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domingo, 15 de abril de 2018

Lisboa com ar de si mesma (dantes e agora)

Lisboa com ar de si mesma
Eléctricos, táxi e pimenteiro,
S. Pedro de Alcântara, 1972.

Jean-Henri Manara, in Portugal (Flickr).


*    *    *



 Ontem disseram-me de o eléctrico 24 estar de volta aos trilhos. Parece que sim... Mais ou menos... O 24 já circula entre o [Largo de] Camões e Campolide leio numa notícia. É daquelas notícias de banha da cobra. O carro eléctrico anda por lá, sim, em... manobras. Carreira regular, ainda se não sabe quando. Recuperação da carreira para serviço do alfacinha?... Duvido.  Cheira-me a coisa para inglês ver (touriste oblige) e publicidade grosseira a uma vereação que governa Lisboa para o estrangeiro mais que para o lisboeta. Ignorante, ainda por cima. Ou não fosse o presidente da Câmara tripeiro. Do eléctrico 24 sabem nada: a carreira ia do Carmo à Rua da Alfândega; passava na Trindade, nunca no Camões; jamais desceu ao Cais do Sodré: era uma linha circular quase perfeita da Baixa à Baixa porque se completava no Carmo com o elevador de Santa Justa. Da mesma maneira, composto com o ascensor, o eléctrico 5 que se vê na imagem era uma ligação da Baixa à periferia de Benfica pelo trajecto alternativo de Campolide, S. Sebastião, Palhavã e Sete Rios por fugir ao congestionamento da Avenida. — Alguém me diga cá se o elevador de Santa Justa se conjuga hoje em dia dalguma maneira com a rede de transportes colectivos de Lisboa; do preço do bilhete ao estatuto de miradouro que define o elevador como marco turístico está bom de ver... 
 Ora esta espécie de eléctrico 24, agora, é mais disso mesmo. Os pergaminhos do eléctrico do Carmo que lhe colam são cuspo de propaganda de chicos-espertos para enganar gerações de ignorantes e inocentes excursionistas. Honesto seria pensar uma rede de eléctricos capaz para a cidade e arredores e polvilhá-la de pitorescos de postal ilustrado onde se justificasse.
 Agora isto, este 24 anunciado, mais não é que um desses truques publicitários, com trajecto inventado nas ruínas da antiga rede de eléctricos da Carris. E se o lá conseguiram pôr agora em manobras foi porque os trilhos foram tão bem assentes no passado que após décadas de abandono ainda se aguentam com tal serviço.

12 comentários:

  1. Boa 'pequena' história. Comentário curioso pela força que transporta.
    cumps

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  2. Joe Bernard16/4/18 17:00

    Foi o porquinho do Sampaio, que quando esteve na Câmara de Lisboa praticamente acabou com todos os eléctricos.
    Que pena...
    Um transporte barato e não poluente.
    Agora temos os autocarros a deitar cá pata fora toneladas de diesel mal queimado!

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  3. A vereação do Sampaio pode ter fechado o ciclo a última duma série de vereações que desde 1960 decidiram liquidar os eléctricos.
    Esta vereação agora faz propaganda dum «24» de capricho enquanto fomenta o ciclomontanhismo como solução dos transportes colectivos em Lisboa.
    Cumpts.

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  4. Boa noite. Quanto muito seria a carreira nº 10 que ia do Cais do Sodré a Campolide.

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  5. Carreira 20, quererá dizer. O eléctrico 10 era circular da Graça, a par do 11.
    Cumpts.

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  6. Pois não, o 20 fazia o percurso Cais do Sodré - Martim Moniz. Ia ao Rato, descia a Alexandre Herculano e subia o Conde de Redondo até à Gomes Freire, descia depois ao Martim Moniz.

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  7. Maria Almeida22/4/18 17:28

    Eu apanhava o 24 na Praça do Chile, junto ao edifício do "BCG", para a Faculdade de Ciências e creio que ia até ao Largo Carmo. Recordo-me que ia apanhando uns tantos colega pelo caminho ... e chegávamos sempre a horas.
    Que saudades!

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  8. Obrigado do seu testemunho.
    Cumpts. :)

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  9. André Santos23/4/18 22:13

    Quanto foi "suspensa", em 1995, a carreira 24 ia de facto do Alto do São João ao Cais do Sodré, resultado de extinções e prolongamento de várias carreiras.
    Na extinção da 2ª versão da 10 (Campolide-Cais do Sodré), a 24 viu-se prolongada ao Cais do Sodré.

    E reabre amanhã, entre o Largo Camões e Campolide enquanto não são recolocados 2 aparelhos de via que - depois de levantados no passado - se encontram algures em Santo Amaro.

    Cumprimentos

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  10. Ah, bom! Carreiras de tradição tão moderna, desconhecia. Vamos então recuperar um saudoso eléctrico 24 de 1995.
    A tradição possível, pois!...
    Obrigado!

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