(Por me bem haverem relembrado disto...)
É verbo latino (recumbō, is, ěre, cubŭi, cubĭtum); quer dizer recostar-se, deitar-se ou reclinar-se em português corrente. Em latim tomava ainda o sentido muito concreto de pôr-se à mesa; os romanos banqueteavam-se deitados. É verbo sinónimo de decumbō, is, ěre, cubŭi, cubĭtu, este com o sentido também de meter-se na cama (deitar-se, portanto), segundo informa António Gomes Ferreira no Dicionário de Latim-Português (Porto, Porto Editora, imp. 1995). Deles (ou melhor, dos seus particípios decubĭtus/recubĭtus, a, um) tomou o português por via erudita os nomes decúbito e recúbito que significam estar deitado ou encostado.
O verbo recumbir vem nos dicionários modernos (Priberam; Porto Editora, 5.ª ed.), mas há-de ser rebuscado usar tal verbo em português. O Corpus do Português recenseia-o apenas por três vezes no séc. XX, numa única autora e obra: Fernanda Botelho, O Ângulo Raso (1.ª ed., 1957). Em séculos anteriores só o verbo em latim consta nas obras portuguesas do Corpus (em expressões latinas pròpriamente ou em dicionários de Latim e afins).
A derivação recumbir > recumbente para qualificar um certo tipo de bicicletas (ou triciclos) em que o ciclista dá ao pedal deitado, à primeira vista não parece repugnar ao português (embora de pedir derivemos muito chãmente pedinte e de ouvir, ouvinte, a verdade é que de presidir derivamos presidente e de cair ainda fazemos melhor: cadente). Todavia cheira-me este recumbente a anglicismo. Se não inteiramente na forma, pelo menos no timing na oportunidade. E na facilidade. Também me cheira que há-de ser por esta última que o achais já tão prestes no Priberam, esse hostel albergue de todos os barbarismos.
E podeis quedar-vos só por aqui.
Ou...
Se vos não satisfizerdes só com facilidades débeis procurareis então o bárbaro recumbent em dicionário apropriado. E achareis o seu significado, a saber, estar deitado.
Em decúbito ou recúbito, portanto.
Logo, uma bicicleta em que se pedala deitado será... um velocípede de decúbito ou de recúbito.
Em reforço (e talvez por ironia das débeis facilidades, embora nem todos hajam de saber latim) relembro que recubitūs (s.m. pl.) era simplesmente como os romanos designavam os leitos em que se deitavam a comer.
(Imagem de triclinium, in Triclinium.)
Permita-me,caro Bic,que cite:
ResponderEliminar12-6-1914
"Pã continua a dar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
RECUMBENTE nos campos"
(últimos quatro versos da 2ª estrofe das Odes de
Ricardo Reis que começa:"O DEUS PÃ não morreu,"nr.313
na edição da Aguilar organizada por Aliete Galhoz)
Cumprimentos
José
Muito obrigado! Não consta do «Corpus», que foi o que me vali para redigir o verbete. Nem constava nas três primeiras páginas do Google ontem quando fiz uma pesquisa rápida.
ResponderEliminarCuido que haja mais casos. Neste, e muito particularmente de Pessoa, não descarto influência da sua educação anglófila para recurso a tão raro vocábulo.
Bom achado!
Cumpts. :)
Ainda bem que fui prestável.
ResponderEliminarTambém julgo que "recumbente" procederá,em Pessoa,da
educação anglófila.Salvo se algum autor lusitano anterior a R.Reis a utilizou.Não possuo conhecimento
para o afirmar.
Aproveito para observar que a edição da Obra Poética de Pessoa na Aguilar(a única que possuo porque a da Ática
ficou para sempre emprestada já nem sei a quem)apresenta numa única estrofe as nº2 e nº3 por si
transcritas do Arquivo Pessoano.Nunca explorei tal
arquivo e desde já lhe agradeço a notícia dele.
Há agora edições críticas da obra pessoana,arcas de arcas lhes chamo eu,utilíssimas para os
investigadores,mas para os portugueses comuns fazia
falta uma edição portuguesa de bolso,portátil,do
género desta da Aguilar mas corrigida dos erros e do brasilês(Aliete Galhoz só a reviu em 1969 e vai já na vigésima edição).
Cumprimentos.
José
Absolutamente assombrosa a simplicidade com que nos mostra a radiografia de tal verbo, como, de resto, é seu apanágio; ainda assim, permita-me o optimismo dum romântico parvo: haverá ele alguma possibilidade do termos inglês ser um… Portuguesismo? Deixe-me sonhar!
ResponderEliminarCalorosos agradecimentos por mais uma notável lição de bom Português (qualquer confusão com outra coisa é pura coincidência).
Subscrevo!
ResponderEliminarObrigado a ambos!
ResponderEliminarCumpts. e boas férias, em sendo caso.
A via inglesa para o latim é larga e direita: é de crer que em nenhum outro país do mundo é tão estudada e divulgada a cultura romana (e clássica em geral) como em Inglaterra.
ResponderEliminarSeria interessante verificar o número de edições de autores clássicos em inglês, francês, alemão, castelhano e português ou comparar os programas dos ensinos secundários e superiores.
Parece-me que o estimado A. do Bic se esquece de onde fica o Muro de Adriano!
Bem verdade que é larga. Larguíssima. Já direita não direi tanto. É antes enviesada, mas será a única, já que a directa, a formação clássica que costumávamos haver nós cá, acabou. Ironicamente por modas anglo-saxónicas... Mas tem razão. Ao fim e ao cabo estou a fazer jus ao que me disse. E a culpa não é de ninguém senão da cegueira que nos deu. Sucede que vamos num torvelinho de ignorância e do pior já nos não livramos, que é darmos em 'amaricanos' crioulos. É de novo o processo de romanização dos bárbaros lusitanos, agora à americana.
ResponderEliminarCumpts.