| início |

domingo, 23 de junho de 2013

Ainda a linha do Corgo. E Trás-os-Montes...

Linha do Corgo (Rui Barbosa, 1978)
Linha do Corgo, 1978.
Rui Morais de Sousa, in Portugal Velho.



A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins, quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas virgens d'aquella região polar.
 Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica.
 O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil! (Isto era escripto em 1853...)
 [...]
 Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e influir seriamente no futuro da empreza lyrica.
 Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta lerá, na vinha, de barriga ao ar, o Tymes, e Benjamin Constant. O proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco ha-de viver quem não vir tudo isto.


Camillo Castello Branco, Scenas Contemporaneas, 2.ª ed., Cruz Coutinho, Porto, 1862, p. 133 e ss.


3 comentários:

  1. Inspector Jaap25/6/13 11:31

    Esse Camillo devia ser um bocado limitado e reaccionário, já estou eu a imaginar o pensamento destes patetas das luminárias se lessem (se soubessem ler) algo com conteúdo… Um dia destes, vai à vida a do Douro, enfim o que dela resta, já que Barca d'Alva tem lá umas formosas ruínas consequência da fecundidade destes espíritos que por cá pululam; se morasse para além do Marco de Canavezes, já estava a pôr as barbas de molho; que indigência, caramba!
    Cumpts

    ResponderEliminar
  2. Inspector Jaap25/6/13 11:32

    Para lá do Marão (ainda) mandam os que lá estão???
    Cumpts

    ResponderEliminar
  3. Já ninguém manda nada. Só há mandaretes. Há muito que a nova ordem os alapou no poleiro.
    Cumpts.

    ResponderEliminar