| início |

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Porque não egreja?

 O idioma teve um processo de formação do latim vulgar às línguas românicas. Em «igreja» o «i» inicial não vem do «e» incial de «ecclesia» mas da vocalização do primeiro «c»; a forma antiga portuguesa é «eigreja» (& Vitimiro, quando vyo que os Godos tam valentemẽte entraron a cidade, foy ẽ muy grã medo e fogio a hũa eigreja de Sancta Maria», in Crónica Geral de Espanha de 1344) que se formou pelo mesmo processo de vocalização e ditongação que nos deu «feito» de «factum»; o ditongo «ei» antigo condensou-se em «i» tal como popularmente «eiró» se faz «iró».


i (Livro de Leitura da Primeira classe)

Meia página do Livro de leitura da primeira classe, 1ª ed., Lisboa, Papelaria Fernandes, 1967, in Ecos de Casével.

8 comentários:

  1. O que não é claro para mim, porém, é como do "c" se chega ao "i".

    ResponderEliminar
  2. José Igreja8/1/15 12:41

    O meu bisavô era Egreja. Nasceu no fim do Sec. XIX

    ResponderEliminar
  3. ASeverino8/1/15 19:43

    e que me dizem à umidade...só me faltava esta...

    ResponderEliminar
  4. Trata-se dum fenónemo fonético verificado nos grupos de duas consoantes latinas, cuja a primeira é oclusiva.

    Ano bom!

    ResponderEliminar
  5. E depois Gonçalves Vianna, ou Gonçálvez Viana, ou Gonçalves Viana e os que se lhe seguiram acharam melhor que a sua família fosse Igreja...
    Ano bom!

    ResponderEliminar
  6. A Crónica Geral de Espanha de 1344 já tinha a «terra humyda», mas segundo li numas Etymologias conjecturo aquele «h» vir do latim bárbaro (= medieval) às línguas românicas e passado do francês (humide) ao inglês; parece que o étimo latino era umere. Parece que os brasileiros neste caso repescaram o étimo do latim clássico em desprimor da tradição românica.
    Em tempos correu debate sobre isso aqui...
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  7. Iletrado9/1/15 18:54

    Caro Bic Laranja
    Por qualquer motivo, não consigo abrir a página da ligação disponibilizada. Porém, o "Diccionario contemporaneo da lingua portugueza", vol. 1, contém 113 referências de "egreja" e 5 de "igreja", sendo uma delas na pág xix do "Plano", onde se refere que "a tendencia moderna é ir substituindo o elemento popular pelo etymologico", de onde se depreende que o têrmo "igreja" é de origem popular e "egreja" é de origem etimológica. O mesmo diccionario não faz qualquer referência a "eigreja". Será possível que essa palavra na "Crónica" sêja um êrro orthographico?
    De qualquer modo, em relação a essa palavra, coloco sérias reservas à explicação dada para a transformação do "c" em "i". Quem viaja pelo interior do Alentejo e tem a oportunidade de falar com as gentes locais, percebe que os nativos, mesmo os mais novos, dizem "êgrêja". Da mesma maneira que dizem "âbêlha", "vêrmêlho" e "sênha", para dar três exemplos da arte de mal falar lisbonense. Em Lisboa, por qualquer motivo misterioso, as gentes dizem "igrâja", "âbâlha", "vêrmâlho" e "sânha". Determinar a maneira como se escreve as palavras utilizando exemplos de quem as não sabe soletrar, não creio ser um bom exemplo.
    Boas pedaladas.

    ResponderEliminar
  8. Que ligação?
    A confrontação com o plano da 1.ª ed. do Diccionario Contemporaneo (Aulete) é interessante. Afirma a tendência classicista que foi logo contrariada por Gonçalves Vianna (ou Gonçálvez Viana, ou Gonçalves Viana) em 1885 e depois aceita em 1911 pela República.

    A grafia com «i» parece ser a mais comum desde o séc. XIV, segundo «farejei» nos 'corpora', mas já se acha abundantemente na lírica e nos tabeliães do séc. XIII, a par de grafias em «ei-» e «e-». Diz J. Pedro Machado (e foi isso que resumi no verbete): «Manteve-se certamente em lat. popular, até certa época (tardia, parece entender-se), a articulação dos dois 'cc' (isto é: 'ekclēsĭa'), acabando o primeiro por se vocalizar em 'i'; donde as antigas formas portuguesas em 'ei-' [...] (Dicionário Etimológico..., 4.ª ed.)».

    Não duvido da ditongação de «ec-» em «ei-» ainda antes de Portugal, nem da posterior monotongação de «ei-» em «i-» -- ou em «e-», segundo a região do país, como afirma; a opção por escrever «igreja» apesar da presumível pronúncia de «egreja» nas províncias do Sul decorre da tradição mais notada na escrita do português; de toda a maneira oscilações vocálicas, nasais, e até de ditongos, entre «e» e «i», são um quebra-tolas (não ouve V. abundantemente «izército», «Izequiel», «incarnado», «intrevista» e até «Izébio»...?) para quem procure fixar a escrita na cátedra da pronúncia. Mas bem parece que os sábios que regem a cadeira são desse calibre...

    Cumpts.

    ResponderEliminar