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domingo, 28 de dezembro de 2014

Do imperativo de «trazer»


« Na educativa (!!!) rubrica da RTP destinada a pôr o rebanho a falar segundo o chamado acordo ortográfico assisti hoje ao [seguinte] exemplo:



  • Traz o teu amigo também

  • Trás o teu amigo também


  Depois das perguntas da repórter pela rua sobre se traz se escrevia com «z» ou com «s» e acento, a decisão chegou, sábia, de que era com «z», porque correspondia à terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo trazer.


  Perante isto, é imperativo fazer qualquer coisa. Ou mesmo fazer qualquer coisa na terceira pessoa do singular do presente do indicativo [...]»


Nelson Reprezas, «É IMPERATIVO fazer qualquer coisa», in Espumadamente, 18/XII/14.



*   *   *


 Já cá disse da dissolução cultural do índígena por esse instrumento do abastardamento pátrio que é a R.T.P., mas não só... O caso é todavia mais fundo pois mesmo os que queremos, procuramos e nos esforçamos por escapar dos camadões de ganga estrangeira com que nos forram a burrice avulsa e com que nos ferram a imprensa, a rádio e a TV, já nos havemos com defeito.
 No tempo e no modo em que a voz do bom povo ditou a Gramática por gerações não havia grande dúvida: a 3.ª pessoa do singular de trazer nunca se confundiria com a 2.ª do imperativo. Para fazer qualquer coisa pelo problema bem posso dizer: traze os amigos todos e, se tens amigas, traze-as também... Ainda assim seremos nada. A civilização de subúrbio importada pelos suburbaninhos mais ilustrados tomou conta da cultura.


V_Trazer.jpg
Cunha, Cintra, Nova Gramática do Português Comtemporâneo, 14.ª ed., Sá da Costa, Lisboa, 1998.

15 comentários:

  1. Não será a falar de acordo com AO, mas a escrever. Se bem que, inegavelmente, a nova escrita acaba por ter influência ao nível fonético.

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  2. Já está a ter. Havemos de confrontar os «fatos» que se dirão daqui em diante com os que se disseram até ontem e comprová-lo.
    Não que alguém faça caso.
    Ano bom!

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  3. Joe Bernard28/12/14 19:26

    E uma notícia do "Correio do Minho" em qu está escrito:

    Discucção do PDM começa a 6 de Janeiro.

    Esta bate todas!!!

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  4. Bic Laranja28/12/14 19:45

    Discucção?! Parece o homem invisível: uma coisa nunca antes vista.
    Ano bom!

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  5. É semelhante a este o caso do verbo "dizer"?

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  6. Bic Laranja29/12/14 14:57

    Sim.
    Cumpts.

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  7. Aceito a crítica e o meu erro foi claro. Ainda assim... perdoável por alguma ligeireza na análise. Todavia, em defesa da honra, não me considero um suburbaninho mais ilustrado. Mas não me apetece esclarecê-lo sobre o que me considero. Cumprimentos.

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  8. Bic Laranja30/12/14 00:14

    Não me referia a si. Os suburbaninhos ilustrados são a massa ignara que molda esta civilização pela imprensa e pelas TV, com doses bíblicas de estupidez «bem-pensante» e pseudo-evoluída.

    Cuidei que o plural «mesmo os que queremos, procuramos e nos esforçamos por escapar &c.» fosse claro sobre a conta em que o tive, diferente da daqueles. O caldo civilizacional, inculto e falho de senso que nos submerge é avassalador. Por mais que tentemos contrariá-lo (digo-o por mim) é nesse caldo que nos formamos; daí o defeito em que nos havemos, como no verbete dizia.
    Lamento o equívoco.
    Ano bom!

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  9. ASeverino5/1/15 18:08

    Num jornal, atenção que isto, para mim, é crime para levar o manjerico que escreveu à barra do tribunal mas atenção que não estou a ironizar, estou mesmo a falar a sério!

    Uma vergonha!

    Uma tristeza!

    É o "Correio do Minho" mas podia perfeitamente ser o "Correio da Manhã" esse vómito da manhã.

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  10. ASeverino5/1/15 18:09

    Será que Reprezas é mesmo com z? se calhar é com s...quiçá...

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  11. Não há quiçá... Reprezas é com «Z» porque provém de um apelido espanhol de uma senhora galega que implantou uma prole de RepreZas em Portugal, no início do século XX. Dos (poucos) Reprezas entretanto fixados em Portugal foram rsultando filhos, netos e bisnetos. Alguns, com o tempo, foram aportuguesando o apelido para Represas com «s», dos quais, talvez o mais conhecido seja o Luis Represas, músico, e irmãos, embora o pai (Alberto Reprezas) ainda assinasse com «Z». Temos, assim que há um punhado de RepreZas e alguns RepreSas. Se pesquisar/pesquiZar no Face Book encontrará bastantes Reprezas, mais situados ao Norte e alguns Represas radicados em Lisboa.

    Espero ter satisfeito a sua curiosidade e desfeito o quiçá.

    Já agora: nós somos muito propensos a vícios de linguagem, como deve saber. Eu, por exemplo,comecei a ver o meu nome acentuado no «e», sobretudo à medida que foram surgindo jogadores de futebol com o meu nome, aos quais os jornais desportivos se apressaram a colocar um acento tónico. Assim a modos como pronunciar os «juniores», acentuando a sílaba ANTES da antepenúltima sílaba.

    Por outras palavras... quiçá eu devesse assinar como Nélson Represas?

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  12. Salvo erro foi no prontuário de Bergstrom que li das palavras graves terminadas em «n» (por norma acentuadas) não carecem de acento se a dita sílaba tónica terminar em «l» ou «r»; daqui Nelson e Carmen e não Nélson nem Cármen, mas Rúben (ou Rubem, que se já vai vendo) e não Ruben.
    Cumpts.

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  13. Verter o «z» do apelido em «s» é o mais natural pela óbvia associação a «represa». Tanto mais que se não conhece vocábulo «repreza» senão por corruptela da oralidade de «represa». E neste caso só em português, já que em castelhano o «s» intevocálico nunca se confunde com «z» (em castelhano há o subst. «represa» mas não «repreza»). Como o nome vem da Galiza, porém, não sei...
    Simples conjectura. O Sr. Reprezas melhor saberá se a origem do seu apelido é o subst. comum «represa», sinónimo de açude.
    Cumpts.

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  14. Nessa medida dou-lhe razão. E se atentarmos na imprensa (incluída a folha do governo) depois do grande acidente ortográfico, com «adetos», «convições», «patos» e «compatos», cidades «invitas», obras de «fição», «eruções» vulcânicas e factos feitos «fatos», condenar à guilhotina os imbecis que assim redigem é simples e justa pena de talião.
    Que desgraça!

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