Uma rua que não descubro onde seja; onde fosse... — Também não curo agora de saber. Hei-de ver...
Mas cá vejo os típicos gaioleiros com janelas de bandeira, alguns com arrimos decorativos tão comuns como platibanda de balaustre e fachada de cerâmica — o azulejo tão nosso — lampiões de pé, um marco do correio; o camião dos vinhos ante a taberna…
Lembra-me da taberna da esquina, na minha rua. Via o camião dos vinhos da janela da minha casa descarregar os pipos de vinho cheios e levar os vazios — numa vez que brincava na rua quase fui atropelado pelo camião dos vinhos; apanhei um susto valente porque atravessei de repente sem medir que ele lá vinha; o camionista fez uma travagem de chiar os pneus, gritou comigo lá do alto do camião e só achei segurança nos braços do Fernando da D.ª Vicência que tinha mais um ano que o meu irmão, já era rapazola; eu tinha uns 5 anos. Nesse dia minha mãe trancou-me em casa e não me deixou brincar mais na rua, de castigo. — Da descarga do camião que abastecia a taberna do Saraiva recorda-me a estranheza que me fazia descerem os pipos por uma padiola sem nos deixarem rolar; os homens baixavam o taipal do camião, punham a padiola e baixavam por ela os pipos cheios, longitudinalmente, não nos atravessando em posição de poderem rolar por ela até ao chão; isto quando para subir os vazios recolhidos da taberna, os faziam rolar a braço pela padiola acima; sempre achei que que era trabalho estranho não nos deixarem rolar na descarga, porque descerem-nos logitudinalmente à padiola os obrigava a empurrar para baixo para vencer o atrito dos pipos nos varais da padiola. Deixarem-nos rebolar na descida não seria tão mais fácil?
Não sei se se isto entende.
Todo ele, o que me recorda aqui, é duma idade em que observamos o mundo tentando apreender como se compõe. E chego aqui à conclusão de que nada disto compõe, já, o mundo. A distribuição de vinho não é em camiões de taipal carregados de pipos; os pipos foram proibidos nas tabernas e, as tabernas acabaram. O copo de três é uma memória extinta.
Os gaioleiros também. Ruas só de gaioleiros já não há. — Conheceis aí alguma que sobre?...
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Rua castiça, Lisboa, [s.d.].
Amadeu Ferrari, in archivo photographico a C.M.L.
sábado, 22 de setembro de 2018
Rua castiça
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Gosto do "nabo", que, como sabe, era o nome dado ao candeeiro de iluminção pública retratado!
ResponderEliminarCastiça mesmo. Quase que se espera ouvir um "Ó Evaristo, tens cá disto?"
ResponderEliminarPacata também; é impressão minha ou há um gato no meio da estrada a ver os homens a descarregar os pipo. Bela imagem!!
Ao ler textos assim, ao recordar ( com que saudade! ) coisas que vivi, digo-me muitas vezes que foram tempos muito bons, de privilégio...
ResponderEliminarSaudações
Não havia quem lhe chamasse cebolas?
ResponderEliminarCumpts.
Ali há gato, pois...
ResponderEliminarO outro gato é saber a rua.
Cumpts.
Há um senso e uma simplicidade na vida que vem destas coisas antigas! Agora parece tudo tão balofo de elaboração, rebuscado e plastificado. Uma desinspiração!...
ResponderEliminarCumpts.
Bic Laranja
ResponderEliminarMuito obrigado pelo seu trabalho de divulgação das nossas coisas.
Esta fotografia, presumo que tenha sido tirada no início da Rua Barão de Sabrosa, na rampa que a liga à Rua Morais Soares.
Obrigado eu do seu apreço.
ResponderEliminarTambém me ocorreu que fosse a Barão de Sabrosa logo abaixo do Max, mas aquela casa na esquina de cima com a Melo Gouveia não se identifica com o gailoeiro que lá esteve até há poucos anos, nem com as seguintes.
Um caso a ver.
Cumpts.
Rua dos Açores. Logo abaixo do cruzamento com a R. da Ilha Terceira. O camião descarregava os pipos na taberna do n.º 24-26.
ResponderEliminarCumpts.