A propósito da Av. dos E.U.A. veio a montanha da leitora Zazie (na verdade a Quinta da Bella Vista). A seu propósito veio a falar-se no areeiro que deu nome ao… Areeiro. E a propósito dele veio que há um episódio do pintor Carlos Reis de quando ele habitou a Quinta dos Lagares d' El-Rei, contado pelo neto Pedro Carlos Reis no livro que dedica ao avô.
Carlos Reis tinha fortes laços de amizade com a família Guilman, proprietária da fábrica de loiça de Sacavém, de onde tinha saído a bela loiça colorida que usava em sua casa, que muito apreciava e sobre a qual escreve do Areeiro (Quinta dos Lagares d' El-Rei), a 2 de Abril de 1928, uma carta a Senhora D.ª Hermengarda, que a seguir transcrevemos, como testemunho do seu espírito:
« Minha Exma. e Boa Senhora
Agora é que é certo! Mas se não fosse a conversa que tivemos o outro dia e a circunstância de andar há mais dum ano a comer a sopa numa azeitoneira e a marmelada num pedacito de prato sopeiro, não seria ainda hoje, que eu lhe enviaria a lista da loiça escaqueirada pelo desalmado pessoal, acompanhada dum fragmento que vai para amostra.
Os vexames que eu tenho feito passar às minhas pequenas (filhas Leonor e Maria Luísa), convidando pessoas de cerimónia a jantarem em nossa casa, sem me lembrar de que não há loiça, já não têm conto! Disfarço então a minha penúria, dando ao jantar o carácter duma patuscada num acampamento de nómadas do deserto d'Arábia, justificando, assim, a razão de comermos todos na mesma panela o caldo verde, ou o arroz de bacalhau e, a fim de não repararem na solitária azeitoneira, aponto-lhes o Areeiro e digo: "Além é o deserto! Areia e mais areia! Por isso se chama areeiro..." Mas ontem, um dos convidados, malicioso poeta, satírico, piadista das arábias, olhou de soslaio para a mesa e largou-me esta termenda piada:"... Mas não fica muito perto
Um pouquinho mais além
Neste famoso deserto
... A loiça de Sacavém?!!!Foi uma bomba!!!
De noite, não conciliei o sono e desde a madrugada que penso em lhe escrever, para acabar de vez com tais piadas, implorando à boa senhora D.ª Hermengarda todo o seu caridoso interesse a favor dos condignos recipientes donde possamos comer civilizadamente o nosso bacalhau e o querido caldo verde da minha alma!!
E.R.M.
Carlos Reis»(Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, [Lisboa], A.C.D. Edições, 2006, p. 264.)
O areeiro era (ainda é) a tal montanha.
Panorâmica do Areeiro tirada da Quinta dos Lagares d' El-Rei, Lisboa, 1947.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.
Encontrei esta história muito interessante sobre o Convento de Chelas que fica do outro lado desta "montanha". Já conhece? https://books.google.pt/books?id=BdlGAAAAMAAJ&dq=Convento%20de%20S%C3%A3o%20F%C3%A9lix%20e%20Santo%20Adri%C3%A3o&pg=PA374#v=onepage&q=Convento%20de%20S%C3%A3o%20F%C3%A9lix%20e%20Santo%20Adri%C3%A3o&f=false
ResponderEliminarGostei também muito desta história do Carlos Reis.
ResponderEliminarQue história!! Adorei e como moro no areeiro.. vou ter de partilha-la , com a sua permissão tá claro!
ResponderEliminarObrigada
Não precisa autorização. Basta referir a fonte (o livro).
ResponderEliminarGrato pelo interesse.
Cheia de espírito.
ResponderEliminarCumpts.
Cuido que não. Vou ler.
ResponderEliminarObrigado da remissão!
São tantas as leituras que de muitas a memória se perde. — Achilles > Achellis > Chellas. — Sim recorda-me agora de a haver lido em tempos: a lenda de Achilles em Chelas a juntar à Ulisses em Olisipo. Obrigado de ma devolver.
ResponderEliminarNada se acha hoje como o Archivo Pittoresco e é pena. O que aparece, se aparece, é insípido ou eivado de prolixidade académica.
Cumpts.
Não conhecia a história, nem o Mosteiro. Penso que muitos poucos o conhecem apesar de ser um dos mais antigos de Portugal.
ResponderEliminarO Archivo Pittoresco é muito interessante. Entretanto descobri que tenho alguns exemplares que eram do meu avô.
Antão
O convento foi há muito esquecido. Há umas décadas a gente sabia que era a fábrica da pólvora. Agora nem sei que seja. Mas hoje, no entanto, é mais fácil descobrir isso tudo. Menos mal.
ResponderEliminarCumpts.
Os últimos dias do retiro da Perna de Pau... As terraplanagens da actual Guilhermina Suggia prenunciavam o seu fim.
ResponderEliminarVerdade! E o atêrro da Av. do Aeroporto que lhe tragou a nora gemedora e a almácega onde refrescavam as alfaces à espera das pescadinhas de rabo na boca que chiavam na sertã.
ResponderEliminarCumpts.