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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Mediocridade


 — Não acha picante o falso ardor com que certas personalidades e  órgãos da democracia defendem o comunismo? Como se o comunismo não fosse um dos maiores inimigos da democracia...
 — Claro está, concorda Salazar. Quem defenda o comunismo, ou quem pretenda converter-se a essas ideias, tem de renunciar, se a sua atitude é sincera, à defesa da liberdade... Liberdade e Comunismo são duas ideias antagonicas...
 Acrescento:
 — Contradição tão assombrosa, afinal, como se essas personalidades e órgãos começassem, de repente a defender a Ditadura...
 E Salazar, que se entusiasma, que quasi gesticula, depois de já ter sorrido, depois de já ter rido, depois de já me ter provado que tem reacções visiveis diante de certas ideias, como qualquer português sensivel.
 — Retorica, mentalidade de comicio, processos eleiçoeiros, que nos inferiorizam, que são os maiores obstaculos para uma obra desempoeirada, renovadora e sã. Poinsard, que fez um inquerito à vida portuguesa há vinte e tantos anos, a convite do sr. D. Manuel, viu-nos como somos, à luz duma boa observação. Fazendo justiça às nossas qualidades, acreditando no nosso futuro, êle impressionou-se principalmente com o nosso provincianismo, com a nossa mediocridade na industria, no comercio, na agricultura, na vida política, no jornalismo, na arte e na literatura de então. Muito se tem andado desde êsse momento, mas é preciso não parar, é preciso lutar continuadamente contra a falta de elevação nas ideias e nas atitudes, contra essa mediocridade de processos, que atinge, por vezes, as inteligencias mais altas e os valores mais sérios...
 — Não acredita, portanto — pergunto eu, em busca da frase final da conversa de hoje — na sinceridade de certas promessas, nas declarações avançadas, extremistas, de certos homens públicos?
 E Salazar rindo com gôsto, com exuberancia, como os seus compatriotas não fazem uma ideia:
 — Olhe... Porque não diz a êsses estadistas, tão amigos do povo, tão amigos da igualdade, que regulem a sua vida particular, a sua vida íntima, pelas ideias que defendem? Talvez lho prometam, e até com boa-fé, mas daí à realidade...
 E ditas estas palavras, as últimas da tarde, o dr. Salazar, despedindo-se de mim, entrou para a sua casa na rua do Funchal, essa casa que não seria mais simples e mais modesta se êle fôsse um comunista praticante, que vale mais para o povo, no seu exemplo raro do que todas as palavras ao vento, do que todas as promessas...


António Ferro, Salazar, o Homem e a sua Obra, Empresa Nacional de Publicidade, 1933, pp. 68-70.



A. Ferro, «Salazar, o Homem e a sua Obra», E.P.N., 1933 (in Coisas)
(Imagem adaptada de Coisas.)


2 comentários:

  1. Inspector Jaap11/10/15 14:26

    Sobre todos os temas versados no seu verbete, só lhe digo que, manifestamente, já andámos de Ferrari e hoje estamos reduzidos a carroças puxadas, ademais, por miseráveis pilecas lazarentas; e a tal (de) jerassão mais bem (melhor) preparada de sempre nem disso se apercebe; este é o derradeiro e mais grave crime desta mísera classe política que temos.
    Cumpts

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  2. E o excerto só diz o óbvio. Nada mais. Como haver então quem não no compreenda?!
    Cumpts.

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