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sábado, 22 de setembro de 2018

Rua castiça

Rua castiça, Lisboa (A. Ferrari, s.d.)



 Uma rua que não descubro onde seja; onde fosse... — Também não curo agora de saber. Hei-de ver...
 Mas cá vejo os típicos gaioleiros com janelas de bandeira, alguns com arrimos decorativos tão comuns como platibanda de balaustre e fachada de cerâmica — o azulejo tão nosso — lampiões de pé, um marco do correio; o camião dos vinhos ante a taberna…
 Lembra-me da taberna da esquina, na minha rua. Via o camião dos vinhos da janela da minha casa descarregar os pipos de vinho cheios e levar os vazios — numa vez que brincava na rua quase fui atropelado pelo camião dos vinhos; apanhei um susto valente porque atravessei de repente sem medir que ele lá vinha; o camionista fez uma travagem de chiar os pneus, gritou comigo lá do alto do camião e só achei segurança nos braços do Fernando da D.ª Vicência que tinha mais um ano que o meu irmão, já era rapazola; eu tinha uns 5 anos. Nesse dia minha mãe trancou-me em casa e não me deixou brincar mais na rua, de castigo. — Da descarga do camião que abastecia a taberna do Saraiva recorda-me a estranheza que me fazia descerem os pipos por uma padiola sem nos deixarem rolar; os homens baixavam o taipal do camião, punham a padiola e baixavam por ela os pipos cheios, longitudinalmente, não nos atravessando em posição de poderem rolar por ela até ao chão; isto quando para subir os vazios recolhidos da taberna, os faziam rolar a braço pela padiola acima; sempre achei que que era trabalho estranho não nos deixarem rolar na descarga, porque descerem-nos logitudinalmente à padiola os obrigava a empurrar para baixo para vencer o atrito dos pipos nos varais da padiola. Deixarem-nos rebolar na descida não seria tão mais fácil?
 Não sei se se isto entende.
 Todo ele, o que me recorda aqui, é duma idade em que observamos o mundo tentando apreender como se compõe. E chego aqui à conclusão de que nada disto compõe, já, o mundo. A distribuição de vinho não é em camiões de taipal carregados de pipos; os pipos foram proibidos nas tabernas e, as tabernas acabaram. O copo de três é uma memória extinta.
 Os gaioleiros também. Ruas só de gaioleiros já não há. —  Conheceis aí alguma que sobre?...

____
Rua castiça, Lisboa, [s.d.].
Amadeu Ferrari, in archivo photographico a C.M.L.

9 comentários:

  1. Joe Bernard23/9/18 23:38

    Gosto do "nabo", que, como sabe, era o nome dado ao candeeiro de iluminção pública retratado!

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  2. Mandarinia24/9/18 08:42

    Castiça mesmo. Quase que se espera ouvir um "Ó Evaristo, tens cá disto?"

    Pacata também; é impressão minha ou há um gato no meio da estrada a ver os homens a descarregar os pipo. Bela imagem!!

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  3. Ao ler textos assim, ao recordar ( com que saudade! ) coisas que vivi, digo-me muitas vezes que foram tempos muito bons, de privilégio...

    Saudações

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  4. Não havia quem lhe chamasse cebolas?
    Cumpts.

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  5. Ali há gato, pois...
    O outro gato é saber a rua.
    Cumpts.

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  6. Há um senso e uma simplicidade na vida que vem destas coisas antigas! Agora parece tudo tão balofo de elaboração, rebuscado e plastificado. Uma desinspiração!...
    Cumpts.

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  7. Manuel Alves5/11/18 00:23

    Bic Laranja

    Muito obrigado pelo seu trabalho de divulgação das nossas coisas.
    Esta fotografia, presumo que tenha sido tirada no início da Rua Barão de Sabrosa, na rampa que a liga à Rua Morais Soares.

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  8. Obrigado eu do seu apreço.

    Também me ocorreu que fosse a Barão de Sabrosa logo abaixo do Max, mas aquela casa na esquina de cima com a Melo Gouveia não se identifica com o gailoeiro que lá esteve até há poucos anos, nem com as seguintes.
    Um caso a ver.

    Cumpts.

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  9. Rua dos Açores. Logo abaixo do cruzamento com a R. da Ilha Terceira. O camião descarregava os pipos na taberna do n.º 24-26.
    Cumpts.

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