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sábado, 1 de junho de 2019

— Fernão, mentes? — Não!

Fisco & GNR, Valongo (CMTV e SIC, 29-5-2019)


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  Se os Reys q̃ no tempo dagora gouernão [i.é, governam], ou por fallar mais verdade, tyrannizão  a terra, cuydaſſem quão depreſſa lhe ha de vir eſta hora [do juízo final], & com quanto rigor de juſtiça hão de ser caſtigados da mão poderoſa do alto Senhor pelos crimes & inſultos da ſua tyrannica vida, quiçá que lhes fora milhor pacerem [pascerem, pastarem] nos campos como os brutos, [do] que vſarem [usarem] de ſuas vontades tão abſolutamente tanto [tão] contra razão, & ſerem crueis para as manſas ouelhas, & froxos no caſtigo dos malles daquelles a q̃ quiſerão dar nome de grandes. Que certo ſe pode auer [haver] muyto dò daquelles a que ſua ventura chegou a tão perigoſo eſtado como vemos que he o dos Reys deſte tempo, pela diſſolução & deſenfreamento em q̃ viuem continuamemte, ſem terem hũa ſô [só] hora de temor nem vergonha porque, ſabey, cegos do mundo, que fazer Deos homens q̃ foſſem Reys, foy para que foſſem humanos para os homens, ouuiſſem os homens, ſatisfizeſſem os homens, & caſtigaſſem os homens, mas não para que, tyrannizando, mataſſem os homens; porem [porém] vòs triſtes Reys, neſte ſer Reys negais a natureza de que Deos vos formou, & transformaiſvos [transformais-vos] em outras muytas muito differentes, com vos veſtirdes todas as horas de qualquer libré que quereis, porq̃ para hũs ſois ſambexugas [sangessugas] que lhe chupais continuamente as fazendas, & as vidas, ſem nunca vos deſapegardes até lhe terdes chupado todo o ſangue ſem lhe ficar gota em todas as veyas, & para outros soys liões de bramido terribel, que para rebuço de voſſas cubiças mandais apregoar [decretar] que quem der q̃ falar, quem [o] fizer, morra por iſſo, & perca a fazenda, que he o fim de voſſas [in]tenções; & para outros que vos ſão aceitos, & a quem vòs ou o mundo ou não ſey quem, pos [pôs] nome de grandes, ſois tão froxos no caſtigo de ſuas ſoberbas, & tão prodigos nas merces [mercês, recompensas] que lhe fazeis à cuſta do deſpojo dos pobres que deixaſtes nùs & ſem pelle nem oſſo, que aos pequenos fica aução [acção] de vos accuſarem por todas eſtas couſas diante de Deos, onde triſtes de vós não tereis eſcuſa que deis por voſſa parte, nem boca para falardes, ſe não confuſão medonha para vos perturbardes.


Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto: Em que da [dá] conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouuio &c., Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1614, cap. CLXVIII (a grafia é a original; a pontuação foi ajeitada).



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Já não há reis, pela graça de Deus. Agora é só democratas.Figurões, Portugal, séc. XXI

2 comentários:

  1. Anónimo2/6/19 20:31

    Se bem entendi as palavra de Fernão Mendes Pinto, ele foi severíssimo para com a realeza d'altura. Certamente teria boas razões para sê-lo ou não ousaria deixar o para a posteridade tão contundente acerbidade.

    E a composição lexical do texto é simplesmente uma delícia.
    Maria

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  2. Fernão Mendes Pinto viajou muito, viu muito, mas o que tem de mais interessante este passo é a sua perenidade. E cuido que ele sabia disso, que há coisas que não mudam, mormente a natureza amoral dos poderosos, inclusive reis pela graça de Deus e que, 500 ou 1000 anos que passemm não muda. Antes pelo contrário.

    A «Peregrinação» é um monumento da Língua Portuguesa. Fernão Mendes Pinto tinha o dom da palavra. E que dom.

    Cumpts.

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