A allocução do professor José Pedro Serra da Universidade de Lisboa no forum «Onde pára e para onde vai a Língua Portuguesa» foi eloquente. Não me referi a ela aqui ha dias porque, como não tomei notas, receei não na saber transmittir como devido. A sessão foi gravada e a sua allocução, bem como as de mais, foram hoje divulgadas através da página da I.L.C.. Aqui deixo, todavia, um resumo com transcripção da maior parte de suas palavras.
Começou o prof. José Pedro Serra por congratular-se com a sala cheia e com o excellente signal que era a muita presença de estudantes a assistir. (Não é de somenos a notada presença dos estudantes porque na notícia do acontecimento no Público ha commentarios procurando negá-la. Talvez procurem com elle justificar o chavão dos velhos do Restello...) Referiu o professor então, á laia de introducção, o modo ignobil como foi o accôrdo orthographico lançado e approvado, a falta de reconhecimento democratico ás críticas feitas e aos motivos scientificos da sua recusa. Mencionou a dimensão da resistencia -- aqui estamos resistindo, de pé, de pé entre as ruinas se preciso fôr -- que é um signal muito positivo. Frisou que a discordancia e a acção de resistencia não são effeito de capricho mas antes se fundam em razões de ordem formal e razões de ordem material e scientifica. E disse:
[...] Ao longo não apenas da minha formação academica, mas tambem ao longo da minha profissão como professor, fui apprendendo a escutar a palavra. Fui apprendendo a ouvir o pensamento que ella em mim faz. Quere dizer que se estabelece entre aquelle que escuta a palavra e que a pretende, não dominar, mas deixar que ella se abra e se faça pensamento, uma relação amorosa.
Justamente, aquillo que a mim mais me choca é que -- de accôrdo com esta proposta de mau accôrdo --, aquillo em que a linguagem se transforma é alguma coisa que, embora já [desde 1911] longe seu fulgor etymologico, passa a ser uma coisa completamente vellada e escondida. Quere dizer que difficilmente podêmos encontrar os echos não apenas de uma história semantica, mas mais do que isso até, podêmo-nos encontrar cegos perante signaes que suppostamente são arbitrarios quando na verdade, ao tomá-los como arbitrarios, não estamos a ser mais do que barbaros, esquecidos de seculos de cultura que pretenderam tornar mais luminosa a palavra dicta e a palavra escripta. [Applausos!]
[...] Este accôrdo, do meu poncto de vista, não deve ser desligado d'aquillo que occorre com a lingua portuguesa e com o ensigno da litteratura portuguesa. O que acontece é que, por uma especie de cegueira ou de modernidade miope, escrava de um sentido de efficacia tolo e parvo, de accôrdo com a qual aquillo que nos interessa é sermos efficazes a fallar, mesmo que grunhamos em vez de fallar. Com base nessa idéa tôla e cega da efficacia pensamos que o melhor é ensignar a fazer requerimentos, o melhor é ensignar a fazer regulamentos, porque isso é a vida quotidiana, quando estupidamente, como é obvio, se alguem dominar a lyrica de Camões, ou a epopeia de Camões, não terá nenhuma difficuldade em fazer um requerimento. [Mais applausos!]
[...] Eu não gosto que me mexam nas contas do banco, mas ainda menos gosto me mexam n'aquillo que me tece a alma e que ahi reside como um patrimonio que não é de um govêrno mas é de uma Historia que nos ultrapassa a todos. E por isso eu estou aqui tambem comvosco a dizer NÃO!
(Imagem adaptada da Europa Viva.)
Texto revisto em 25/III/013 segundo gentil suggestão do Sr. Pedro da Silva Coelho.
Acabo de ver no final de um filme brasileiro escrito anistia , já vi no motor de busca que eles dizem mesmo anistia ,portanto não se tratou de um erro , mas que nossa(?) língua futura é esta ?
ResponderEliminarÉ uma (pouco) sutilmente mutilada, da qual não nunca seremos indenizados.
ResponderEliminarCumpts.
Caro Bic Laranja,
ResponderEliminarGostaria de aproveitar a occasião para lhe communicar o enorme appreço que nutro pelo seu cyberdiario.
