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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O que é «o privado»?

 



 Hoje a notícia na emissora nacional.



 Há doentes com sucessivos agendamentos e cancelamentos de cirurgias para que administrações hospitalares não paguem operações no privado (Frederico Moreno, «Hospitais enganam utentes com falsos agendamentos de consultas e cirurgias», R.T.P./Antena 1, 23/I/2015).



 «No privado»?! Agora falamos todos assim, não é verdade?...
 Dantes falava-se a alguém em particular, agora só se faz tal coisa em privado. -- Não que esteja mal, mas, porquê tudo privado?...
 Um paisano, um individuo qualquer, é um particular ou é um privado?
 Dantes telefonavam por engano para minha casa, perguntavam se era do Liceu Felipa e respondíamos: -- Não senhor! É uma casa particular. -- Se isto viesse a dar-se hoje com um jornalista, responderia: -- Não senhor! É uma casa privada. (?!)


 «Privado» é o particípio passado do verbo «privar» que tem o sentido de tirar ou recusar a posse de, o direito a ou, simultaneamente, de conviver intimamente com...
 «Privado» é também adjectivo para dizer o que não é público.
 Adjectivo!


 Vender os bens nacionais a gente que financie a ideologia (ou a falta dela) no poder é moda desde pelo menos 1834... Sabemos que de sempre a jornalistagem abraça de alma e coração as modas e se agacha ao poder, mas, como actualmente não sabe mais de 30 palavras nem conhece a Gramática passou a dizê-lo (ao «privado») como substantivo, designando assim pessoa ou coisa particular. -- É isso aquele «paguem operações no privado.» -- O abuso do «privado» e a supressão do «particular» é mais um desses casos do amaricano a fazer de muleta a papagaios que não lêem, não aprendem, desprezam dicionários, ignoram o Português, e que devêm em parvajolas tão falhos de léxico corrente, trivial e quase infantil como ruir, derruir, desabar, desmoronar; claro que se despencam estrepitosamente do jornalismo, a colapsar, só a colapsar porque é o que lhes ressoa do amaricano.
 Dizer «privado» por «particular» é anglicismo que já enjoa, senhores! Derivar «privatizar» (e porque não «privadizar», ou «privadar»...?) de «privado» é engano; grossa estupidez a cavalo do amaricano «private»; pois se privado deriva já de privar, porquê o rodriguinho dum novo verbo para dizer vender?!


 É toda uma aculturação de quem desce ao seu buraco mcdonaldiano na civilização.

(Revisto. A imagem é dum repórter d' «A Patada» por .)

2 comentários:

  1. Inspector Jaap23/1/15 14:48

    Caro Bic , acha mesmo que estas pobres criaturas sabem distinguir entre um substantivo e um adjectivo?
    Lembro-lhe que, aqui atrasado, publicou um magnífico verbete em que o ministro da "educação" foi a uma escola em que se lia no quadro que "beleza" era um adjectivo; de que admira, pois? Se calhar alguns desses alunos meteram-se, entretanto, a jornalistas…
    Cumpts

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  2. É mal na engrenagem. Não escapamos da encrenca.
    Cumpts.

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