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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Minha Lisboa doutras eras

 Da minha rua via-se o Tejo. Nas manhãs ensolaradas das minhas férias da Páscoa a neblina tornava o scenário diáfano. Essas manhãs luminosas antecipavam-me as férias grandes; até lá o 3.º período era só um passinho...
 Lembranças que me vieram com uma nesga de sol em neblina brilhante esta manhã, mas que nem vão já com o tempo como o que se hoje, ao depois, pôs. Lembranças que não são elas, sequer, do tempo das fragatas nem das ancestrais fainas ribeirinhas que o Tejo evoca. Lembranças ainda novas, pois, mas de tempos em que havia, todavia, marinha mercante compondo o Tejo com navios também eles agora de antigamente e que já não há; uns como no meu livro da segunda classe, com ponte ao meio e guindastes à vante e à ré, a fazer vezes de mastros veleiros. Modernamente agora é tudo contentorizado, em formato standard: ele é a carga, a descarga, a estiva, o Tejo, Portugal... E bem acreditado, é tudo certificadinho.
 Esses cargueiros de silhueta antiga, há dias falava deles com alguém... -- foram-se, como as velhas fragatas. Foi-se a marinha mercante, foi-se o mar, o Ultramar, foi tudo. O Tejo ficou. Espraia-se para ali à esmola de paquetes em cruzeiro enquanto Lisboa, princesa camoneana das outras cidades, se curva a servir camones.


Fragatas no Tejo, Lisboa (A. Serôdio, 1966)
Fragatas no Tejo, Lisboa, 1966.
Armando Serôdio, in archivo photographico da C.M.L.


 

4 comentários:

  1. Joe Bernard7/4/15 20:41

    Que saudades do Tejo cheio de fragatas...

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  2. Anónimo8/4/15 22:43

    Belo pedaço de prosa. Maravilhosas reminiscências, estas suas, de tempos idos que tantas saudades deixam - a si, a mim e a todos aqueles que amam profundamente esta Terra Santíssima - e que, para nossa imensa mágoa e infinita tristeza, não voltam nunca mais.
    Maria

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  3. Não voltam. Mas obrigado.
    :)

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