Placa toponímica, Vinhais, 2013.
Cliché de Luísa Gonçalves.
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Vale a pena parar para visitar o que resta do pequeno castelo. A torre de menagem e outras torres foram apeadas, com a pedra fez-se a igreja da vila velha. Tudo ali é ainda extremamente arcaico, tudo consserva o selo de não violada genuinidade e não é nenhum delírio pensar que o pequeno burgo, com algum restauro, podia servir de exemplo do que foram as pequenas vilas medievais que serviram de base para o arroteamento da terra transmontana e ao mesmo tempo de exposição permanente do fumeiro do enchido, famoso por estes lados mas difícil de achar. Isso justificar-se-ia se alguma vez se concretizasse a aspiração dos moradores de abrir a fornteira com a Espanha, que aqui está perto, duas dezenas de quilómetros. «Fronteira aberta, boa estrada, umas piscinas nesta serra, e isto mudava como a noite para o dia», diz-me o sr. Lopes, com quem me acho a conversar. «Mas há muita construção nova, a mostrar progresso», arrisco. «É obra do Fundo de Fomento da Habitação. Aqui não há futuro. A gente nova vai-se toda embora. Não há uma fábrica. Tudo vem da agricultura, mas os leirões da terra, em socalco até lá a baixo ao rio, não aguentam máquinas e têm de ser surribados à força de braços. Ora neste mundo já não há braços para isso!» A paisagem, caindo abruptamente sobre o vale confirma o argumento. «Mas é muito bonita esta vista», digo por dizer. A resposta vem cerce: «Se as pessoas vivessem da vista não precisavam de barriga.»
José Hermano Saraiva, O Tempo e a Alma. Itinerário Português, 2.º vol., Círculo de Leitores, imp. 1987, p.171.
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Repare-se na última frase do verbete: aí, transmontano de gema!!!
ResponderEliminarE, José Hermano Saraiva, de boa memória, na sua grandeza simples captou bem essa alma.
Agora, pergunto eu:
- Que é feito desse povo, hoje arrebanhado e sem ponta daquela lucidez e desassombro???
Cheira-me que será com ele e outro do mesmo jaez que se terá que fazer o “volte-face” deste triste estado de coisas que nos corrói até ao âmago.
Cumpts
Em breve, caro Inspector, haverá pouco a que fazer o dito "volte-face"... Digo-lho eu que tenho raízes transmontanas maternas (e alto-beirãs paternas).
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Aproveito para agradecer ao prezado Bic e a todos os frequentadores habituais a minha última adquirição: o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa de Caldas Aulete, na sua 3a Edição, de 1948. Passo a explicar: embora o tenha adquirido a expensas dos meus próprios cabedais, devo o meu renovado interesse pelo idioma pátrio a esta casa digital, seu distinto anfitrião e ilustres frequentadores; interesse esse, sem o qual me não lembraria de mandar vir do Brasil ultramarino os dois grossos e amarelados volumes que o constituem (ao dicionário). É assim que entendo serem os agradecimentos devidos a todos que aqui vêm.
É, portanto, à guisa de agradecimento (não é lá grande agradecimento, mas sempre é qualquer coisa!) que transcrevo uma parte curiosa do prefácio à segunda edição que lá se encontra:
«As questões de etimologia, confessámo-lo, sinceramente, não nos apaixonam muito. Quando colaborámos no D.C. vinha por vezes, a capítulo, qual a origem certa ou provável de um dado vocábulo. Qual a origem da palavra castiçal? - discutia-se uma vez. Santos Valente confessou com a sua impenitente modéstia que lhe não achara o rasto. Com efeito, na 1.a edição lá se diz F. desconhecida. E nós acrescentámos, agora na 2.a [segundo Car. Michaellis, do lat. barb. canicistalis, de cana e do germ. stall]. Dizer: segundo Carolina Michaellis, equivale a lançar aos ombros da ilustre humanista, de quem Menendez y Pelayo proclamou ser «uma fada benéfica que a Alemanha enviou a Portugal para ilustrar gloriosamente as letras peninsulares», a responsabilidade da hipótese: para nós o é - sem injúria para a ilustre professora da Faculdade de Letras, nem para ninguém.
