O Fernando Alves perorava há pedaço sôbre a Gùiana francesa, êsse dept.º ultramarino da França. Claro que êle dizia Guiana sem ler o «u». Dizia e repetia. Repetiu sempre, porque não sabe, porque não aprendeu e nunca leu êste blogo. Mas lá do «quadro geral de instabilidade social» que lhe fere o sentido gramsciano com «acutilância social» e lhe inspira a veia social evangelista, disso sabe êle: quis morigerar a França por desprezar a sua possessão ultramarina, mas não pelo colonialismo — ele lá chegará... — Verberou-a, à França, porque na Gùiana, «uma em quatro famílias vive abaixo dos limites [há mais que um?] da pobreza» e porque «o desemprego na Guiana [sic] francesa atinge os 22%, enquanto na França metropolitana ronda os 9%». Eis já o colonialismo a aflorar pela faixa da esquerda, mesmo que se lhe pressinta, ao Fernando Alves, uma certa complacência de oratória neocolonial por êste «lugar recôndito», «parcela ultraperiférica da União Europeia» que «se sente abandonada» pela metrópole. Eis cá um dept.º ultramarino (não confundir com censuráveis províncias) duma França pós-colonial que hoje por hoje até sabe a pato porque… é «território da União Europeia». Isto é: é nosso, atributo de «favores mediáticos» bem calhado para legitimar todo o anticolonialista-neocolonialista-colectivista em geral, e o Fernando Alves em particular, no dever missionário de botar voto de faladura na matéria e enfiar por ali o bedelho à conta da sua moral social exclusiva e da impante solidariedade contra o desprêzo metropolitano. Tudo sem fascismo. Este é um ultramar que vem a calhar...
O Ultramar português, em tempos, é que estava mal. Para começar era português. Depois tinha muita (demasiada) atenção da metrópole — um estôrvo. E enquanto cá penso nele, o Ultramar português, de sempre, esteve errado. Logo de há séculos, a julgar de como foi parida não só esta Gùiana «dept.º ultramarino da França», «território ultraperiférico da União Europeia», mas outrossim as suas gémeas inglesa e holandesa. É que desde que os portugueses se afoitaram ao mar e extenderam seus domínios — muito até por se não quererem meter em questões de castelhanos e outros dalém Pirenéus — que essoutros daí, pouco inventivos, mas mui cobiçosos, sempre lhe procuraram lançar a gadanha. É com isto que vêm a fabricar as Gùianas, êsses entalhes açucarados esculpidos do Brasil português e tão a jeito de lhe não deixar falecer, a essoutros, um quinhão do rendoso trauto açucareiro. Para êsses gulosos do açúcar do Novo Mundo, a geometria do encontrão e do latrocínio fazia escola já desde a pirataria atlântica (não sabiam navegar até mais longe) contra as naus da carreira da Índia. E de tal maneira lhes corre a inveja no sangue que só lhes podia infectar os bestuntos, como infectou, com requinte de régua e esquadro na partilha de África. Alemães e Belgas, incompetentes antes e após a conferência de Berlim na fabricação de impérios (ou reinos metropolitanos homogéneos que fosse), mas inchadíssimos de bazófia, melhor não arranjaram do que imperialmente se instalarem em África a abocanhar talhões portugueses. O Sudoeste africano alemão, o Sudeste africano alemão e a coutada pessoal de Leopoldo II, rei dos Belgas, são exemplos acabados duma velha história de esbulho e parasitagem advinda de terras de puritanos, modernamente sublimada nos foros do Direito Internacional e do concêrto das nações com o lindo nome de «autodeterminação dos povos», uma habilidade neocolonial.
Aqueles outros (isto é irónico), brutos como bárbaros ou covardes como ratos, logo houveram de perder em África os impérios que nunca construíram e lhes fôram servidos de bandeja. Por cá também fizeram escola.
Ora da França e da sua Gùiana, hoje, o melro Fernando Alves que assovie às massas a moral exclusiva que lhe aprouver. Mas, como orador que se quere de nomeada, aprenda a dizer Gùiana com todos os sons.
(Recorte de Rebelo Gonçalves, Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, Atlântida, Coimbra, 1947, p.182.)
(Revisto.)
Pela primeira parte da nota, deve entender-se que o acento agudo faz o papel do trema - indicar que se não deve ler o ditongo? Ou é só para o ditongo "ui"?
ResponderEliminarNo caso do acento grave, porém, serve para indicar que o ditongo se deve ler - é assim?
Quanto ao resto, pois ontem pus-me a ver o debate dos candidatos franceses de há tempos.
ResponderEliminarPois calcule o que, a dado ponto, ouço dizer a um certo Mélenchon, que lá corresponde grosseiramente aos berloqueiros de cá! Isto, tal e qual: - «Que tolice falar-se em nacionalismo. Deve falar-se antes em universalismo. A França universalista! Estamos presentes em cinco continentes.»
E retrógrados eram os outros...
Não faz papel de trema. O acento agudo marca por definição uma sílaba tónica; na verdade seria desnecessário no ditongo final em «argúis» se não houvesse a possibilidade de se não ler aquele 'u' por via da regra do 'g' antes de 'i' (e 'e').
ResponderEliminarO trema (ou diérese) usa-se para o oposto; para desfazer um ditongo que poderia ler-se quando há duas vogais seguidas.
O acento grave proposto em «Gùiana» marca à mesma a leitura do 'u' a seguir ao 'g', mas como ele está em posição pré-tónica, o acento não deve ser agudo.
Simplificando: o acento grave marca o timbre aberto duma vogal átona (v.g. pèzinho, sòzinho); o acento agudo marca o timbre (normalmente) aberto duma vogal tónica (pé, só).
Cumpts.
Universalismo chauvinista. Ou de mentecaptos.
ResponderEliminarCumpts.