Naquela fotografia da Alameda, ontem dei sem grande reflexão ou estudo a data de c. 1950. Bem que publicar cousas neste couseiro (*) que é o blogo é mero passatempo, mas todavia melhor fôra tê-la observado mais com atenção; um automóvel ou outro propendem para o fim dos anos 50; depois, os dois prédios à esquerda do cipreste, o dos correios da Alameda de esquina com a Rua Actor Isidoro [n.º 58] e o anterior [n.º 56], já os vi eu em tempo como tardios, mas em Setembro de 58 estavam fotogràficamente documentados (Dois predios na Alameda...).
Ora bem, no lado oposto, na esquina da Rua Actor Vale, vemos um prédio em construção (1); é o n.º 9 da Alameda (R. Actor Vale 34-34B). Na Câmara Municipal é a obra n.º 29 675, cujo processo de construção do prédio abarca o período de 12 de Janeiro de 1956 a 10 de Outubro de 1959 (PT/AMLSB/CMLSB/UROB-OP/01/25868-00002), com processos de alterações de Agosto e Outubro de 56 e Maio de 57. Outro processo relativo à ocupação da via pública (com o estaleiro da obra?) é de 25 de Outubro de 56 (PT/AMLSB/CMLSB/UROB-OP/01/25868-00001). A fiscalização da obra acha-se datada de Junho de 56 a Julho de 57. A licença de utilização é de 10 de Outubro de 59.
O n.º 9 da Alameda é obra de José António Feio do Prado Quintino (eng.º civil) e de Artur Manuel Evaristo das Dores Bentes (arquitecto). Arquitectònicamente não há muito que o distinga ao comum (mas na minha memória tenho-o cá...) No meu conceito é da transição do português suave para aquele estilo incaracterístico dos anos 60 e 70. Mas tinha porte na entrada; lembro-me de lá haver em meados dos anos 70 um posto de porteiro com cadeira de espalda e secretária de estilo. As escadas em mármore tinham alguma monumentalidade, com o primeiro lanço até ao elevador de grades de lagarto de corrimãos em ferro forjado e cobre polido e com — uma na base e outra ao cimo do lanço de entrada — duas enormes, magníficas, formidáveis cabeças de africanos talhadas em pau preto; tinham perto de 1 m de altura e diâmetro. Sendo miúdo pequeno, sempre que ali passava as admirava, fascinado.
Nos anos 80 houve um lar de anciãos, no 1.º andar, mas não me recorda de as esculturas ainda permanecerem. Nos anos 90 houve um stand e oficina da Citroën e nos anos 2000 uma dessas redes multimarca. Em 2007 extinguiram a porteira. Noto a voragem do tempo nestes pormenores, a começar nas belas esculturas africanas…
Duas notas àparte sobre o pedaço de imagem: o prédio da esquina de baixo da Carvalho Araújo (3) foi a primeira demolição na Alameda de Dom Afonso Henriques. Foi por 1970 e foi perpetrada pelo Estado que fez ali o posto da Caixa num mamarracho novo e destoante, de oito andares. A rua que se vê ao cimo (2) era o comêço da Calçada da Ladeira na embocadura com a Barão de Sabrosa; ficou truncada com a feitura da Alameda. A chaminé à esquerda era da padaria e a empena baixa que lhe vejo à direita era resto do Pátio das Águias.
Tanta coisa para dizer, finalmente, isto: das árvores despidas, dos casacões da gente e do ângulo das sombras, o mês da fotografia é por ventura entre Janeiro e Março. O ano, 57, 58 ou 59?…
(*) Couseiros são os cadernos de campo do Abade de Baçal, Padre Francisco Manuel Alves, em que assentava cousas. Este blogo é como um couseiro meu, pois então.
(Revisto ao quarto para as quatro e às vinte para as nove.)
o carro mais recente da fotografia do post anterior é um Hillman Minx Series IIIC produzido a partir de 1956 o que bate certo com as datas registadas nos licenciamentos municipais.
ResponderEliminarsobre o carro ver aqui:
https://en.wikipedia.org/wiki/Hillman_Minx
Boa pista. Não tarda deciframos o enigma. Obrigado!
ResponderEliminar