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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Do palácio do senhor de Pancas em Arroios

  Duma cabina telifónica em Arroios e do meu descair dela para o palácio dos senhor de Pancas estribado em Norberto de Araújo, recebi um comentário muito pertinente dum leitor atento e interessado nestas novidades antigas, o Sr. João Baptista. Corrigia-me ele o engano de dar como ilustração do dito palácio um gaioleiro da época do Primo Basílio (*), como um que ainda hoje sobrevive no Largo de Arroios e que exibe o ano de 1885 em ferro forjado na bandeira da porta. Deixava-me então o benévolo leitor a referência duma rara imagem do verdadeiro palácio dos senhores de Pancas que achou no n.º 85 da Revista Municipal.




  Empreendendo de novo na questão, cuido que associei a imagem do gaiolero ao palácio duma apressada interpretação do que Norberto de Araújo dizia do Pátio Dias e de grandes transformações urbanas ali:



 Em 1863-1864 recebeu grandes transformações urbanas, mas a linha geral das sacadas ficou sensìvelmente a mesma. Já então a quinta havia sido aforada para construções de moradias. O contíguo «Pátio Dias» data de 1883 na forma com está hoje [1938] (Peregrinações em Lisboa, 2.ª ed., vol. IV, p. 83).



  Ora, o Pátio Carlos Dias (ou Vila Dias, que cuido também já ter lido algures) era o que se percebe duma vista do alto da Penha de França na volta do séc. XX; uma vila operária como tantas, talhada nos jardins da antiga casa senhorial e calhada ao tipo de bairro industrial em que se Arroios tornara em fins do séc. XIX. A mesma vista dá o panorama do lugar e mostra, bem que de tardoz, as casas do senhor de Pancas afrontadas já pelo aterro da Rua de Pascoal de Melo e os gaioleiros que se seguiam, caminho do largo de Arroios. Entre ambas as construções o portão de acesso ao Pátio Dias que se distingue em primeiro plano na imagem anterior.


Vista sobre a Rua de Paschoal de Mello, Arroios (José Arthur Leitão Barcia, c. 1908)
Vista sobre a Rua de Pascoal de Melo, Arroios, c. 1908.
José Arthur Leitão Barcia, in archivo photographico da C.M.L.



  O antigo palácio do senhor de Pancas em Arroios foi demolido em Julho de 1957 (**).




(*) Porque o apparato impressionava-a mais que o sentimento; e a casa em si interessava-a, attrahia-a mais que Bazilio! Como seria? Era para os lados de Arroios, adiante do Largo de Santa Barbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma correnteza de casas velhas... (Eça de Queiroz, O Primo Bazilio, 2.ª ed., Porto, Chardron, 1878, p. 256.)
(**) Pedro Garcia Anacleto, «A freguesia de S. Jorge da Cidade de Lisboa», Revista Municipal, n.º 85, 2.º trim. 1960, p. 37.

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