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domingo, 2 de setembro de 2018

Setembro

 Este ano ouve-se para aí que não muda a hora. Os mandarins de Bruxelas sondaram para se não mudar — descobriram que faz mal à saúde… 4 600 000 de europeus responderam (3 000 000 deles terão sido — é isto o jormalismo — alemães); 4/5 diz que disseram que não mudasse a hora. Os mandaretes do protectorado rectangular nada farão senão cumprir o que palpitou essa mole de germânicos. Tempos houve em que a hora legal em Portugal era sopesada cá, por gente de cá, e decretada soberanamente.  Depois do grande acidente nacional acomodaram-nos ao estrangeiro. Agora é como é.


 Ainda assim (sendo que Portugal acabou) menos mal…


 Setembro está para Março…
 O mês mai' radioso é Junho. Gosto dos meses luminosos. Julho está para Maio — mais dez, menos dez dias; Agosto para Abril… A diferença é o calor; Julho, Agosto e Setembro são no Verão.


 Em Abril, vindo do Inverno tristonho, os dias parecem-me sempre mais radiosos (salvo quando chove); frescotes, brumosos, mas mais radiosos, prenúncio de dias ainda maiores e, do Verão. O ânimo anima-se-me.


 Dantes, os alfacinhas abriam a época das hortas em Abril. A romaria dos domingos aos retiros arrabaldinos seguia até Outubro, tanta vez entre fados e esperas de toiros. Mas eram as pescadinhas de rabo na boca que chiavam tardes inteiras na sertã ou o coelho que ia para a caçarola enquanto na almácega nadava a alface, a refrescar.


 Tempos bons de prazeres simples...


 Cuido que herdei uma inconsciência do ciclo desses tempos. Vou tomando consciência agora.
 De Abril sinto-me antecipar com prazer os dias grandes e radiosos do Verão. Por Abril, entre brumas que embranquecem ainda as manhãs frescotas de Primavera, cada sábado e domingo madrugo propenso ao devaneio: pela manhãzinha me levanto e barbeio com fados de antigamente ecoando fanhosamente duma grafonola pela jinela aberta do saguão onde pouso o espelho de mão. Capricho meu, repartido com uma vizinhança, que não madruga nem se vê (nem é de cá). O ideal seria a cena com bacia e gomil numa trapeira com o velho faduncho a repercutir-se por telhados castiços, entrevendo o Tejo.
 A vida tem limites. O tempo mata os horizontes. Supre-se-me o devaneio. Setembro é deprimente. Os dias encurtando-se e ao depois, enfim!... Deviam era logo decretar o fim do Inverno, pela minha rica saúde.


Nesga do Tejo, Alfama (Adiça), 195… Artur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.




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Fotografia: S. Miguel e o Tejo tomados da Adiça, Alfama, 195... Artur Pastor, in archivo phtographico da C.M.L.
Fado: Amália, As Penas (Fernando Caldeira/«Fado Bacallhau»). Continental, Rio de Janeiro, 1945.

14 comentários:

  1. Não acredito que hajam alterações.Provavelmente só se fala disso por cá.

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  2. Não acreditamos que haja alterações. Talvez!... Vamos ver.

    (O verbo «haver» com sentido de «existir», usa-se de modo impessoal, logo na 3.ª pess. do sing. (i.é pessoas, coisas, conversas de que haja ou possa haver alterações e não pessoas, conversas de que ou alterações.)

    Cumpts.

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  3. Obrigado eu! Da sua atenção e apreço.
    Cumpts.

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  4. É a única boa ideia que me lembro da UE.

    Vamos ter dia até mais tarde. Creio que assim é que ficará aproximado à hora solar. Desde 1917 que andávamos com mais 60 minutos em relação a Greenwich

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  5. Dia até mais tarde se ficarmos na hora de Verão. Mas é a hora de Verão que é adiantada de 60 min. em relação ao meridiano de Greenwich, não a de Inverno.
    Cumpts.

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  6. Pois, exacto, ficamos então mais adiantados o tempo todo ehehe
    Eles querem que não mude a hora de Inverno. Eu acho óptima ideia.

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  7. Bic 🍊4/9/18 02:07

    Querem é que morramos todos cheios de saúde, isso é que é.
    E democraticamente.
    O resto é não terem mais que fazer.
    Cumpts.

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  8. ehehe

    Só o Cavaco se atreveu a mudar e ainda hoje bufam por causa disso.
    Agora vai ser a UE a fazer metade do que ele fez e nem piam.

    Por mim acho bem. Ficar noite às 5 da tarde é que só masoquistas podem defender.

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  9. Bic Laranja4/9/18 18:05

    O Cavaco encaixou-nos no fuso de Berlim. No Verão ficámos duas horas adiantados ao Sol. Mais os 36'44" de avanço de Greenwich em relação ao Alto da Ajuda.
    Havia crepúsculo depois das 11 da noute!

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  10. Caro Bic Laranja, diz bem. Por mim, não tenho saudades nenhumas do dia nascer de Inverno às oito e meia da manhã, ou de Verão o Sol ainda estar acima da linha do horizonte muito depois das dez da noite... Tratou-se de um deslumbramento provinciano de quem nem cuidou que mesmo em autênticos estados federais existem diferenças horárias bastante significativas, como, por exemplo, as três horas de diferença entre Nova Iorque e Los Angeles, nos Estados Unidos...

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  11. Deslumbramento provinciano, sem tirar nem pôr. Uma maleita incurável nesta terra. Da plebe à fidalguia. Salvas honrosas (e raríssimas) excepções.
    A massa da nossa gente está demaisado adulterada. Sem recuperação.
    Cumpts.

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  12. Caro Bic

    Num pequeno e curioso livrito que aqui tenho, Metereologia Popular, escrito por um tal António Machado e publicado em 1901
    "Em Lisboa, nos dias mínimos o sol nasce às 7 horas e 30 minutos da manhã e põe-se às 4 horas e 30 minutos da tarde, e nos máximos,nasce as 4 horas e 30 minutos da manhã e põe-se às 7 horas e 30 minutos da tarde."

    Portugal passou a adoptar a hora de Greenwich em 1912. Imagino que as horas acima se refiram ao meridiano de Lisboa, onde o meio dia solar coincidiria com o meio dia horário.

    Antes da Europa das horas já havia a Albion das horas...

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Meridiano_de_Greenwich

    Bem haja

    dh

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  13. Está certo. Era a hora do merediano de Lisboa, fixado no Alto da Ajuda: 36'44" de diferença de Greenwich.
    Mas já não somos desse mundo «estranho». Um mundo que se regia pelo Sol e pelo sino da igreja. O raiar do Sol e o sol-pôr eram simplesmente quando eram e como tal marcavam a jorna; a hora do relógio servia para regular o sino.
    Em anoitecendo, fosse às 4h30, fosse às 7h30 da tarde, esse mundo quase tão velho como a natureza recolhia-se como o resto dela; haveria um pouco de serão, se tanto, à luz da candeia. Trindade Coelho retrata-o bem no conto «À lareira» d' Os Meus Amores (3.ª ed., 1901, pp. 225-286).

    Antes da Europa das horas e da Albion das horas o que havia era isto que lhe digo: jornada e serão; medido porventura em horas, quiçá meias horas, mai' raramente quartos de hora, mas nada de minutos. Estes, e os segundos são coisa de agora, do mundo urbano. Uma aceleração alienadora que é como vivemos.
    Cumpts.

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