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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Do Cabo Ruivo ao comunismo, da Cruz Vermelha ao antifascismo

(jornais e comentários)


 Por uma indicação topográfica apontando o esquecido aeroporto de Cabo Ruivo relembrou um leitor a fugaz carreira aérea de hidroaviões entre Lisboa e o Funchal e, do seu fim abrupto ditado pela perda dum hidroavião que partira do Cabo Ruivo para o Funchal, relevou o mesmo leitor que não houvesse vindo a ser o Dr. Salazar em Setembro de 68, quando adoeceu, operado pelo Dr. Eduardo Moradas Ferreira, então de férias no Funchal e impedido assim de tornar rapidamente a Lisboa sem ligação aérea, sendo demorado vir de barco. Com isto veio a ser o Dr. Vasconcelos Marques, dito maçon, o cirurgião contactado para operar o Dr. Salazar.
 Isto veio a comentar o dito leitor ligando um facto histórico fortuito (o acidente aéreo) a outro (as férias no Funchal do Dr. Moradas Ferreira quando o Dr. Salazar adoeceu) contado numa reportagem do Expesso (isso mesmo, o saco de plástico).


 Outro leitor relevou do comentário do primeiro — e da mesma reportagem do saco de plástico, cuido — as ligações do Dr. Moradas Ferreira à oposição, mormente ao Partido Comunista Português.


 


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 Não sei se a carreira de hidroaviões Lisboa-Funchal durou anos. Mas, achei intrigante o comentário e resolvi empreender na questão.


Martin Mariner CS-THA «Madeira», Funchal, c. 1958 (In Richard Alden Hoffmann, «The Fighting Flying Boat: A History of the Martin PBM Mariner», U.S. Naval Institute Press, 2004)



 O Martin Mariner CS-THB que se perdeu no mar teve licença provisória da D.G.A.C. em 4/11/1958 para operar transporte aéreo regular. A licença caducava em 3/12/1958. O hidroavião desapareceu sem rasto em 9/11/1958, apenas cinco dias depois de ter licença de operação. Não foram encontrados destroços nem vestígios doutra espécie até 14/11/1958, quando cessaram as buscas. Presumiu-se que tenha desaparecido na posição geográfica de 37º 12' N e 11º 16' W. A última mensagem recebida do CS-THB pelo Centro de Controlo Regional de Navegação Aérea do Continente foi «QUG Emergência», i.é: «sou forçado a amarar imediatamente». O hidro CS-THB havia servido em missão militar na Marinha dos E.U.A., fôra ao depois comprado pela ARTOP (Aero-Topográfica) e convertido por pessoal das O.G.M.A. e da T.A.P. entre Setembro e Outubro de 1958 para a operação de transporte aéreo civil. A ARTOP operava nesse tempo a rota Cabo Ruivo-Funchal havia um mês com outro hidroavião idêntico, o CS-THA, que sofrera a mesma conversão de militar para civil antes do CS-THB; a modificação foi estudada pela Comissão de Investigação da D.G.A.C. procurando pistas do que tivesse causado o acidente.
 Nada se achou.
 Quem tiver curiosidade pode ver o resumo e ler lá o relatório; as primeiras 19 págs. dizem o suficiente.


 Posto isto, a operação da ARTOP com o Martin Mariner CS-THA teria c. de um mês à data do desaparecimento do seu «irmão» CS-THB — este com 5 dias de licença de operação; não sei se realmente fez algum voo de carreira nesses 5 dias. Soube hoje que uma companhia inglesa (Aquila Airways) operou a rota Cabo Ruivo-Funchal, antes, com outro tipo de hidros, e que desistiu. Nesse vazio surgiu a ARTOP, detida por dois aviadores da T.A.P., segundo hoje me disseram. 
 Se a rota Cabo Ruivo-Funchal, porém, acabou em razão do inexplicado acidente do CS-THB em 9/11/1958, como parece que foi, dificilmente alguém lhe poderia achar relevo no que sucedeu com o Dr. Salazar em Setembro de 1968, quase dez anos depois. De mais a mais com o aeroporto do Porto Santo inaugurado em 28 de Agosto de 1960 e o da Madeira em 12 de Julho de 1964. Não foi por falta de ligação aérea que o Dr. Moradas Ferreira deixou de vir do Funchal a Lisboa para operar o Dr. Salazar. Para o caso, nem o embaixador Franco Nogueira refere tal médico nos seis vols. da biografia de Salazar...


 Quanto à reportagem do saco de plástico, confesso, li as duas primeiras palavrinhas dela e não necessitei ler mais porquanto exprimem elas o mais completo e acabado tratado sobre Salazar que pode alguém escrever: «O ditador».
 O ditador tão ditador era que deixava à solta comunistas e maçons para lhe minarem livremente o governo. Tanto foi que minaram. E deve ser disto que o odeiam. Mal agradecidos!


 


(Martin Mariner CS-THA «Madeira» ancorado na baía do Funchal c. 1958 in Richard Alden Hoffmann, The Fighting Flying Boat: A History of the Martin PBM Mariner, U.S. Naval Institute, 2004. Também nos Restos de Colecção.)

4 comentários:

  1. No limite, se tal médico fosse mesmo realmente imprescindível, não podia até um vôo militar tê-lo ido buscar à Madeira? Bem sei que os costumes da época não eram propícios a este tipo "abusos"... Ainda assim, cheira-me a história rebuscada, muito forçada, no mínimo...

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  2. Joe Bernard24/11/17 15:53

    Bic Laranja escreveu:
    O ditador tão ditador era que deixava à solta comunistas e maçons para lhe minarem livremente o governo. Tanto foi que minaram. E deve ser disto que o odeiam. Mal agradecidos!
    E eu assino por baixo!

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  3. É história rebuscada, decerto. Sinal dos tempos, em que, voos militares tomam como prioridade matrecos duma central cervejeira.
    Cumpts.

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