Outra vez, discutia-se qual a origem provável da palavra leque. Santos Valente entrevia a relacionação do têrmo com Léquios, povo a que se refere F.M. Pinto nas suas «Peregrinações». Cautelosamente a deu como F. desconhecida, na sua 1.a edição. Nesta nova edição, acrescentámos: F. Léquios. V. Léquios. Chamou-se abano-léquio, um abano de que se servia êsse povo.
Ficou, pois, respeitada a versão da 1.a ed. e, com o acrescento que figura no Suplemento desta 2.a ed. demos guarida à explicação, antes hipótese que abona o étimo de leque. Lucena refere-se a esse abano-léquio, usado pelos Léquios: o que nos inclina, naturalmente a essa engenhosa hipótese.
Nesta matéria somos cautelosos, naturalmente, lembrando-nos das ironias que choveram sôbre a cabeça de Littré, ao dar, para étimo de requin - o famoso e terrível tubarão - a forma latina requiem: ai do desgraçado que lhe cair na dentuça: pode-se-lhe rezar um requiem!... E também nos lembramos do epigrama de certo ratão de bom gôsto, farsista emérito que desfechou esta seta inofensiva sôbre os ombros dos terríveis caçadores de etimologias charadísticas:
Alphama vient d'equus, sans doute;
Mais il faut convenir aussi,
Qu'en venant de là jusqu'ici
Il a bien change de route!
É o que se chama, em gíria de Café, uma rica piada!» José da Silva Bastos
O aludido ratão é, ao que pude apurar, Gilles Ménage, gramático francês do séc. XVII. O que o levou a desfechar a dita seta, ignoro-o eu, assim como ao sentido completo do projéctil literário. Talvez aqui alguém possa esclarecer melhor esta história.
Em todo o caso, aqui fica.
Cmpts.
Infelizmente, caro mujahedin tenho que lhe dar razão, pois a tal corrosão (não confundir com corrução ) gástrica de que falo provém precisamente desse pensamento.
ResponderEliminarQuanto às origens, nada de espantar, pois eu, beirão litoral, conheço a rija têmpera das gentes desse lado, ou não fosse eu casado com uma.:)
Quanto á sua aquisição, terei que o parabentear por ela e dizer-lhe que, na parte que me toca, os seus agradecimentos são imerecidos, pois que o meu modestíssimo contributo para este notável blogo está “pago e repago ” com os seus comentários que também o enriquecem.
Cumpts
Quanto à sua aquisição, claro!
ResponderEliminarFicam cá bem os agradecimentos, sim, mas os meus. A si. Por esta interessantíssima achega às pobres incursões aqui ensaiadas pelas etymologias e, sobre tudo, pelo benévolo apreço em que vai tendo o mais que vou aqui alinhavando. E mais lhe agradeço ainda o que lhe vou lendo na Porta da Loja, sempre da maior pertinência e pertinácia, com que muito aprendo. É admirável.
ResponderEliminarA sua edição do Aulete, de 48, parece-me que foi a da sua mudança para o Brasil. Interrogo-me se segue a ortografia acordada em 1945 ou não.
Já o enigma do ratão me parece mistério mais denso. Vamos a ver no que dá.
Obrigado!
Contava também José Hermano Saraiva muita vez certo passo de Camões sobre «o fraco rei [D. Fernando] que faz fraca a forte gente».
ResponderEliminarÀs tantas, hoje, são já tantos os fracos reizinhos e a fraqueza tão debilitante que não há recobro.
Portugal acabou. Sobra talvez um punhado de portugueses, mas estão para acabar de vez. E novos não parece que se façam.
Cumpts.
Caro Bic,
ResponderEliminarA edição de 48, foi a última portuguesa, de facto.
Quanto à ortografia, não sei se segue ou não a de 45. Mas facilmente lho averiguo se me disser como. Em todo o caso, vejo, por exemplo, muitos mais acentos circunflexos do que na escrita de agora (no pedaço acima transcrito, "sôbre" por "sobre").
Não sei se é indício esclarecedor ou que permita concluir alguma coisa.
Quanto ao Porta da Loja, meu caro, aprendemos todos. E eu, decerto, não sou o que aprende menos!
Qualquer entrada de vocábulos com consoantes que o Brasil baniu: acção, actor, amnistia, connosco, direcção, súbdito, subtil...
ResponderEliminarMas desde já me parece que é a ortografia de 43 a que o Brasil se remeteu. Se «sôbre» vem com acento diferencial...
Cumpts. :)