E seendo oras de noa pouco mais ou menos se começou a batalha mortall: e logo no começo erã as pedras muytas que lançauã os homẽs de pee de hũa parte aa outra. E da parte da uenguarda [vanguarda] dos castellaãos forom logo lançados certos troõs o que aos portugueses fez huũ pouco despanto pollos não auerem em husso [uso]. E porque na auenguarda em que o Condeestabre era, hũa pedra dos troõs que asy lançauam matou dous boõs escudeiros que diziam que eram jrmaãos. E entom se começarõ de ferir das lanças muy rrijgamẽte [rijamente]. E o Cõdeestabre jndo ante a sua bãdeyra: forom em elle postas [foi alvejado de] muytas lãças: e em breue forõ todas as lanças de hũa auenguarda e da outra quebrãtadas: e [o] vallado dellas feyto [cheio]. E entõ vierom as fachas [machadinhas? de combate]: e logo elrey com a rreguarda [retaguarda] cõ grade aguça [sagacidade] se ajũtou aa uẽguarda feryndo de facha tantos e taes golpes que eram asperos de atender aaquelles que os soffriam: como vallẽte rey: ajudando seus naturaes: e sua real coroa defendendo. E o Condeestabre nõ lhe cansaua dizendo:
— « A [Ah] portugueses! pellejar, filhos e senhores, por vosso rey e por vossa terra! »
E forõ logo hy [aí] mortos huũa gram cama [camada] de castellaõs; e asy bastos como som os feixes no rrestolho do boõ trigo, e bem basto: especialmente morrerõ logo todos a mayor parte chamor[r]os [*] que entõ chamauã aos maáos portugueses que cõ elrey de Castella vijnham.
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[*] O Priberam diz que chamôrro é nome injurioso que outrora os castelãos davam aos portugueses. Da Crónica se depreende que é nome ancestral que os portugueses dão aos seus próprios traidores e que sobrevivia justamente com esse sentido ao tempo da Guerra Civil de D. Pedro e D. Miguel.
Caro Bic,
ResponderEliminarnão consigo decifrar os «troõs»...
Cumpts.
Chamorros, temos uma tal produção deles, junto com uma infestação quase natural, que devíamos exportá-los em massa... não fora dar-se o caso dessa espécie, dada o excesso de oferta por esse mundo fora, não valer actualmente a ponta dum corno.
ResponderEliminar"Troõs", salvo erro, é uma espécie de bombarda. Artilharia primitiva que disparava grandes calhaus sobre o In. O sucessor a pólvora da catapulta, digo eu, do meu observatório da belo-evolução.
Cumps
Trons (sing. trom); as primeiras peças de artilharia.
ResponderEliminarCumpts.
Do liberalismo ao nosso destempo produziu este reino chamorros em tal cópia que com pouco trabalho havíamos de (parafraseando Camillo sobre os espirituosos) haver já extensa sinonímia inventariada e sistematizada com todas as espécies que cá ganharam (cacofonia deliberada) raiz. Diria que històricamente foi a única cultura em que Portugal esteve na vanguarda da revolução da máquina a vapor e similares iluminadas. É pena a falta de estudo e de inventário taxonómico porque se acaba por em geral não perceber o gado chamorro de excelência para exportação com garantia de origem só igualada pelo cavalo lusitano ou ou toiro de lide.
ResponderEliminarTrom/trons, na grafia actual, sim senhor. Bombarda primitiva.
Obrigado a ambos pelos didácticos esclarecimentos!
ResponderEliminarUma delícia, este português antigo. Pràticamente percebe-se tudo. Uma curiosidade, qual é o plural de trom? Tenho uma ideia mas posso estar errada.
ResponderEliminarDaqui a pouco envio um comentário, nesta ou noutra caixa, sobre o que lhe havia prometido há dias:)
Maria
Já vi o que tinha perguntado, estava mencionado no fim do texto e não tinha reparado.
ResponderEliminarMaria
:)
ResponderEliminarCumpts.
Sinceramente, não percebo porque é que o caro Bic se deu ao trabalho de falar de forma tão erudita do dia 14 agosto de 1385; será que não viram as nossas televisões? Não falaram noutra coisa durante todo dia!!!
ResponderEliminarJá mandei cópia deste magnífico trecho à minha prole, espero bem que com a sua anuência, desde já agradecida, para que não percam a noção do sítio em que vivem nem das suas raízes; bem-haja!
Calorosos cumprimentos.
Agosto, queria dizer.
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