Numa entrevista ao Jornal de Letras em 1990 (*), António José Saraiva e Óscar Lopes divergem sobre a continuação por terceiros da «História da Literatura Portuguesa». Óscar Lopes propunha que, dentro do espírito da obra escolhessem, pessoas que a continuassem e actualizassem. António José Saraiva discordava: um livro é dum autor; mudando o autor o livro é já outro.
O entrevistador, a contento de Óscar Lopes, dá o exemplo do «Manual de Direito Administrativo» do prof. Marcello Caetano, continuado por Freitas do Amaral, no que é secundado por aquele com exemplos em História da Literatura francesa e inglesa de Lamazian e Lanson, cuja transmissão a continuadores funcionou.
E argumenta Óscar Lopes:
— Este livro representa um trabalho de cerca de 37 anos. Acho que o esforço destes anos todos de trabalho traz uma acumulação de dados que podem ser reinterpretados, mas que seria mais adequado entregar-se essa tarefa a pessoas que garantissem a continuidade do trabalho […] Eu até já tenho nomes para os meus (passe o termo) sucessores.
A.J.S. — Isso é completamente contra a minha ética. Eu não concebo que um livro seja continuado por outra pessoa com o nome dela. Parece-me que, contra as tuas ideias, estás a ter uma atitude capitalista... É o capital que prevalece.
O.L. — Não me parece que tenha nada a ver com isso.
A.J.S. — O capitalismo nasceu da possibilidade de acrescentar alguma coisa ao que já existia. Isso é capitalismo…
O.L. — Em primeiro lugar eu não rejeito o capitalismo em geral…
A.J.S. — … Ah, bem! (ri-se)
O.L. — … Há muita coisa que se aproveita, designadamente no aspecto cultural…
A.J.S. — … eu rejeito, porque o capitalismo significa a superioridade das coisas sobre as pessoas, e a actividade está nas pessoas… […]
Óscar Lopes segue por diante mais longamente expondo o seu ponto de vista de que «coisas» no sentido de artefactos são uma realidade, obra intelectual é outra (música, pintura, planos de engenharia, arquitectura, livros…)
A.J.S. — Tu admites que a obra de Mozart seja continuada por outro autor?
O.L. — Não, mas repara […]J.L. — Bom, voltando ao futuro da vossa «História da Literatura».
A.J.S. — Eu acredito é que quando morrer deixará de existir unidade entre a alma e o corpo, aquilo a que se chama personalidade.
O.L. — Eu só acredito noutro mundo que seja feito a partir deste em que vivemos.
A.J.S. — Este livro é este livro, é uno…
O.L. — … Tu pareces que acreditas no casamento de duas almas…
A.J.S. — … O que eu poderia aceitar era o seguinte: 2.º volume, por fulano de tal e fulanos de tal…
O.L. — … Um aditamento…
A.J.S. — … Um aditamento.
O.L. — Palavra de rei não volta a trás.
A.J.S. — Aqui o Óscar Lopes é uma personalidade astuta.
O.L. — Eu acho-me tão ingénuo!
A.J.S. — Ingénuo sou eu…
Que saiba, ninguém enxertou a «História da Literatura Portuguesa» até hoje. Felizmente!
(*) «António José Saraiva e Óscar Lopes: uma história na literatura», entrevista de José Carlos de Vasconcelos, in Jornal de Letras, 17/IV/1990, apud M.ª José Saraiva (pesquisa), Crónicas de António José Saraiva, Quidnovi, Matosinhos, 2004, pp. 943-955.
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