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terça-feira, 25 de abril de 2017

Do evangelho pelo dia de S. Marcos

Escola, Portugal ultramarino (Autor n/ ident., S.E.I.T. 384686, s.d.)



 Dia de S. Marcos, dia de curiosos evangelistas. Das tubas do regímen pregam cravos... Diz que é a abençoada democracia, a santa liberdade... É bonito! Todo o amesendado do regímen tem neste sacrossanto dia um feito notável a contar, algo a dizer... — Há pedaço li nos títulos do Sapo que o primeiro-ministro do Rato passou dia do grande acidente nacional trancado em casa duma amiga. Escondido, ou fazer o quê...?


 Pouco me importa: o evangelho para este dia é livre como o disparate. Uma bênção ao povo; um enjoo para a nação.


 Já ontem, em antecipação, a Helena Garrida rezava a habitual missa pelas Contas do Dia, um rosário matinal da emissora do Estado. Desde Abril melhorámos muito; metade das casas não tinham água canalizada (em 1974); somos mais cosmopolitas, temos melhores empregos... — Ora a gente ouve isto e apetece erguer as mãos aos céus e dar graças... à parvoíce. É que, imbuído nesta fé palpitam-me, irreprimíveis, preguntas à parva:


 Que porção de casas teria água canalizada em Portugal, em 28 de Maio 1926?... — Calhando eram mais que em 25 de Abril de 1974...


 Que falta de cosmopolitismo tolheria o mundo português em 25 de Abril de 1974, quando tinha Portugal fronteiras ultramarinas em África com quase todos os países a Sul do Equador, já para não falar do Senegal e da Guiné (Conakri), ou da Indonésia e da China? Só se fosse cosmopolitismo estrangeirado que, sendo de importação, serve de garridice à tacanhez bem falante...


 Mas bom, temos agora melhores empregos, é verdade — não esquecendo melhores desempregos também... — Ocorrem-me de imediato os da própria Helena Garrida, amesendada nas emissora e radiotelevisão do Estado logo que lhe falhou o emprego no Diário Económico. Não chegando o exemplo, podia somar para cima de 300 multifacetados presidentes da câmara (o poder autárquico, essa conquista de Abril!...) cujo paradigma mais recente é o Me(r)dina da Cedofeita, jardineiro e ás do pedal em Lisboa: democraticamente não eleito, tão livre e capaz no plantio de árvores e de pistas de ciclismo a despropósito num par de avenidas notáveis da capital, como fascista e terrível em não mandar repavimentar regularmente um metro de calçada em qualquer rua ou travessa mais obscura da cidade. E para corroborar dos reais melhores empregos de Abril, é somar-lhe a sinecura semanal na comentadoria tudilógica da T.V.I. 24. Tudo em acumulação e inclusive.


 Pois que valham os melhores empregos. Antes de Abril nunca seriam tão melhores assim. Porque não eram tão mal empregados como agora.


 




Fotografia: Escola primária feminina, Portugal ultramarino (Autor n/ ident., S.E.I.T., n.º 384686, s.d.).

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