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quinta-feira, 11 de maio de 2017

De progressione populorum

 Ligo a telefonia do automóvel esta tarde e oiço: — … Ele foi a casas de prostitutas, esteve com elas… — Um Anselmo Borges, padre, dava uma entrevista já não sei a que emissora; referia-se a Francisco papa…
 Continuo a ouvi-lo, ao Borges, Anselmo, padre. Entusiasma-se. — Ele [Francisco papa] já abriu a porta... — ao sacerdócio de mulheres, a todo género de famílias (incluindo lindos pares de jarras), ao fim do celibato... E mais adiante, algo que se não cansa de repetir: — É preciso retomar o Vaticano II, Primavera da Igreja, a que se seguiu um longo Inverno...
 O Vaticano II lembrou-me:



« Justamente, nessa altura [Março de 1967] principia a ser divulgada em Portugal a última encíclica papal: a Populorum Progressio. Salazar debruça-se atentamente sobre o documento, e considera-o deplorável. Classifica-o de demagógico, e de perigoso no plano político. Afigura-se-lhe que o pontífice condena o nacionalismo, sem que o defina, e isso poderá ser trágico [...] Em matéria de violência e de subversão, Salazar julga que a Encíclica aceita «com bastante ligeireza ou compreensão a revolta», ainda que se façam «algumas restrições à validade ou mérito da insurreição revolucionária». Pelo que respeita ao repúdio do racismo, «nada há a objectar»; e a proclamação de que todos os povos devem ser artífices do seu destino pode ser aceite se não forem esquecidas ou ignoradas as condições  próprias de cada um, o que impõe a diversidade de soluções consoante os casos. Afirma o papa que a civilização e as civilizações nascem e morrem; mas não as caracteriza; e Salazar pergunta: «portanto, também a civilização cristã?» Defende o pontífice uma autoridade mundial, «em condições», comenta Salazar, «de agir eficazmente no plano jurídico e político»; estes são problemas, todavia, em que o papa se cinge a reflectir os documentos já emanados do Concílio [Vaticano II]. Mas o chefe do governo pensa que a Populorum Progressio vem suscitar falsas esperanças, demonstra ingenuidade do Santo Padre, e contribui para adensar a confusão dentro da Igreja. Diz Salazar: «eu não estou muito aflito porque a morte em breve evitará que tenha de me adaptar» (1). »


Franco Nogueira, Salazar, vol. VI, Civilização, Porto, 1985, pp. 271-272.



 Da confusão dentro da Igreja temos, 50 anos depois, a eloquência me(r)diática dos Anselmos-Borges. A ponto de sermos videntes da aparição lúgubre da morte duma civilização.
 De Francisco papa nem sei que diga.


Basílica de Maxêncio e de Constantino, Roma (G.-B. Piranesi, 1767)Vestígios da sala de jantar da Casa Dourada de Nero, ditos vulgarmente Templo da Paz
[na realidade a Basílica de Maxêncio e Constantino]
, Roma, 1757.
Giovanni Battista Piranesi, Vedute di Roma, 346.
Água-forte, 400 x 550 mm.
(Colecção de Arthur Ross, Galeria de Arte da Universidade de Yale
.)


 




(1) Obviamente, não tenho o intuito de expor a doutrina da encíclica papal, nem sequer de traçar a sua síntese, mas apenas, seguindo uma minuta manuscrita de Salazar, assinalar os pontos que este reputou «essenciais». [Nota do A.]

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