Concessão ao manicómio
Dois dias que ligo o telejornal, duas vezes o alinhamento dá o presidente entertainer só depois do primeiro ministro do Rato. E este por sua vez só após o campeonato dos matraquilhos. Eis o protocolo do mundo!
Este anno pintou-se muita casa no pinhal (ex-pinhal). Mas não pintaram (ou se pintaram deixaram-nas) aquelas casas ali com aquela fiada de ninhos de andorinhas. — Em dizendo isto, observa-me a senhora que sou mui observador. — O bom destes dias é o tempo na contemplação de pequenos nadas como este. Melhor que contemplar essas vidas que se expõem em casas de ante ou no caixote que lixou o mundo. Precedência às andorinhas, eis o protocolo das férias!
Fialho, «Contos»...
- «Outro que fosse — regougava — outro que fosse...», expressão repetida (p. 94) cujo significado será «quem havia de ser?!» — A minha mãe lembra-me ouvi-la «quem havia de senão ser!»
- Menajeiro = manajeiro.
- Vida ao ritmo dos sinos: «conforme antiga usança, ainda agora, nas vilas do Alentejo toca a reccolher, nove horas dadas, o sino da câmara» (nota na p. 93).
- «Tocar a padres...»
- «Não dei notícia dele» (p. 96) — dar por saber: não soube, não dei fé dele; deliciosa voz popular que ouvi pela primeira vez por 1991 ou 92 no barrocal algarvio a uma comadre Bia Soisa (Maria de Sousa). Pois justamente...
- doutor Soisa = dr. Sousa (p. 93).
- Jerolmo = Jerónimo (bem calhada ao comunista).
- prove = pobre.
«Contos» e vozes populares (ref.ª à ed. do Círculo, Alfragide, 1991).
[A pilha de obras (semi)completas de Fialho é duma leiloeira...]
Desligados
Há quatro dias nesta vilegiatura e parece — a sensação que dá — é de alheados do mundo. Confesso que no domingo tentei pôr uma photographia do entardecer no blogo, tal o encantamento neste doce desterro. Não no consegui e ainda bem. Se é para desligar, não é para ligar. Desligados assim seremos, pese a tentação destes aparelhos agora que nos querem enredar socialmente a cada instante.
O espírito do lugar
Sinto-o quieto; calhando anda passivo por isso a tentação que me deu de ligar ao mundo; ou calhando anda só latente e fazendo-se notar subtil no frustrar da tentação... Em sendo activo haveria de notar-se inequìvocamente toldando vivamente os sentidos com encantamentos de meros nadas: o arrulhar das rolas, o aroma do pinhal no vento rumorejante, o marulhar das ondas, as cigarras na canícula, o cheiro estival da casa, os grilos à noite, o céu polvilhado de estrelas e o sossêgo calmante de trás disto tudo.
Ex-pinhal do concelho, Albufeira — © 2012
(Algarve, 5/7/2016.)
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