No tempo do bilhete operário o tio Zé Lapa ia e voltava do trabalho no carro eléctrico. Era também costume naquele tempo, à medida que o eléctrico seguia o seu percurso, o cobrador [condutor, vulgo, pica-bilhetes] ir dizendo alto o nome dos sítios principais onde passavam.
— SOCORRO! — avisava ele por alturas do Martim Moniz. — INTENDENTE! — dizia a seguir, a caminho de Arroios. — ANJOS! — E assim por diante.
Vezes houve no regresso a casa que o tio Zé Lapa lhe dava tal moleza que se deixava dormir no eléctrico. Era um dormitar de orelha meia arrebitada, entremeado aqui e ali pelos pregões do pica-bilhetes. Numa daquelas vezes pegou no sono mal quase se sentou. Ouviu talvez um distante e sonolento «SOCORRO!» logo ali na Rua da Palma e ferrou a dormir. Quase que despertou, ao depois, com um sonoro «ANJOS!». Mas sem abrir os olhos só se ajeitou no banco para prolongar a soneca até Arroios.
— INTENDENTE!
Mau!... Intendente?! Ali o tio Zé Lapa esbugalhou pela janela os olhos estremunhados. Que diabo! O carro eléctrico já ia de volta; descia em boa marcha a Rua da Palma! Saltou do atribulado eléctrico mal ele estacou no sinaleiro da Rua São Lázaro. Apressado, atravessando a rua, deu notícia do pica-bilhetes o fitar anunciando aos passageiros:
— SOCORRO!

Rua da Palma, Lisboa, s.d..
Foto de Eduardo Portugal.
Naquele dia o tio Zé Lapa chegou mais tarde para jantar. Nunca se convenceu que a sopa tardia não tivesse um saibo de malícia de pica-bilhetes.
(Publicado originalmente em 27 de Setembro de 2006 às 10 menos 24 da noite.)
Está feito.
ResponderEliminarObrigada por reportar o erro. Fica um bug com o seu nome :)
Texto delicioso.
ResponderEliminarÉ de facto uma delicia, digno de ser enviado para a "história de vida"!
ResponderEliminarObrigado eu, Dª Maria João! Fica havendo um Bug Laranja, portanto. :) Cumpts. // Amabilidade vossa, caros Santos Passos e João. Amabilidade vossa! Obrigado. :)
ResponderEliminarE a Rua parece quase uma avenida, não é?
ResponderEliminarBeijinho.
Uma confusão habitual é chamar Av. Almirante Reis a este troço da Rua da Palma. O Arquivo Fotográfico da C.M.L. é nesta rua. Cumpts.
ResponderEliminarMeu Caro Bic Laranja:
ResponderEliminarEmbarcando na simpática informação Lepidóptera, aproveito para Lhe dar um abraço pela data. Quanto ao postal, sempre direi que o sistema antigo era muito melhor do que a automática voz feminina do Metro de hoje, a qual, volta e meia está com as estações trocadas. Caso em que o material não tem razão...
Ó Dª Borboleta, que surpresa! Grato pela lembrança e muito obrigado! Um beijinho para si e mais às «Fidedingas Fontes». :)
ResponderEliminarObrigado, caro Paulo! Concordo que o sistema antigo era bem melhor: era um pregão. A voz do Metro é um cartão de plástico com 'microchip': é um papaguear mecânico de formação em atendimento a clientes. Um abraço para si Paulo.
ResponderEliminarDelicioso este pequenino texto....obrigada pela forma simples mas agradável com que foi escrito. um Chi
ResponderEliminarObrigado eu! Cumpts.
ResponderEliminarEra assim Lisboa...
ResponderEliminarEra mesmo assim. Cumpts.
ResponderEliminarPensava que a menina do metro era uma invenção recente, pelos vistos é uma cópia rafeira.
ResponderEliminarÉ uma cópia rafeira. Cumpts.
ResponderEliminarBoa tarde
ResponderEliminarSe interessar a alguém, a árvore centenária que se vê na 3ª foto, atrás do electrico, vai ser cortada este domingo. É uma pena. Se conhecerem alguém que possa fazer alguma coisa para o impedir...
Esta encontra-se na entrada do Restaurante India Palace no nº. 208 D da Rua da Palma.
Ana Gouveia
Não tenho memórias desta rua, assim, bonita. Bem haja por nos mostrar como Lisboa já foi.
ResponderEliminarVotos de um excelente ano de 2018.
Mérito do fotógrafo.
ResponderEliminarAno bom!