstante o uso antigo do género feminino, se pode fixar, sob natural influência da palavra deserto o género masculino: o Sara. Esta forma, ao mesmo tempo que corrige a acentuação na última sílaba, devida à imitação do fr. Sahara, concilia e sintetiza duas que outrora se empregaram: Çahara (com acento na antepenúltima sílaba) e Zara. Compreensivelmente o A. da história , nascido há cem anos, segue aqui a forma francesa.
[**] Longe vinham ainda os violinos de Chopin.
[***] Os dicionários dispõem hélice como substantivo feminino. Entre o pessoal aeronáutico é mais frequente o seu uso no masculino, embora com oscilações, que aliás se percebem nesta história do Cte. Viegas Ferreira de Almeida.



Histórias de outra aviação...
ResponderEliminarAinda me lembro deste Comandante.
😃
ResponderEliminarFeliz Natal!