Allém d'isso, tenho de confessar o quanto me agrada ver na sua prosa "a gala da translitteração greco-romana" vestindo a nossa lingua "do seu vero manto regio".
Se me permittir a indelicadeza, tomarei a liberdade de lhe chamar a attenção para a falta de um 'p' na palavra "apprendendo" no seguinte trecho: "Fui aprendendo a ouvir o pensamento que ella em mim faz". Creio, addicionalmente, que: i) "estabelecer" deveria ser graphado com 'l' unico, e não geminado, porquanto provém do latim "stabiliscĕre", de "stabilīre"; ii) que seria de preferir "poncto" (em face do latim "punctum") à forma "ponto"; e iii) que seria de preferir a forma "ensigno", porquanto provém do latim "insignio".
Com os meus melhores cumprimentos,
Pedro da Silva Coelho
Não é indelicadeza, é favor. Texto revisto.
ResponderEliminarMuito Obrigado.
Caro Bic Laranja,
ResponderEliminarMuito obrigado por haver tomado em consideração as minhas suggestões.
Hesitei antes de voltar a escrever-lhe, porquanto me parece que estarei a ultrapassar os limites da cortesia. Decidi endereçar-lhe este segundo commentario por três razões: i) pelo muito que me agrada este seu verbete; ii) pelo intenso prazer de ler o dicto na graphia que escolheu usar; e iii) pelo grande respeito que tenho por si e pelo muito que apprendo com o seu cyberdiario.
São duas as observações que gostaria de lhe deixar, a proposito de algo que na manhã do dia de hoje, quando primeiramente li o seu verbete, me escapou:
1. Faltará um «u» no trecho «por uma especie de cegeira»;
2. A proposito da forma «falar», gostaria de lhe perguntar se prefere esta forma á forma «fallar». Como argumenta José Leite de Vasconcellos, a páginas 74 do seu opúsculo 'As «Lições de linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo - Anályse crítica' [http://archive.org/details/asliesdelinguag00vascgoog]: «Falla vem de fallar; e fallar vem do lat. fabulare [...]. De fabulare veio *fab'lare e por fim fallar, onde o primeiro 'l' representa, por assimilação, o b,--exactamente como succedeu em 'taleira' ou 'talleira', de *tab'laria, tabularia.»
Aproveito também a occasião para deixar uma referência a Glauco Mattoso, escriptor brasileiro, caso possa ainda não ser do seu conhecimento e porque creio que lhe agradará.
Glauco Mattoso, revoltado pela imposição do AOLP90, decidiu adoptar um systema orthographico a que chamou «etymographia», o qual usa actualmente em todas as suas publicações. Para esse effeito, compôs a obra «Tractado de Orthographia Lusophona», na qual consolidou as regras da «etymographia», havendo publicado a referida, em versão *.pdf, em http://www.elsonfroes.com.br/tractado.htm. O mesmo texto está também disponível em http://correctororthographico.blogspot.pt/. Allém das suas obras litterárias, Glauco Mattoso assigna uma columna periodica intitulada «Anarchico archaico», publicada no portal C(h)ronopios e graphada segundo os preceitos da «etymographia»: http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id_usuario=28#texto.
Esperando não haver excedido os limites da urbanidade e não haver abusado da sua paciencia, deixo-lhe os meus melhores cumprimentos,
Pedro da Silva Coelho
Em boa hora decidiu porquanto me dá notícias que, confesso, desconhecia. Inesperado um caso d'estes d'aquellas partes, por ser d'onde justamente teimam em ceifar a esmo e a eito a etymologia das palavras (conhece este absurdo?).
ResponderEliminarDa fórma «falar/fallar» guiuei-me pelo Cândido de Figueiredo de 1913. Na verdade esquecera-me a lição do Dr. José Leite de Vasconcellos, a corrigir nem mais nem menos do que... Cândido de Figueiredo. Imperdoável.
Revista a «cegueira» e o «fallar».
Obrigado.
O absurdo que ficou em falta.
ResponderEliminarhttps://fbcdn-sphotos-h-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash4/481996_622893727724602_1487169567_n.jpg
Cumpts.