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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O advogado que foi ver as montras


 «Cuidado, sô 'tor, que está a entrar na relva!»


 «João Araújo é das melhores coisas que aconteceu a Portugal nos últimos dias. «Agora não me humilhem, que devia sair daqui num carro 12 válvulas e vou entrar num Smart, e sou gordo, e é ridículo», disse, ao despedir toda a jornalistada que o cercou entre a porta do tribunal e o passeio das avenidas. Suspira como ninguém, maçado com a imbecilidade metralhada pelos repórteres, que repetem as perguntas assim que entram em directo, mesmo que já tenham sido feitas. «Ó minha senhora, o eng.º Sócrates está melhor do que eu, não vos tem aqui...» e, logo a seguir, dirigindo-se a um cameraman: «O senhor aponte a luz aqui para baixo para eu ver o caminho».
 Eu não sei quem é João Araújo. Não o conhecia mas tenho com ele a relação que se estabelece com os cantores: gosto da letra e da música. O que o artista faz para além disso, normalmente, desaponta o fã.
 O saco plástico com o almoço que foi comprar ao supermercado, o «tenho problemas graves»; o desespero perante a pergunta sobre se Sócrates estava a responder ao juiz: «Então o que é que a senhora pensa que estivemos ali dentro a fazer?» demonstra uma coisa só. Ao contrário dos perus assados que costumam aparecer nestes momentos, Araújo é um espontâneo. Não deve precisar de mediatismo para nada. Aborrece-o, até, a atenção. E tem presença de espírito.
 Repito: não se comenta aqui o caso, mas a figura, que só imagino de duas formas: ou em charutada e conhaque, em grande estilo, a mandar bocarras campino-burguesas; ou tranquilamente em casa, a delirar com Caruso e Callas, em charutada e em conhaque. Ou não. Pouco importa.»


João Vasco Almeida, in Livro das Fuças, 23/XI/14.



(A imagem é de lá.) 


2 comentários:

  1. Até que enfim que apanho um Português como deve ser!

    E a responder aos imbecis -analfabetos- como deve ser!

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  2. Este sabe amestrá-los. É precisa arte.
    Cumps.

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