(jornais e comentários)
Por uma indicação topográfica apontando o esquecido aeroporto de Cabo Ruivo relembrou um leitor a fugaz carreira aérea de hidroaviões entre Lisboa e o Funchal e, do seu fim abrupto ditado pela perda dum hidroavião que partira do Cabo Ruivo para o Funchal, relevou o mesmo leitor que não houvesse vindo a ser o Dr. Salazar em Setembro de 68, quando adoeceu, operado pelo Dr. Eduardo Moradas Ferreira, então de férias no Funchal e impedido assim de tornar rapidamente a Lisboa sem ligação aérea, sendo demorado vir de barco. Com isto veio a ser o Dr. Vasconcelos Marques, dito maçon, o cirurgião contactado para operar o Dr. Salazar.
Isto veio a comentar o dito leitor ligando um facto histórico fortuito (o acidente aéreo) a outro (as férias no Funchal do Dr. Moradas Ferreira quando o Dr. Salazar adoeceu) contado numa reportagem do Expesso (isso mesmo, o saco de plástico).
Outro leitor relevou do comentário do primeiro — e da mesma reportagem do saco de plástico, cuido — as ligações do Dr. Moradas Ferreira à oposição, mormente ao Partido Comunista Português.
*
* *
Não sei se a carreira de hidroaviões Lisboa-Funchal durou anos. Mas, achei intrigante o comentário e resolvi empreender na questão.
O Martin Mariner CS-THB que se perdeu no mar teve licença provisória da D.G.A.C. em 4/11/1958 para operar transporte aéreo regular. A licença caducava em 3/12/1958. O hidroavião desapareceu sem rasto em 9/11/1958, apenas cinco dias depois de ter licença de operação. Não foram encontrados destroços nem vestígios doutra espécie até 14/11/1958, quando cessaram as buscas. Presumiu-se que tenha desaparecido na posição geográfica de 37º 12' N e 11º 16' W. A última mensagem recebida do CS-THB pelo Centro de Controlo Regional de Navegação Aérea do Continente foi «QUG Emergência», i.é: «sou forçado a amarar imediatamente». O hidro CS-THB havia servido em missão militar na Marinha dos E.U.A., fôra ao depois comprado pela ARTOP (Aero-Topográfica) e convertido por pessoal das O.G.M.A. e da T.A.P. entre Setembro e Outubro de 1958 para a operação de transporte aéreo civil. A ARTOP operava nesse tempo a rota Cabo Ruivo-Funchal havia um mês com outro hidroavião idêntico, o CS-THA, que sofrera a mesma conversão de militar para civil antes do CS-THB; a modificação foi estudada pela Comissão de Investigação da D.G.A.C. procurando pistas do que tivesse causado o acidente.
Nada se achou.
Quem tiver curiosidade pode ver o resumo e ler lá o relatório; as primeiras 19 págs. dizem o suficiente.
Posto isto, a operação da ARTOP com o Martin Mariner CS-THA teria c. de um mês à data do desaparecimento do seu «irmão» CS-THB — este com 5 dias de licença de operação; não sei se realmente fez algum voo de carreira nesses 5 dias. Soube hoje que uma companhia inglesa (Aquila Airways) operou a rota Cabo Ruivo-Funchal, antes, com outro tipo de hidros, e que desistiu. Nesse vazio surgiu a ARTOP, detida por dois aviadores da T.A.P., segundo hoje me disseram.
Se a rota Cabo Ruivo-Funchal, porém, acabou em razão do inexplicado acidente do CS-THB em 9/11/1958, como parece que foi, dificilmente alguém lhe poderia achar relevo no que sucedeu com o Dr. Salazar em Setembro de 1968, quase dez anos depois. De mais a mais com o aeroporto do Porto Santo inaugurado em 28 de Agosto de 1960 e o da Madeira em 12 de Julho de 1964. Não foi por falta de ligação aérea que o Dr. Moradas Ferreira deixou de vir do Funchal a Lisboa para operar o Dr. Salazar. Para o caso, nem o embaixador Franco Nogueira refere tal médico nos seis vols. da biografia de Salazar...
Quanto à reportagem do saco de plástico, confesso, li as duas primeiras palavrinhas dela e não necessitei ler mais porquanto exprimem elas o mais completo e acabado tratado sobre Salazar que pode alguém escrever: «O ditador».
O ditador tão ditador era que deixava à solta comunistas e maçons para lhe minarem livremente o governo. Tanto foi que minaram. E deve ser disto que o odeiam. Mal agradecidos!
(Martin Mariner CS-THA «Madeira» ancorado na baía do Funchal c. 1958 in Richard Alden Hoffmann, The Fighting Flying Boat: A History of the Martin PBM Mariner, U.S. Naval Institute, 2004. Também nos Restos de Colecção.)

No limite, se tal médico fosse mesmo realmente imprescindível, não podia até um vôo militar tê-lo ido buscar à Madeira? Bem sei que os costumes da época não eram propícios a este tipo "abusos"... Ainda assim, cheira-me a história rebuscada, muito forçada, no mínimo...
ResponderEliminarBic Laranja escreveu:
ResponderEliminarO ditador tão ditador era que deixava à solta comunistas e maçons para lhe minarem livremente o governo. Tanto foi que minaram. E deve ser disto que o odeiam. Mal agradecidos!
E eu assino por baixo!
É história rebuscada, decerto. Sinal dos tempos, em que, voos militares tomam como prioridade matrecos duma central cervejeira.
ResponderEliminarCumpts.
É, não é?...
ResponderEliminarObrigado!