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quarta-feira, 27 de março de 2019

História com asas


 […] Findas as aulas teóricas, as muitas sessões de simulador e o Voo Base (voos de instrução, sem passageiros) fomos finalmente para a Linha, com passageiros e tudo mas assistidos por um Comandante encartado. Desses voos assistidos em linha por outro Comandante, antes de eu ser largado, lembro-me principalmente dos dois primeiros.
 O primeiro de todos, um Lisboa-Genève-Zurique, com o Comandante Queirós. No dia 6 de Abril de 1977 no CS-TBK. E lembro-me porque sendo o primeiro voo de todos como Comandante, embora asistido, o controlador suíço de Genève resolveu mudar a pista no último instante e consciente da quase impossibilidade de uma aterragem segura naquelas condições me ter até perguntado:
 — Você consegue?...
 Com a minha nenhuma experiência em Comando e naquele avião (era o 1.º voo e com a responsabilidade de ter a cabina cheia de passageiros, que nunca sabem o que está prestes a acontecer...) fiquei mudo aqueles milésimos de segundo que parecem sempre uma eternidade, sem saber o que lhe responder…
 O Queirós disse-me rapidamente que sim, eu podia e assim aceitei a rasteira do controlador. Mas o Queirós ensinou-me como fazer, sentado na cadeira atrás de mim:
 — Reduz toda a potência, já! Trem em baixo! Não desças! Deixa a velocidade cair!
Flaps todos em baixo! Aterra agora… E lá passei eu aquela montanha entre Lyon e Genève com enorme razão de descida em direcção à pista mesmo em frente, a querer desaparecer-me debaixo do nariz do avião…
 Mas fiz uma boa e segura aterragem.
 Já na Placa do Aeroporto o Queirós ensinou-me mais uma coisa:
 —  Da próxima vez quando ele te perguntar se és capaz, responde-lhe: — Eu não e você?!
 Obrigado, Queirós, lá onde estiveres!


Cte. Cavaleiro, «Aviões que voei. Eu e o Boeing 727, na TAP», in Rio dos Bons Sinais, 2/11/2014.




B727, CS-TBK, «Açores», Aeroporto da Portela, 1979
© Stefan Roherich, in Jet Photos.

11 comentários:

  1. Fernando Antolin28/3/19 19:30

    Linda máquina, o 727-100; junto com o 727-200, o 757 e o 747-200, dos quais ainda "trabalhei" em dois, o CS-TJA e o CS-TJB, dois dos quatro Jumbo que a TAP teve, dos aviões mais elegantes que passaram pelos céus. O Concorde era outro patamar e pude vê-lo lá pelo aeroporto, em pelo menos 3 passagens por Lisboa.

    Na verdade, em quase 40 anos de serviço que lá levo, nem sei quantos aviões me passaram pelas mãos, em termos de variedade de modelos.

    Um abraço

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  2. Fiz várias viagens nestes confortáveis aviões. Excelente atendimento do pessoal de bordo aos passageiros. E as refeições sempre de qualidade, mesmo as ligeiras quando em viagens de curta duração.
    Maria

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  3. Antolin Teixeira. Há um Comandante com este nome…
    Cumpts.

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  4. A fota de B727 veio em 1967, juntando-se aos Caravelas e aos B707. Nesse mesmo ano saíram de serviço os Supe Constellation, ficando a TAP a ser a primeira companhia aérea com uma frota de sòmente aviões a jacto.
    Cumpts.

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  5. Fernando Antolin30/3/19 16:26

    Há,sim senhor.
    O meu primo Carlos Antolin Teixeira(o meu pai era primo direito da mãe dele), já reformado e de belíssima saúde, felizmente.

    Um abraço

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  6. Onde foram parar os Super Constellation quando foram substituídos? Imagino que aos Estados Unidos.

    Ainda cheguei a fazer com os meus Pais duas ou três viagens nestes aviões. Mereciam sem dúvida a substituição, os lugares dos passageiros eram algo incómodos e pouco espaçosos entre si.
    Maria

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  7. Sim. Segundo li nas «Histórias com Asas, os cinco remanescentes em 1967 (o CS-TLD só esteve na TAP em 1958-59) foram vendidos à Aerodyne Inc.
    Pelo menos o CS-TLA, «Vasco da Gama» e o CS-TLC, «Gago Coutinho» andaram na ponte aérea do Biafra.
    O «Vasco da Gama» esteve «armazenado» em Faro de 69 a 77, foi vendido e transformado em bar-restaurante e acabou abandonado e incendiado em Faro. Foi todo para a sucata.
    O «Gago Coutinho» foi confiscado em Malta logo em Fevereiro de 1968 (tinha feito o último voo na TAP RIO/LIS em 13/9/1967), foi leiloado e convertido em bar-restaurante em 1974. Acabou abandonado e incendiado lá em Malta. Parece que os instrumentos e os motores tinha sido retirados ainda intactos; juntos com a sucata do salvado foi guardado com vista a preservação no museu do Ar de Malta.

    Curioso é que o «cockpit» preservado no museu da TAP em Sintra é dum avião da Air France ou da Lufthansa abandonado por anos no aeroporto da Portela, até que o Cte. Silva Pereira da TAP conseguiu salvar-lhe essa parte para o dito Museu da TAP.

    Um resumo deles na TAP aqui.

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  8. Enviei há cerca de duas horas um comentário a agradecer a sua completa e excelente informação sobre o dito avião, mas não apareceu! Erro do meu computador ou do seu Servidor? Aqui fica mais um agradecimento.
    :)Maria

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  9. Fernando Antolin5/4/19 17:15

    O Constellation da Portela tinha sido da Lufthansa, embora tivesse matrícula da Mauritânia, ainda andou também na ponte aérea do Biafra. Esteve muitos anos na "relva", a norte da naquela altura chamada plataforma D, a da aviação geral. Acabou tal e qual o meu amigo disse.

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  10. Grato do esclarecimento.
    Cumpts. :)

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