Hoje há muito formato. Um ex-galicismo. Serve para molde, feitio, tamanho, dimensão ou (o mais óbvio) forma. E serve de estribilho a quem haja simplesmente esquecido léxico tão corrente como...
O Corpus do Português indica-nos que arribou ao português pela pena de Eça de Queiroz, nem menos:
- A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável. Lançando, e em formato rico, com telegramas e crónicas, uma outra « dessas folhas impressas que aparecem todas as manhãs» (Correspondência de Fradique Mendes);
- [...] pares de galochas, caídas para o fundo da bacia de assento, todas do mesmo formato [...] (Os Maias);
- [...] como se fez esta troca de embrulhos - que é a tragédia da minha vida? Eles eram semelhantes no papel, no formato, no nastro [...] (A Relíquia).
Se foi Eça ou não quem no realmente inaugurou nas bandas cá do Chiado, não sei; que é galicismo e novecentista [oitocentista]: de certo. Fialho seguiu-lhe a moda n' Os Gatos (1889). J. Dantas (Abelhas Doiradas, 1912; Os Galos de Apollo, 1921), J. Régio (Os Avisos do Destino, 1953), A. Portella Filho (O Código de Hamurabi, 1962) e Urbano T. Rodrigues (Os Insubmissos, 1976 *) são raros autores dignos de nota que o usaram depois, e já daqui vedes que foi 'formato' relativamente desusado em Portugal até perto do fim do séc. XX.
Foi então que tornou, como anlgicismo, estou em crer, no fim dos anos 80. Pela via informática pegou de estaca, tal é a colonização que agora nos trespassa. O emproado galicismo de Eça e Fialho passou prestes a recurso sem chama literária, fácil e irreflectido. Desde 88 o Corpus regista-o por mais dum cento de vezes, derramado em obras dos moderníssimos Maria Velho da Costa, Rita Ferro, Francisco Viegas, Rúben Andresen, Mário Braga, João de Melo, Cardoso Pires, a que podemos somar na imprensa que temos, um Seixas da Costa, um José Barata-Moura (com hífen) ou um Alm. Per.ª Crespo (in Público, Expresso, O Jornal, Jornal de Leiria).
Na imprensa, na rádio e nas televisões há agora (no séc. XXI), carradas diárias de 'formato(s)'. Um barbarismo subtil em que os ditos (e os não ditos) eruditos são sintomàticamente levados.
E assim se desformata deforma o português...
Vendedor de banha da cobra, Lisboa, 1957.
Fotografia: Eduardo Gageiro, in Lisboa no Cais da Memória.
* A par dum tropicalíssimo grã-fino: «[...] acendia um charuto granfino, de formato bizarro, que um repórter brasileiro, folgazão, lhe metera no bolso.» -- Justificar-se-á no brasileiro folgazão o tal granfino de Urbano mal grafado...
Em Campo de Ourique era no Jardim da Parada...
ResponderEliminarA banha da cobra?
ResponderEliminarCumpts.
Nem mais. Adorava ver os vendedores... e muita gente a comprar. Compravam um artigo e depois tinham direito a mais meia-dúzia de coisas...
ResponderEliminar:)
ResponderEliminarCumpts.
E agora, caro Joe Bernard , impingem-nos a mesma (quiçá pior) banha-da-cobra , devidamente formatada para estes cérebros que tudo digerem, e depois temos direito a FICAR sem mais meia dúzia de coisas; se calhar foi por isso que durante a semana que antecedeu as penúltimas eleições, o Prof. Vasco Graça Moura escreveu um artigo em que se lia que o povo português estava “formatado” para a m… nem menos!
ResponderEliminarCumpts
Somos moldados, burilados e empacotados todas as noites ao serão, por cabo, que pagamos.
ResponderEliminarMal por mal os bolcheviques pagavam as necessárias viagens à Sibéria para moldar as mentes na forma correcta.
Cumpts.