Ligo a telefonia do automóvel esta tarde e oiço: — … Ele foi a casas de prostitutas, esteve com elas… — Um Anselmo Borges, padre, dava uma entrevista já não sei a que emissora; referia-se a Francisco papa…
Continuo a ouvi-lo, ao Borges, Anselmo, padre. Entusiasma-se. — Ele [Francisco papa] já abriu a porta... — ao sacerdócio de mulheres, a todo género de famílias (incluindo lindos pares de jarras), ao fim do celibato... E mais adiante, algo que se não cansa de repetir: — É preciso retomar o Vaticano II, Primavera da Igreja, a que se seguiu um longo Inverno...
O Vaticano II lembrou-me:
« Justamente, nessa altura [Março de 1967] principia a ser divulgada em Portugal a última encíclica papal: a Populorum Progressio. Salazar debruça-se atentamente sobre o documento, e considera-o deplorável. Classifica-o de demagógico, e de perigoso no plano político. Afigura-se-lhe que o pontífice condena o nacionalismo, sem que o defina, e isso poderá ser trágico [...] Em matéria de violência e de subversão, Salazar julga que a Encíclica aceita «com bastante ligeireza ou compreensão a revolta», ainda que se façam «algumas restrições à validade ou mérito da insurreição revolucionária». Pelo que respeita ao repúdio do racismo, «nada há a objectar»; e a proclamação de que todos os povos devem ser artífices do seu destino pode ser aceite se não forem esquecidas ou ignoradas as condições próprias de cada um, o que impõe a diversidade de soluções consoante os casos. Afirma o papa que a civilização e as civilizações nascem e morrem; mas não as caracteriza; e Salazar pergunta: «portanto, também a civilização cristã?» Defende o pontífice uma autoridade mundial, «em condições», comenta Salazar, «de agir eficazmente no plano jurídico e político»; estes são problemas, todavia, em que o papa se cinge a reflectir os documentos já emanados do Concílio [Vaticano II]. Mas o chefe do governo pensa que a Populorum Progressio vem suscitar falsas esperanças, demonstra ingenuidade do Santo Padre, e contribui para adensar a confusão dentro da Igreja. Diz Salazar: «eu não estou muito aflito porque a morte em breve evitará que tenha de me adaptar» (1). »
Franco Nogueira, Salazar, vol. VI, Civilização, Porto, 1985, pp. 271-272.
Da confusão dentro da Igreja temos, 50 anos depois, a eloquência me(r)diática dos Anselmos-Borges. A ponto de sermos videntes da aparição lúgubre da morte duma civilização.
De Francisco papa nem sei que diga.
Vestígios da sala de jantar da Casa Dourada de Nero, ditos vulgarmente Templo da Paz
[na realidade a Basílica de Maxêncio e Constantino], Roma, 1757.
Giovanni Battista Piranesi, Vedute di Roma, 346.
Água-forte, 400 x 550 mm.
(Colecção de Arthur Ross, Galeria de Arte da Universidade de Yale.)
(1) Obviamente, não tenho o intuito de expor a doutrina da encíclica papal, nem sequer de traçar a sua síntese, mas apenas, seguindo uma minuta manuscrita de Salazar, assinalar os pontos que este reputou «essenciais». [Nota do A.]
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